Maria José Silveira, nascida em Goiás, é, além de escritora, editora. Em seus quatro últimos romances publicados, cria personagens femininas fortes. Escreve também literatura infantojuvenil, mas é através de seus romances, com protagonistas femininas que saem da sombra, que ela vem se revelando no âmbito da literatura brasileira contemporânea.
A autora se propõe a ouvir as vozes ancestrais de mulheres que ficaram na sombra, sem espaço para se manifestar. Seu livro de estreia tem um título desconcertante: A mãe da mãe da sua mãe e suas filhas. Vidas de mulheres anônimas, que não figuram em nossos livros de história, são reveladas e valorizadas nessa apaixonante obra de 362 páginas. Sabedora de que suas leitoras – de um modo geral – sabem muito pouco sobre suas ancestralidades, propõe-se a efetivar a hercúlea tarefa de desvendar a história de figuras femininas desde a descoberta do Brasil, em 1500, até 1968, durante a ditadura militar no Brasil.
A autora presta o devido reconhecimento a vinte figuras anônimas, iniciando com Inaiá, no período de 1500 a 1514 e finalizando com Maria Flor em 1968. A evocação da história dessas mulheres teve como objetivo resgatar e redefinir a herança que elas nos legaram e que irão nos constituir – hoje – como mulheres do século XXI.
Em 2020, seguindo na vertente de acompanhar a vida de mulheres, a autora lança Maria Altamira, romance de filiação, em que mãe e filha se perdem e se reencontram, buscando a resolução do trauma de uma maldição que a mãe julgava carregar por não ter estado presente quando do desaparecimento de sua primeira filha, que fora soterrada na cidade peruana de Yungay, quando do terremoto de maio de 1970. Emocionante obra sobre relações mãe e filha e a defesa do meio ambiente quando da construção da barragem de Belo Monte, o “monstro de cimento”, como a denomina a autora. Esses são os temas favoritos de Maria José Silveira: as relações mãe e filha e a defesa do meio ambiente. A autora escreve na tentativa de evitar o apagamento gradativo dos estoques memoriais de nosso passado e de nosso patrimônio material e imaterial.
Essa temática se torna recorrente também em suas obras mais recentes como Farejador de águas (2023) e Aqui. Neste lugar (2022). Em ambas, a autora persegue seu objetivo que é o desvelar o imenso cabedal de apagamentos e silenciamentos que foram sendo acumulados ao longo dos tempos, forjando estereótipos, preconceitos e mal entendidos, sobretudo no que concerne ao papel das mulheres. Por isso todos os seus livros até agora têm como protagonistas mulheres que lutaram para sair da invisibilidade e para iluminar o fato de que – geração após geração – foram ficando à margem de vastos estoques memoriais ofuscados por essas ausências.
As obras de Maria José Silveira tratam de dizer o indizível, tornando-o audível para que o carrossel das gerações volte a girar, colocando em cena, na literatura brasileira, os esquecidos e os vilipendiados. Essa é a grande motivação de suas obras: trazer à superfície o que ficou ausente. Representificar tais ausências é a grande motivação da autora. Na verdade, esse é o móvel maior da literatura: trazer à tona o que se poderia chamar de uma Poética da Ausência que poderá nos reconectar com nosso passado através do exercício memorial, pois, como escreveu Juan Vicente Piqueras, “nem Deus pode mudar o passado; só a Memória”.
Referências:
BERND, Zilá. Inventário de ausências; memória, esquecimento e representificação no imaginário das Américas. Porto Alegre: ZOUK, 2022.
SILVEIRA, Maria José. A mãe da mãe da sua mãe e suas filhas. São Paulo: Globo, 2002.
_________ . Maria Altamira. São Paulo: Instante, 2020.
__________. Farejador de águas. São Paulo: Instante, 2023.
___________. Aqui neste lugar. São Paulo: Autêntica, 2022.