Caderno de Sábado

O Artista da Fome e o mundo digital: Kafka nas redes

O presidente do Instituto Unimed/RS e presidente da Associação dos Amigos da Biblioteca Pública do Estado do Rio Grande do Sul, Alcides Mandelli Stumpf aborda o trânsito de Kafka nas redes sociais contemporâneas

Exposição "Gigantes da Cultura Tcheca" foi prorrogada até 22 de março na Bibliioteca Pública do Estado
Exposição "Gigantes da Cultura Tcheca" foi prorrogada até 22 de março na Bibliioteca Pública do Estado Foto : Ascom / BPE / Divulgação

Franz Kafka, um dos principais expoentes da literatura universal, nasceu em Praga, atual capital da República Tcheca, então integrante do Império Austro-Húngaro, em 3 de julho de 1883. Embora boa parte de seu trabalho tenha sido publicado postumamente pelo amigo Max Brod, sua contribuição literária é imensurável e precursora de movimentos como o absurdo, o existencialismo e o realismo fantástico. Os conceitos de Kafka influenciaram autores renomados como Albert Camus, Jean-Paul Sartre e Gabriel García Márquez.

Caracterizado por narrativas concisas e profundas, Kafka nos presenteou com obras como "A Metamorfose", "O Processo" e "O Castelo", amplamente adaptadas e divulgadas pelo cinema. Entre suas criações, contudo, aqui nos cabe destacar a obra "O Artista da Fome", conto publicado em 1922, dois anos antes do autor sucumbir à tuberculose em 3 de junho de 1924, em Kierling, perto de Viena.

A pequena história traz a trajetória de um artista que transforma sua fome em uma forma de arte, jejuando por 40 dias em uma gaiola, enquanto seu empresário o promove. Com o tempo, o interesse do público diminui e o artista acaba esquecido, vivendo seu jejum solitário, até a morte. Antes de falecer, desiludido, revela que jejuou não por escolha, mas por jamais encontrar um alimento que lhe agradasse – confirmando um total desprezo a plateia que o assistia em sua solitária e triste performance.

"O Artista da Fome" de Kafka ressoa de maneira peculiar ante as dinâmicas das redes sociais contemporâneas. A exposição do “influencer” em sua jaula e o voyeurismo do público têm paralelos com a vida compartilhada na internet, onde busca-se atenção e validação a qualquer preço ou sacrifício. Apesar da visibilidade, assim como o artista em sua redoma, muitos permanecem isolados, ecoando a solidão digital em conexões virtuais desconexas.

A performance de jejum, que se revela vazia de significado, leva à reflexão sobre arte, fama e a constante busca por aceitação. O papel das redes sociais na sociedade moderna funciona como um espelho que tão somente valoriza aparência em detrimento de essência. A obra de Kafka, uma autêntica forma de autoexpressão, também nos alerta sobre o escapismo e o isolamento.

Para os aficionados por Kafka, a Biblioteca Pública do Estado apresenta até o dia 22 deste mês a exposição "Gigantes da Cultura Tcheca". Esta mostra, sob a curadoria de Salus Loch, é fruto de uma parceria entre Casa da Memória Unimed Federação/RS, Embaixada da República Tcheca, Consulados de São Paulo e Porto Alegre, Instituto Unimed RS e governo do RS, por meio da BPE. Além de Kafka, é possível explorar a vida e obra de outros boêmios célebres, como Karel Čapek, Pavel Roučka, Francis Pelichek e Francisco Valdomiro Lorenz.

A exposição está aberta de segunda a sexta, das 10h às 18h, e aos sábados, das 10h às 17h, na Rua Riachuelo, 1190, no Centro Histórico de Porto Alegre. No encerramento, haverá uma apresentação de Folclore Tcheco, com danças típicas, no dia 22, às 10h, na Biblioteca Pública. Vale a visita!