Caderno de Sábado

Mulheres inventam o tempo, a idade e o sentimento

A jornalista e pesquisadora Flávia Lima Moreira* traça suas ideias sobre o espetáculo ‘A Idade é um Sentimento’

Gabriela Munhoz dança desobediência, com Paola Kirst, que faz trilha sonora e intervenções cênicas
Gabriela Munhoz dança desobediência, com Paola Kirst, que faz trilha sonora e intervenções cênicas Foto : Isadora Quintana / Divulgação / CP

Há espetáculos que terminam quando a luz da plateia acende. Outros apenas começam ali. “Idade é um sentimento” pertence a essa rara linhagem de obras que nos acompanham para fora do teatro, sentam ao nosso lado no carro, sobem conosco pelo elevador e passam a noite reorganizando pensamentos. No último mês de abril, acompanhei uma apresentação da peça no Teatro Simões Lopes Neto, dentro da programação do selo Multipalco de Grandes Espetáculos RS. Saí da sala menos espectadora do que espelho.

A premissa parece simples: acompanhar os ritos de passagem de uma mulher, dos 25 anos à morte, com caminhos narrativos parcialmente definidos pelas escolhas da plateia. Mas nada ali é simples. Porque falar do tempo nunca é falar do relógio. É falar do corpo, da memória, do desejo, do que nos foi permitido e do que nos foi roubado. O calendário enumera anos; a existência, não.

Idade é um sentimento? Talvez. Para as mulheres, durante séculos, idade também foi sentença. Houve épocas em que envelhecer significava desaparecer socialmente. Em outras, juventude demais era vulnerabilidade. Maturidade demais, descarte. Beleza convertida em moeda. Silêncio convertido em virtude. O tempo, para tantos homens, correu como biografia. Para tantas mulheres, correu como julgamento.

No palco, porém, havia uma mulher dançando. E isso não é detalhe. Quando uma mulher dança livremente, move mais do que braços e pernas. Move séculos de contenção. Crianças dançam como quem respira. Jovens dançam como quem explode. Depois, ensinam-nos a conter. A sentar direito. A cruzar pernas. A baixar o tom. A medir gestos. A pedir desculpas pelo volume da própria presença. Por isso emociona tanto ver uma mulher adulta ocupar o espaço com o corpo inteiro: pés, mãos, tronco, sorriso. Gabriela Munhoz, em cena, não dança apenas música. Dança desobediência, ao lado de Paola Kirst, que faz a trilha sonora e intervenções cênicas ao vivo durante a peça.

Elis Regina cantou que “ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais”. A frase permanece atual porque herdamos roteiros antes mesmo de escolhermos palavras. É cíclico. Por isso Belchior, cantado por Elis, é tão atual. Muitas mulheres ainda vivem cercadas por expectativas antigas com embalagem moderna. Trabalham como nunca, cuidam como sempre, provam valor diariamente e ainda precisam parecer leves. O velho patriarcado trocou de figurino, aprendeu algum vocabulário contemporâneo, mas segue em cartaz.

E, no entanto, quantas reinventaram o tempo.

Angela Diniz permanece como lembrança brutal do preço historicamente cobrado da liberdade feminina. Seu nome segue perguntando quantas vezes um país preferiu julgar vítimas a responsabilizar agressores. Ela segue sendo questionada. Sua liberdade. Sua independência. Seu tempo a seu favor.

Há também as mulheres que não entraram nos livros, mas sustentaram eras inteiras sem rodapé. Professoras que alfabetizaram gerações. Cientistas cujas ideias foram assinadas por outros. Artistas que criaram futuro em salas pequenas. Trabalhadoras que mantiveram casas, ruas e cidades funcionando sem jamais serem chamadas de visionárias. Mães e avós que administraram escassez com a sofisticação de economistas invisíveis.

Por tudo isso – e muito mais – no palco, vemos mais do que uma personagem: vemos camadas de nós mesmas e das mulheres de nossas vidas. Reconhecemo-nos no passado, tateamos o presente e, com certo espanto, enxergamo-nos projetadas no futuro. Ali estão mães, irmãs, amigas, avós, chefes, colegas – mulheres que atravessaram ou atravessam conosco os mesmos corredores do tempo.

O palco torna-se um grande espelho, desses que não suavizam imperfeições nem escondem detalhes; ao contrário, ampliam tudo. Um espelho de aumento. Realça cada marca deixada pelos anos: saudades que permanecem, perdas que moldam, vitórias que sustentam. Tudo aparece em estado bruto e intenso. Até mesmo as pausas – tão necessárias e tantas vezes adiadas – ganham contorno. Também o silêncio, o descanso e a suspensão fazem parte da vida, embora o mundo insista em premiar apenas produtividade.

Hoje, aliás, o mundo insiste em nos ver como estatística: números de desempenho, metas de idade, índices de beleza, gráficos de fertilidade, percentuais de produtividade, recortes de consumo. Mas será? Será que isso não é apenas mais uma forma sofisticada de nos colocar em uma fôrma? Transformar vidas complexas em colunas organizadas, dores em tendências, desejos em segmentos, mulheres em médias.

A estatística, quando ilumina desigualdades, serve para gritar que precisamos agir. Quando apaga singularidades, aprisiona. Nenhuma tabela dá conta daquilo que pulsa, hesita, recomeça e transborda dentro de uma mulher. Nenhuma tabela expressa o sentimento por trás de um dado.

Ser mulher é, muitas vezes, viver presa aos antepassados e, ao mesmo tempo, ser futuro antepassado. Carregar a avó que não pôde estudar, a mãe que precisou silenciar, a filha que talvez possa escolher mais. Há responsabilidade nisso. Há peso. Há potência.

No fim, “Idade é um sentimento” nos devolve uma evidência antiga e sempre nova: o tempo passa para todos, mas não pesa igual sobre todos os corpos. Para muitas mulheres, ele veio acompanhado de risco, vigilância e cobrança. Ainda assim, vieram também invenção, beleza, reinício.

Talvez porque mulheres não apenas atravessem o tempo. Mulheres inventam o tempo.

Guimarães Rosa escreveu “viver é um negócio muito perigoso”. Sim, é perigoso. E viver, sendo mulher, é ainda mais. Ainda assim, é singularmente coletivo ser mulher neste mundo.

*FLÁVIA LIMA MOREIRA - Jornalista e pesquisadora, com atuação na leitura de cenários políticos e sociais, integrando pesquisa de opinião e análise de dados. É coordenadora de comunicação da Fundação Theatro São Pedro.