Os grandes escritores do passado, em regra, não sabiam administrar seus negócios. Perdulários, sonhadores, facilmente se deixavam enganar, ou porque acreditavam no que lhes diziam, ou porque não se importavam com os prejuízos ou até para ver aonde podia chegar a torpeza de quem os ludibriava. O presente não os preocupava, menos ainda o futuro. No fundo, esperavam um novo Século de Péricles, resignando-se à sua nostalgia, e um bom número deles, se não era ajudado ou não entrava para o serviço público, morria na miséria.
Exemplos notáveis são Oscar Wilde, esquecido e arruinado, carregando a meningite que iria matá-lo numa espelunca de Paris; Paul Verlaine, que além de viver desregradamente, meteu-se em danosos empreendimentos agrícolas, passando seus últimos dias em hospitais e num pardieiro, onde coabitou com duas prostitutas – isso sem frisar que, em distintos momentos de desespero, deu dois tiros em Rimbaud e tentou estrangular a mãe; Edgar Allan Poe, governado pela bebida e pelo jogo, miserando a ponto de perder-se, bêbado e drogado, nas ruas de Baltimore, e ser levado a um hospital para morrer; e o caso de Daniel Defoe, merceeiro, armador, oleiro, que treze vezes enriqueceu e voltou a ser pobre: quando empobreceu sem volta foi esquecido por todos, “exceto por aqueles que estavam incapacitados de dar qualquer assistência”, e morreu fugindo dos credores, tão solitário quanto seu Robinson Crusoé.
Alguns escritores, por certo, eram bons negociantes. Ou, se não o eram, ao menos não se despojavam do que obtinham e podiam trabalhar com dignidade e independência. Mas houve outros que, já neste degrau da pirâmide social, optaram por suplantá-lo. Não lhes bastava o necessário e tampouco o útil para uma existência confortável e perseguiam o voluptuário e todas as benesses da opulência. A condição material deixava de ser um meio para ser um fim. Eram espertos, não perdiam o dinheiro. Perdiam a literatura. Ou era esta que os abandonava, pois parece sufocar quando relegada a um segundo plano. Em 1939, John Steinbeck fez fama e dinheiro com o Prêmio Pulitzer atribuído a Vinhas da ira, filmado no ano seguinte por John Ford. Tornou-se um figurão, amigo de presidentes, mudou-se para Nova Iorque, esqueceu-se da causa e persistiu no efeito, tornou-se um mero fabricante de quimeras literárias e cinematográficas.
Menos problemas deveriam ter os raros escritores abonados, como Alfred de Musset, pertencente a uma abastada família burguesa; Ivan Turgueniev, filho de um coronel reformado e de uma dama milionária: aos 32 anos, viu-se possuidor de sólidos cabedais; Leon Tolstói, herdeiro de aristocráticos latifundiários, que na mocidade em Moscou e São Petersburgo teve uma vida mundana e devassa; Thomas Hardy, filho de um bem-sucedido construtor, que em seus verdes anos dedicou-se à arquitetura; Tristan Bernard, que antes de dominar os palcos de Paris, comandou uma indústria de alumínio; Rainer Maria Rilke, filho de um ferroviário, mas sustentado em sua existência errante por senhoras da alta nobreza; ou André Maurois (pseudônimo de Émile Herzog), membro de um clã de magnatas, que foi diretor de uma grande fábrica. “A prosperidade não muda os corações bem-formados”, lê-se num conto de François Coppée, mas a biografia desses potentados demonstra que a riqueza, se não os prejudicou, também não os beneficiou. Tolstói teve dificuldades para livrar-se dela.
O caso de William Shakespeare é insólito, tantas foram as criaturas antagônicas que, pacificamente, nele conviveram. Goethe atribuía-lhe “mil almas”. Pode alguém imaginar o autor de “Hamlet” a contar dinheiro? Ou figurar, instalado na melhor casa da cidade, o mesmo homem que, da mesma cidade, pouco antes fora escorraçado? Ou ver que, de repente, o cavalariço do teatro é seu proprietário? Tudo em Shakespeare é congresso de extremos, seja na vida ou na sua obra, cuja linguagem vai da grandiloquência ao chulo, cujas personagens vão da casta donzela ao vil canalha, da nobreza cortesã ao sórdido escorralho, num coro de irretocável harmonia. Ele parece ter sido um deus que passou 52 anos mostrando aos homens o que eles verdadeiramente são. E em matéria de dinheiro foi tão ladino quanto um diabo.
