Engenheiro da prefeitura de Porto Alegre, Arildo Mellender de Araujo tinha carinho pelo período em que trabalhou na Caldas Junior, entre grandes figuras da intelectualidade. Ele faleceu no dia 13 de julho de 2025, aos 84 anos
Era certamente tarde da noite – talvez até madrugada – quando o encontro aconteceu. Disso não há dúvidas, já que a tarefa de revisar um jornal impresso matutino não podia ser feita mais cedo: se esticava a corda o quanto desse para que repórteres, editores e copy desks pusessem no papel a notícia mais atualizada possível do dia anterior.
O ano é incerto, algo entre 1958 e o início dos anos 70 (pode ter sido antes da Legalidade ou depois do AI-5). Não se sabe também se ocorreu num dos corredores do histórico edifício na esquina da Caldas Junior com a Rua da Praia; talvez em frente à mesa do cafezinho que mantinha a redação do Correio do Povo a todo o vapor na hora do fechamento.
O fato é que um anônimo e jovem revisor chamado Arildo Mellender de Araujo estava sendo aconselhado pelo poderoso presidente da Cia. Jornalística Caldas Junior, Breno Caldas.
— O que tu estás cursando na universidade?
— Eu tô na engenharia da Ufrgs, doutor Breno.
— Ah, então prioriza esse curso, não deixa de lado por nada.
O diálogo com o dono do jornal ficou retido na memória do meu tio Arildo, que o reproduziu mais tarde em uma conversa com o seu irmão caçula, Aldo, meu pai. Entretanto, os detalhes dessa conversa (terá o tio Arildo merecido atenção naquela noite por alguma revisão especialmente cuidadosa, ou foi só um encontro casual mesmo?) não saberemos.
Arildo Mellender de Araujo faleceu no dia 13 de julho de 2025, aos 84 anos, de enfarto, deixando a história incompleta. E desalentados os corações de dois filhos, Regis e Flávia, da netinha, Isabela, da ex-companheira, Marilda da Cruz Diederichs — de quem virou um grande amigo após o divórcio. Dos irmãos Aldo e Marlene (a mais velha dos três, ela jamais imaginava que enterraria um dos irmãos), do cunhado e grande parceiro Juarez Manoel Dornelles Przybylski.
Nós, os sobrinhos, também ficamos meio órfãos: eu, Pedro, Márcia e Cláudia (que ainda teve o privilégio de poder chamá-lo de dindo). E assim também a geração seguinte, os agregados da família, todo mundo que o amava profundamente e sente saudade.
Arildo deixou também histórias divertidas e inusitadas, de uma Porto Alegre que ele palmilhava nas madrugadas depois do trabalho, atrás de um sanduíche gostoso na confeitaria Matheus, de uma cerveja no Bar do Fedor ou ainda na longa subida entre o abrigo do bonde, na avenida Bento Gonçalves, até a casa da família, nos altos da Rua 12 de Outubro, no bairro Partenon.
Essas lembranças embalaram muitas conversas que tivemos em anos recentes, quase sempre com alguma referência ao Correio do Povo, emprego que ele deixara há décadas, mas que sempre era lembrado com carinho e ouvido com curiosidade por todos – mas especialmente por mim, também jornalista.
Sacaneando Quintana. A carteira de trabalho registra o início do contrato na Companhia Caldas Junior em 21 de abril de 1958, mas não o fim, que todos acreditam ter ocorrido aproximadamente 15 anos depois. Arildo teve uma rápida passagem pela Folha da Tarde e se consolidou como revisor do velho “Correião”, o jornal em formato standard da empresa, um dos mais importantes do país.
Naquela redação, meu tio viveu a Legalidade, a ditadura militar, os anos de chumbo. Chegou a ser detido quando, depois do expediente (e de alguns brindes com amigos), pegou o carro e ficou dando voltas na quadra dos quartéis-generais da Rua da Praia, a ponto de algum militar de plantão temer o risco de um atentado. Consta que deu um ‘carteiraço’ de jornalista e foi liberado.
