Caderno de Sábado

Na Casa Aberta do Mistério

Artigo de Mariana Ianelli*

Hilda Hilst escreveu os poemas de ‘Júbilo, Memória, Noviciado da Paixão’ para o homem que a recusou
Hilda Hilst escreveu os poemas de ‘Júbilo, Memória, Noviciado da Paixão’ para o homem que a recusou Foto : Fernando Lemos / Wikipedia Commons / CP

Celebrar a mulher, neste mês, parece fazer jus a um momento excepcional da literatura em que as atenções se voltam para o que se fez e tem sido feito por mulheres, na ficção, na poesia, no ensaio. A mulher em destaque dentro desse vasto campo do pensamento poético que alimenta a criação e a crítica. Querem crer as celebradas que, amanhã, fora das grades temáticas ou circunstâncias excepcionais, um remodelar de espaços de fato as faça aparecer em proporção equilibrada com a atenção dada aos escritores de um modo geral, um remodelar que as leve a frequentar os espaços da literatura sem especial solenidade, corriqueiramente, como vêm circulando por ali há séculos nossos varões.

Então o que significa isso de celebrar a mulher, para além do extraordinário da data, da circunstância oportuna e da homenagem que a torna momentaneamente primeira capa? Que sentido pode ter essa celebração, que não se desfaça em pó um dia depois da festa? A celebração de um espaço que se abre e, uma vez aberto, se mantém. Isto sim seria de honrar a festa: uma mulher, celebrada pelo que escreve, ser celebrada pelo que faz ouvir, e pelo espaço que habita e no qual se deixa habitar, ao se fazer ouvir.

No álbum “Songs from a room”, de 1971, do poeta e compositor Leonard Cohen, há uma canção que ele dedica a Nancy Challies (“Seems so long ago, Nancy”). Pode parecer melancólico lembrar dessa canção sobre uma jovem suicida, mas Leonard Cohen era um poeta que celebrava as mulheres na perfeita acepção do termo, frequentando-as na intimidade total, não só na do corpo, também na do espírito, então, o que essa lembrança traz para cá é a autodestruição da mulher que não foi ouvida, que não foi habitada nem habitou um espaço em meio aos outros. Uma mulher que se faz desaparecer porque nunca foi frequentada em seu mistério, embora tivesse passado pelas mãos e pela cama de tantos. Uma mulher se autodestrói e o poeta passa a vê-la em toda a parte, espectral.

Mas, quando essa mulher que tem seu mistério recusado é também aquela que escreve, não é exatamente contra si que ela usa essa arma. Hilda Hilst escreveu os poemas de “Júbilo, Memória, Noviciado da Paixão” para o homem que a recusou. “Se te pareço noturna e imperfeita / Olha-me de novo. (...) / Olha-me de novo. Com menos altivez. / E mais atento”. A poeta se abre, mostra sua ilha de esplendores para o que se ausenta. “Ama-me. É tempo ainda. Interroga-me.” A poeta se abre em música e essa música floresce em imagens, tudo exuberância nascida de uma recusa, e que bendita recusa, podemos dizer, afinal. Porque “Antes de ser mulher”, Hilda canta, “sou inteira poeta”. O não do sr. Mesquita Neto, devemos lhe agradecer, enriqueceu nossa poesia brasileira.

Outro caso de desprezo fecundante, por assim dizer, aconteceu com a escritora Lydie Dattas. Já o contei numa crônica e agora vale resgatar o episódio. Lydie encontrou certa vez com Jean Genet e ousou discordar dele, conversando animadamente, durante uma noite inteira. No dia seguinte, ela descobriu que Jean Genet não queria vê-la nunca mais, que ela só o contradizia, e era mulher. Aí está: Jean Genet detestava as mulheres. E o que fez Lydie depois da porta fechada? O que fez com aquele nada em que Jean Genet a transformava? Lydie preparou sua revanche por semanas. Do ódio daquele homem que ela admirava, fez nascer seu bloco de escuridão. A noite espiritual. Um canto desgraçado de mulher, de pensamento sem luz.