Já na infância, dir-se-ia, estava endividado, por causa dos fracassados negócios do pai. Depois de se casar e ver nascer três filhos, teve de deixar a cidade natal por ter sido espancado e perseguido por um nobre cujo patrimônio lesara. Em Londres, tomava conta dos cavalos às portas dos teatros. Da soleira promoveu-se à plateia através de um novo emprego, o de call-boy, isto é, o “ladrador”, como então se chamava. Pouco depois foi aproveitado num pequeno papel da peça “O gigante Agrapardo, rei da Núbia, pior que seu irmão, o falecido Angulafer”. Segundo Victor Hugo, era o homem que alcançava o turbante ao núbio. De ator a autor foi só um passo e suas peças começaram a ser representadas. Henrique VI (terceira parte) foi a primeira e seu talento explodiu.
“Um poeta”, escreveu Robert Greene, contemporâneo de Shakespeare e também dramaturgo, “é um dissipador e um pródigo, nascido para fazer do taberneiro um rico e dele próprio um mendigo”. Mas Shakespeare começou a fazer dinheiro e – aleluia – quanto mais ganhava, mais e melhor escrevia. “Empolando seus versos, sabia empolar também sua bolsa”, comenta Jean Paris, e acrescenta: “O teatro alimentava seu homem”. De fato. E também a cerveja, da qual era o fornecedor.
A 4 de maio de 1597, em Stratford, ele adquiriu de William Underhill, por 60 libras, uma das mais confortáveis casas da cidade, situada na esquina da rua da Capela com o beco do mesmo nome. A propriedade, New Place, possuía dois celeiros e dois jardins. Em 1599, ao construir-se em Londres o Teatro Globo, era ele um dos associados. Em 1602, comprou de John e William Combe, nas redondezas de Stratford, 102 acres de terra arável (aprox. 41 hectares) pagando 320 libras. Em setembro do mesmo ano veio engordar seu patrimônio outra casa com amplo terreno no Beco da Capela, perto de New Place, e em 1605 abocanhou por 440 libras o contrato de cobrança de parte dos impostos de Stratford, Old Stratford, Welcombe e Bushopton. Três anos depois, tornou-se sócio-fundador de outro teatro londrino, o Blackfriars, com 1/7 das ações. Em 1604, processou Phillip Rogers pela falta de pagamento de um empréstimo de 2 libras e também pela dívida de 1 libra, 19 xelins e 10 pences, decorrente do fornecimento de cerveja. Em 1608, levou aos tribunais John Addenbrooke, que lhe devia 6 libras de cerveja e trigo. Ele próprio, contudo, não era tão pontual quando devia desembolsar. Em 1597, ano em que comprou a primeira casa, foi incluído pelos coletores de impostos na lista dos devedores relapsos. Nos anos seguintes, apareceria outras cinco vezes na mesma lista.
Em 1612, instalou-se em New Place, encerrando a carreira antes dos 50 anos. Aposentado do teatro, não se aposentou dos negócios. A 14 de fevereiro de 1613 casou-se uma filha do rei Jaime e ele foi a Londres para as celebrações, lá permanecendo várias semanas, pois a 24 de março se comemorava com festas, torneios e representações o aniversário da coroação do rei. Shakespeare aproveitou o passeio para mais uma transação: a 11 de março, comprou de Henry Walker um imóvel em Blackfriars, conhecido como a “Casa do Portão”, por 140 libras, pagando 80 à vista e assumindo o compromisso a pagar o saldo no dia 29 de setembro. Foi seu avalista John Heminge, que em 1623, com Henry Condell, coligiria suas obras no chamado Primeiro fólio.
Seus derradeiros anos foram tranquilos. Cuidava do jardim e foi por suas mãos que vingou a primeira amoreira da cidade. Quem o visse no quintal de New Place, aguando sua arvorezita, não admitiria jamais que ali pudesse estar, realizado e feliz, um dos vultos cardeais da literatura universal de todos os tempos. Aliás, nem ele: Shakespeare não sabia que era Shakespeare. Por ele, a aventura ter-se-ia resumido em ganhar uns cobres e voltar à cidadezinha para encantar os conterrâneos que o tinham humilhado. Era tão grande que, sem querer, encantou o mundo inteiro.