O mês de março é o mês da mulher e o tema central dessa escrita gira em torno dela, uma mulher negra, nascida livre e filha de ex-escravos, que em sua experiência histórica carrega barreiras raciais e de gênero, como também intervenções que confrontaram a dinâmica da sociedade de forma inédita. Esta grande figura feminina brasileira do século XIX, que ficou invisível por quase um século, estaria justamente no dia 11 de março completando 200 anos, Maria Firmina dos Reis (11/03/1822) nascida na cidade de São Luís, no Maranhão, pouco antes de o Brasil se tornar independente de Portugal.
A filiação de Maria Firmina, cuja fisionomia verdadeira não se conhece, merecem crédito, porque fazem parte de uma história em descoberta, já que, em muitos momentos fora reinventada de modo equivocado, chegando a descambar para um branqueamento característico e ilustrativo como o Bruxo do Cosme Velho, visto que em seu registro de nascimento consta que tanto o pai, quanto a mãe eram negros.
Maria Firmina perdeu a mãe aos cinco anos de idade, vindo a ser criada pela avó materna. Posteriormente foi acolhida por uma tia, também materna, que dispunha de uma situação cultural e econômica confortável, o que lhe teria permitido acesso a alguns bens culturais como o acesso às letras. No entanto, até o momento, não encontramos registros que comprovem sua educação formal, supondo que, assim como Machado de Assis e tantos outros, muito de seu conhecimento tenha sido obtido por autodidatismo. Assim, lançou-se em um universo, exclusivamente de homens brancos e letrados. Ser autodidata abriu-lhe portas para o domínio sobre os códigos de leitura e escrita, sendo este um caminho que rompe o imaginário coletivo da incapacidade intelectual do negro, veiculado inclusive pela medicina da época.
Formou-se professora e exerceu, por muitos anos, o magistério, chegando a receber o título de "Mestra Régia". Em 1847, com vinte e cinco anos, Reis vence concurso público para a Cadeira de Instrução Primária na cidade de Guimarães (MA), conforme registra seu biógrafo Nascimento Morais Filho (1975).
Entre os muitos acontecimentos que marcariam este concurso, o jornal O Progresso, de 13 de agosto de 1847, destacou que uma das concorrentes de Maria Firmina dos Reis, pronunciou “prológo”. Imediatamente, Diliquinha – alcunha de Firmina – corrigiu a outra: É prólogo! A correção do vocábulo garantiu a sua aprovação, por ter sido julgada competentemente habilitada.
No dia de sua diplomação, os parentes, contrataram um palanquim para que a nova professora fosse carregada pelas ruas de São Luís até a sede do governo provincial. Na ocasião, a jovem de 22 anos negou-se terminantemente e sentenciou: “Negro não é animal para se andar montado nele! E foi caminhando. Provavelmente Brás Cubas não recusaria esta exposição.
À vista disso, Maria Firmina tornou-se Firmina foi a primeira professora pública da vila de Guimarães, a primeira romancista do Maranhão, a primeira mulher negra a publicar um livro no país, pioneira do gênero da literatura de autoria negra, fundadora da primeira escola mista e gratuita da província, autora do único diário a que se tem notícia de uma pessoa negra até o século XIX no país, colaboradora assídua da imprensa periódica local e por fim, mas não menos importante, única liderança feminina e negra na campanha abolicionista no Brasil.
Com um olhar muito além de seu tempo, Maria Firmina cuja alma cultivava os bons sentimentos, numa atitude ousada para época, acolheu a amiga Emília Amália Pinto de Magalhães que havia deixado o marido por sofrer inúmeras traições. Posteriormente, a amiga relaciona-se amorosamente com David Gonçalves de Azevedo e desta união nasce os então conhecidos Arthur Nabantino Gonçalves de Azevedo e Aluísio Tancredo de Azevedo. Nada mais, nada menos que os irmão Azevedo. Este o futuro autor de O Cortiço; o outro dramaturgo, poeta, contista, prosador, comediógrafo, crítico e jornalista brasileiro e um dos fundadores da ABL.
Sua construção intelectual foi construída sobre o tripé da educação, da imprensa e da literatura onde destacou-se como figura instigante e ilustra por “sua inteligência ímpar”. Em um determinado momento de sua vida, a popularidade como professora fora tão grande em meio a sociedade que um ditado popular foi criado para caracterizar mulheres com o pensamento similar ao da escritora: “é uma Maria Firmina”.