Lydie fez cantar as trevas dessa mulher banida, fadada a viver sua miséria de espírito numa escrita que é a de seu próprio luto. Ela canta para aquele homem que não pretendia mais dar-lhe ouvidos. Faz cantar para ele a mulher-nada, essa que obscurece tudo o que toca com o pensamento, essa indesejada no mundo da grande beleza, que aceita sua noite, sua morte, sua nulidade de espírito como adubo terrível do seu canto.

Era assim que Lydie devolvia a maldição ao próprio dono em corpo de poema. Ela queria ferir profundamente, tanto quanto tinha sido ferida: “morte por morte”. Com uma escuridão magnífica. Quando terminou o poema, Lydie o enviou a Jean Genet. No dia seguinte, ele batia à sua porta. Ela conta essa história brevemente na introdução de “A noite espiritual”. No anexo da edição, constam três cartas à autora: de Ernst Jünger, Jean Grosjean e Jean Genet. A de Jean Genet termina assim: “Levei uma bofetada”.

Sim, a literatura está cheia de magníficas bofetadas desferidas por mulheres, contra recusas várias: recusa de amor, de atenção, de espaço. São bibliotecas de páginas noturnas, que se valem da escuridão para engordar seus frutos de esplendor. Páginas obscenas, que se dão mais que um corpo, porque dão com o corpo, ou melhor, abrem nele, aquela casa do mistério que no gozo não se esgota. E mesmo ferindo, como uma poeta pode ser generosa! Não ferina, como se poderia pensar facilmente, pela bofetada, mas feraz, por multiplicar em louvor o que outros desprezaram, por transmutar paixão em palavra, e com a palavra, essa que canta e gera outros mundos neste mundo, ferir o nada.

Mas obviamente nem tudo é golpe ou contragolpe. Há também, e muito, o que seja dança. E isso nos diz tão bem, de novo, esse grande amante e par na dança com as mulheres que foi Leonard Cohen, agora numa canção de 2004, “Because of”, do álbum Dear Heather. Ali, o poeta fala do mistério visitado, frequentado, da nudez da mulher que se abre diante dele, como no poema de Hilda Hilst: “Olha-me”, e é uma nudez colhida com atenção, amada. O poeta entra na casa do mistério e uma extraordinária dança acontece a um palmo do chão. Uma celebração das mulheres e da poesia, nesse lugar secreto que se abre. Um lugar secreto que se abre gentilmente, e, com a mesma gentileza, é penetrado. Eis porque há tantas mulheres que amam Leonard pelo mundo afora.

A casa do mistério é a da poesia e, duplamente, a da mulher que escreve, a da mulher que canta. Sua palavra chama, enleia, é dama-da-noite, lâmina dócil, e também louvor, beleza de espírito: “Interroga-me.”. Aquele que vê, que interroga, que ouve e colhe esse chamamento, celebra mulher e poesia. O erótico disso, para além do sexo, é o da linguagem, o erotismo do espírito. Como era que dizia Julio Cortázar, num dos poemas póstumos de “Papéis inesperados”? “O que eu gosto do teu corpo é o sexo. / O que eu gosto do teu sexo é a boca. / O que eu gosto da tua boca é a língua. / O que eu gosto da tua língua é a palavra.” (trad. Aurora Bernárdez). Que síntese tão ardente desse enleio de mulher e poesia...embora, na vida fora do papel, haja muita gente que parta ao meio esse poema e nisso perca todo o mistério. É tomar o poema completo, no seu encadeamento de secreto a fulgurante, e a maravilha acontece. Há ali uma dança que nos une em movimento, um louvor que vai de um corpo a outro corpo, que sobe do segredo para o verbo, e celebra. Celebremos com Cortázar (e Leonard Cohen) essa dança.

*Mariana Ianelli é poeta, ensaísta, cronista e crítica literária.

Autora de “Turno da Madrugada” (Ardotempo, 2023).