Na Caldas Junior, teve convívio fraterno com Mario Quintana, que mantinha uma coluna no jornal. Arildo se permitia inclusive “sacanear” o colega famoso de trabalho, como na ocasião em que, junto com outros revisores, desatarraxou de propósito a tampa do açucareiro antes de o poeta se servir – o que, obviamente, terminou com uma montanha de açúcar sobre a xícara de cafezinho de Quintana.
Parece que o episódio terminou com risadas inclusive da vítima. Mas a irmã mais velha, Marlene, lembra de uma ocasião em que ele relatou, muito grave, que ao chegar na redação e ir procurar pelo poeta para fazer alguma brincadeira, foi alertado por outros companheiros de trabalho: “hoje não, Arildo, que ele tá no maior mau-humor…”. Prudente, não se arriscou.
Outra figura famosa que cruzou seu caminho foi Celso Pedro Luft, linguista, criador do Minidicionário Luft (item obrigatório do material escolar nos anos 1980), acadêmico respeitado no curso de Letras da Ufrgs, colunista do Correio do Povo e, depois, também marido da escritora Lya Luft. Certa ocasião, a manchete do jornal, que Arildo precisava revisar, trazia o nome ‘Estados Unidos’ — levantando uma velha dúvida sobre se o verbo que sucedia o sujeito deveria ir no plural ou concordar com o país, no singular.
Embora tenha contado essa história muitas vezes, não conseguimos lembrar qual foi a solução dada pelo tio na ocasião, mas o fato é que ele foi suspenso do trabalho por alguns dias em função de ter tomado a decisão errada. “Mas o Celso Pedro Luft escreveu na sua coluna que a manchete (defendida por Arildo) estava correta”, conta a tia Marilda, que na época ficou preocupada com o impacto do “gancho” do tio no orçamento da família. Ao fim, a suspensão foi revertida e o “doutor Breno” manteve o pagamento integral do funcionário naquele mês.
Hábito adquirido da mãe. O hábito da leitura de jornais foi incutido na família pela minha avó, Christina. Ela lia “de cabo a rabo”, logo de manhãzinha, ao passo que meu avô, Arlindo, não dava muita bola para as notícias e preferia passar o tempo entre as ferramentas de sua oficina de marcenaria. Foi o tio Arildo quem ombreou com o vô Lindo a empreitada de construir o andar térreo da casa da Rua 12 de Outubro, adquirida graças à política de habitação popular, já que a família era muito humilde.
Ele começou a trabalhar cedo, logo aos 15 anos, porque queria pagar um profissional para cortar seu cabelo (parece que os cortes que o vô fazia não eram muito atraentes). Mas a renda como office boy em um escritório era também aplicada na compra de livros e foi isso que despertou o amor pela leitura no irmão mais novo, meu pai — hoje professor universitário e dono de uma biblioteca invejável.
Para o tio, o emprego no Correio do Povo foi central para a conquista do diploma: o trabalho noturno, embora cansativo, era conveniente para conciliar com as aulas da Engenharia — ele seguiu o conselho do patrão e se graduou na Ufrgs em 1974. Logo depois, passou em um concurso público da prefeitura de Porto Alegre, onde foi engenheiro civil da Secretaria Municipal de Obras e Viação até a aposentadoria.
Nos anos finais, morando em uma residência para idosos por vontade própria, seguia de perto o noticiário, que lia nos jornais da cidade e ouvia no rádio. Também escrevia pensatas sobre a realidade política brasileira e internacional. Era ponderado nas suas análises — apesar de ter sido filiado ao PDT (por admiração ao líder trabalhista Brizola, a quem admirava), dizia que atualmente não era “nem de direita, nem de esquerda” (o que levou o primo Regis a brincar que ele era “do Centrão”, o que sempre o fazia rir).
Nos encontros familiares, era um dos mais tagarelas: “Ô Aldo… ô Naira” — ele sempre puxava assim a conversa. Por isso, na última segunda-feira, ao final da mateada na casa da tia Marlene que marcamos para registrar essas memórias, o Aldo, meu pai, disse: “Bah, tava ótimo o papo… só ficou faltando uma pessoa”. Saudades de ti, tio! Obrigada por tanto!
FIM