O que chama a atenção na vida de Maria Firmina dos Reis é o fato de várias histórias estarem amalgamadas em sua biografia, como a do processo da erudição feminina, as marcas históricas do Maranhão do século XIX, e o dinamismo da escravização, a importância da escola pública para os desautorizados, e sobretudo o contínuo e prolongado caminho para a abolição.
Em 1859 chega a público o primeiro romance de autoria negra, feminina e abolicionista, “Úrsula”, de Maria Firmina dos Reis. Com maestria, a escritora soube utilizar a língua de seu interlocutor para de modo cauteloso inserir passagens de resistência ao colonialismo e à colonialidade, questões contemporâneas nos romances do século XXI, a partir das vozes que emergem da resistência de três personagens escravizados que, como a Firmina, não se sujeitaram ao discurso colonial. Segundo alguns pesquisadores, em 1857, ano em que, por exemplo, José de Alencar publica o romance O Guarani, em folhetins, no jornal Diário do Rio de Janeiro. O jornal A Imprensa publicava na seção, Publicações Pedidas, a primeira resenha de “Úrsula”. É flagrante que a obra secular de Maria Firmina estaria concluída há dois anos. Outro aspecto fulcral deste episódio refere-se ao modo como a escritora é apresentada no periódico: uma jovem maranhense. Em nenhum momento o nome Maria Firmina dos Reis fora mencionado. Da mesma forma, Firmina, que conhecia o seu espaço e os prováveis leitores de seu tempo, optou, em seu prólogo, por um gentílico: uma maranhense.
Em face de um cenário cuja escrita pública tinha lugar e gênero determinado, o romance se tornava um mistério tanto no sentido genérico como na autodescrição: “Mesquinho e humilde livro é este que vos apresento, leitor. Sei que passará entre o indiferentismo glacial de uns e o riso mofador de outros, e ainda assim o dou a lume. Não é vaidade de adquirir nome que me cega, nem o amor próprio de autor. Sei que pouco vale este romance, porque escrito por uma mulher, e mulher brasileira, de educação acanhada e sem o trato e conversação dos homens ilustrados, que aconselham, que discutem e que corrigem, com uma ilustração misérrima, apenas conhecendo a língua de seus pais, e pouco lida, o seu cabedal intelectual é quase nulo…”
Maria Firmina constrói sua “narrativa romântica” centrada em um triângulo amoroso. A autora narrou com modelos literários do momento como também soube superar alguns aspectos costumeiros dos romances da época. As cores locais de seus contemporâneos Gonçalves Dias e José de Alencar foram substituídas, em Úrsula, pela cadeia da escravidão. Assim sendo, esse torna-se o primeiro romance romântico brasileiro do século XIX a se posicionar criticamente sobre a condição do negro escravizado, subvertendo as normas da literatura nacional então em vigência. Em Úrsula, Maria Firmina, retira do enclausuramento as vozes de três protagonistas, três negros, três escravizados: Túlio, Mãe Suzana e Antero. Podemos aferir que estas configurações de personagens evidenciam na ficção uma proximidade verossímil das subjetividades negro-africanas, que até então só aparecera nas narrativas estadunidenses.
Entre suas escritas, também citamos o seu conto Gupeva (1861) – em que apresenta uma narrativa voltada a reflexão do lugar destinado ao indígena na sociedade brasileira oitocentista, no sentido de registrar a sua contribuição e de marcar o seu ideário acerca da questão nacional. Outro texto bem ousado é a A Escrava (1887) que denunciou os horrores do hediondo regime escravocrata. Escrito no auge da campanha abolicionista, é considerada uma obra que, assim como o romance Úrsula, apresenta o negro na perspectiva do negro.
“A mente, essa ninguém pode escravizar”. Assim dizia Maria Firmina dos Reis, a primeira romancista do Brasil. Neste ano 2022, comemoramos o bicentenário desta mulher que desafiou, transgrediu e atribuiu novos sentidos às limitações impostas pela sociedade em que viveu, criando espaços próprios para si e abrindo caminhos para futuras escritoras e professoras em condições próximas ou similares a ela.
Uma escritora de trajetória disruptiva, muito à frente do seu tempo!
* Professora há 28 anos da rede básica de ensino de Camaquã. Licenciada em Letras e Pedagogia. Especialista e Mestre em Literatura Brasileira. Doutoranda em Literatura, Sociedade e História da Literatura.