A própria escolha de palavras para falar de São Miguel das Missões é um processo que nos convida a revisitar os confins da nossa memória. Ali nos aguarda uma complexa e violenta história, e quem começa a conhecer suas reviravoltas não escapa a grandes emoções. Manifestar percepções sobre essa região será sempre um risco, pois não acredito ser possível expressar por inteiro todas as facetas, versões e significados que cobrem esse território. Tentar transpor esta herança mosaico talvez nem seja necessário, afinal está tudo exposto e combinado nas paredes de pedra da Catedral de São Miguel das Missões. Elas falam de muitos povos, culturas e construções que não estão mais visíveis, mas que sentimos ainda, soterrados aos pés daquele monumento.
Basta estar disponível e aberto para sentir.
E nada melhor do que uma janela de luz e som para despertar todos os nossos sentidos e para nos colocar em estado de reflexão e assimilação. Foi mais ou menos desse sentimento abstrato que surgiu a Mostra de Cinema das Missões: reconhecendo que eventos de exibição de cinema, principalmente se ao ar livre, são sutis, mexem com o imaginário comum, transformam a perspectiva e expandem o escopo de ótica.
Em termos mais específicos, eventos de cinema não agridem o ambiente, não excedem o seu espaço, não avançam sobre o terreno de maneira predatória. Iluminam somente o necessário, são momentos de se chegar caminhando devagar e em silêncio, de se comungar em torno de algum assunto ou realidade e assistir, contemplar, jogar vista. Depois sair, pisando leve, com a cabeça nas alturas para trazer a discussão e o debate à luz de outros ambientes mais racionais.
No caso do sítio arqueológico tudo isso se multiplica, porque soma-se o fato de que, em uma primeira camada, estamos entrando em um sítio arqueológico onde cada pedra e terra são parte de nossa existência. Depois, em segunda camada, entramos em uma catedral onde cada arco e torre contêm sedimentos da nossa cultura. Quando a exibição começa, alguns outros habitantes do sítio se unem à Mostra, como as corujas brancas e os quero-queros, então, entramos na terceira camada, de um ecossistema de respeito ao espaço de natureza ao nosso redor.
Temos o prazer de contar com o IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), que nos determina as melhores práticas e nos é parceiro também para monitorar e observar todos os impactos e cuidados da nossa presença por lá. Afinal, o Sítio Arqueológico de São Miguel faz parte da lista da UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura) de Patrimônio Mundial, declarado a 40 anos atrás. Esse reconhecimento legitima o seu significado material e monumental enquanto espaço e registro histórico. Mas também tem a ver com a densidade imaterial, com a simbologia e com o composto de valores que esse complexo ambiente representa.
A configuração que se estabelecia na experiência das Missões foi citada por Montesquieu e Voltaire mundo a fora, quando o primeiro descreve como “uma glória por ter mostrado pela primeira vez ao mundo como é possível a união entre religião e humanidade” e o segundo chama o projeto Jesuítico-Guarani de "triunfo da humanidade".
Todo esse esplendor se sente por lá. É o que a Mostra quer mostrar e evidenciar, porém nos questionávamos como organizar um encontro que seja sutil o suficiente para não sobrepor energias, mas que também pudesse canalizar toda essa potência para despertar uma consciência mobilizadora em todos os presentes, e assim podermos pensar em movimentos em conjunto para a mudança de algumas realidades em torno desse espaço e seus traumas.
Dessa mescla de pulsões surge como configuração central da Mostra a noção de Cinema Cerimônia: celebrar ao iluminar com parcimônia.
Lembrar e evidenciar os traços ancestrais em cada um que a presencia, delineando uma catedral de pedra em nossa história comum. Sólida, forte, escultural e precisa, ela impacta nossas memórias ao revelar a rigidez dos tempos coloniais e as cicatrizes indígenas que hoje são tatuagens de manifesto. Iluminada, serena e coletiva, ela também nos ensina sobre um marco de colaboração humana em convivência multiétnica, que diluía as diferenças culturais para uma crença natural e complementar.
Percebemos que todo feixe de luz entre degradês de céu que sublima as diagonais desse monumento hoje são reflexos de uma ideia real, e que pode servir para nos refrescar a memória e libertar a criatividade, para que consigamos crer novamente em tudo isso que hoje parece utopia.
Mas que existe.
E isso se mostra.
Se mostra que o coletivo avança, que o diferente combina e assim soma, que abrir uma janela é abrir-se também em dois sentidos, um para deixar a luz entrar e o outro emanar e expressar para fora. Através da Mostra esperamos que o cinema desempenhe e represente este espelhamento de luz que traz a reflexão, a esperança e, principalmente, permite avistar novas ideias regenerativas e urgentes.
Só por isso abre-se mais uma janela na catedral, um marco efêmero e subjetivo, uma abertura temporária, mas recorrente. Uma ventana a realidades conectadas do mundo inteiro, que entre som e luz costuram suas histórias com a nossa. Uma claraboia à nossa memória, a cenas e paisagens de convivência e coesão. Uma fresta de projeção para um caminhar mais leve, sem invadir o que é solo sensível de futuro, mergulhando fundo nos mares complexos e obscuros dos tempos do presente e respirando a brisa fresca e calma da nossa consciência de passado.
E para visualizar as formas deste caleidoscópio, acreditamos que a curadoria é a mágica. Partimos dessa complexidade toda com responsabilidade de escolha, levando em consideração a importância de oferecer um rico composto de filmes, que transcendam a territorialidade conscientemente, sem eliminá-la e, assim, que abordem temas perpendiculares a todas as regiões que tenham como características a coexistência multiétnica dos tempos hipermodernos do Brasil e do mundo.
Assim como estamos pedindo licença e entrando com cuidado e reverência no espaço físico das ruínas, também levamos como comum entendimento a delicadeza de expor temas aos inconscientes presentes nessa cerimônia e, por isso, também chegamos de mansinho com os temas propostos. Afinal, tudo que envolve essa extensão é proveniente e deve ser abordado com a placidez imperturbável da arte.
A Mostra vira encontro e espelho de identidades, nos dá a chance de exercitar a situação, situar-se no tempo e espaço e olhar ao redor com coragem. Mostrar para quem quiser ver um próximo estado.
SERVIÇO
- Mostra de Cinema das Missões 2024
- Dias 15 e 16 de novembro, sexta e sábado, em São Miguel das Missões
- Palestras, debates e exibições das 10h às 17h, no Tenondé Park Hotel (Rua São Miguel, 664).
- Sessões de cinema das 19h às 21h, no sítio arqueológico de São Miguel Arcanjo (Rua São Luiz, s/n°)
- Cocriação e direção criativa: Darius Pippi
- Ingressos gratuitos (as entradas antecipadas, disponibilizadas previamente pelo Sympla, já estão esgotadas. Haverá ingressos limitados disponíveis nos dias do evento, por ordem de chegada, porém será necessário levar a própria cadeira)
- A programação completa está disponível no Instagram @mostracinemissoes