Caderno de Sábado

Millôr Fernandes: Perfis são retratos cubistas

“Apresentações” mostra a faceta menos badalada do jornalista

Jornalista, escritor e tradutor Millôr Fernandes
Jornalista, escritor e tradutor Millôr Fernandes Foto : CP Memória

Livro único em uma obra vasta, múltipla e genial, “Apresentações” mostra a faceta menos badalada do jornalista Millôr Fernandes (1923-2012): a produção de perfis. A obra, lançada pela editora Record em 2004, reúne um conjunto de textos que têm em comum a mesma originalidade de todas as vertentes da arte milloriana — do traço irônico que revela o grotesco das gentes às frases inteligentes que humilham e fazem graça. 

Sem espaço para medíocres, secundários, ocos, vulgares e banais, Millôr preenche o branco das páginas com introduções elogiosas à trajetória pessoal e profissional de amigos e amigas acima de qualquer suspeita, escritas com o olhar do artista gráfico que subverte a forma em favor do conteúdo.

 Da primeira à última apresentação, leitores não encontrarão o perfil padrão, aquele texto biográfico que faz um apanhado geral de forma resumida do personagem, mas rápidas pinceladas que ressaltam características únicas que outros não viram ou perceberam. Da paleta colorida do guru do Méier nascem retratos cubistas pintados com palavras que dão novo status para este gênero nobre do jornalismo literário.

Como as telas do movimento de vanguarda na pintura, os perfis de Millôr rompem com a tradição ao criar um modelo diferente de apresentação de personas, algo que já havia explorado na série “Retratos em 3/4 de alguns amigos 6/9”, publicada na época de Pif-Paf na revista O Cruzeiro. Em vez de deformar, ele ilumina a partir da observação sob nova perspectiva. 

Filósofo do humor, desenhista refinado, tradutor culto, dramaturgo inovador e frasista viperino, Millôr se aproveita dessa versatilidade, exercida sempre em alto nível, para descrever mais de 70 personalidades do mundo das artes plásticas, arquitetura, fotografia, literatura, poesia, teatro, gastronomia e, especialmente, desenho e humor.

Em “Nássara, ainda e sempre”, a gênese do personagem logo na primeira linha: “Tudo resumido, Nássara foi maior artista gráfico do que compositor popular”. No texto “Sônia Ludens”, em que apresenta a artista gráfica e escritora Sônia Lins, o autor brinca com o significado das palavras. “Faber, o que faz, sapiens, o que sabe, ludens, o que, em sabendo como fazer, e fazendo como sabe, se diverte paca com o entrosamento dos dois: o ser humano lúdico”.

De lambujem, nos dá como apêndice 32 páginas com fotos incríveis e legendas que só alguém como ele poderia ter escrito. Millôr não perde tempo com filigranas, vai direto à essência. Sobre Ivan Lessa, escreveu: “Exilado no tempo, carioca do eterno”. No sopé da foto de Renata Deschamps, legendou: “Dez mil dias de voo para aterrissar na Travessa Renata, céu de Búzios”.

Parceiro de mesa e amigo de bons combates, Paulo Francis analisou no posfácio o valor do que acabara de ler. “Que me perdoem os acadêmicos em geral, mas, esta sim, é a glória que fica, eleva, honra e consola”. Em 2012, ano da morte do gênio brasileiro, o jornalista Alberto Dines inseriu novas cores nesse quadro:

“Encantava os leitores com palavras precisas e inesperadas que sua poderosa inteligência convertia em fachos de luz” – sintetizou Dines, durante especial apresentado no programa Observatório de Imprensa.

Homem da Renascença, Millôr foi sobretudo um pensador. Livre como um táxi, completaria.

* Jornalista e escritor.