Caderno de Sábado

O cantar sobre o abismo de Ricardo Silvestrin

O poeta, ensaísta e editor do portal Musa Rara (www.musarara.com.br), Edson Cruz, resenha o livro “Irmão Robô”, de Ricardo Silvestrin

Em seu novo livro, "Irmão Robô", Ricardo Silvestrin traz os impasses deste tempo em que vivemos entre o humano e a alta tecnologia
Em seu novo livro, "Irmão Robô", Ricardo Silvestrin traz os impasses deste tempo em que vivemos entre o humano e a alta tecnologia Foto : Marco Nedeff / Divulgação / CP

A poesia moderna e contemporânea é uma miscelânea de fazeres e de estratégias poéticas. Às vezes parece um vale-tudo. Adeus ao verso, à métrica, à rima, já disseram. A rebeldia se instaura por um momento até que algum poeta retome tudo novamente, reconfigure e transfigure.

Embora se diga que há poucos leitores de poesia e muitos poetas, sabemos que há poucos que, a rigor, poderiam assim ser denominados.

Isso porque a poesia é exigente e, no âmbito do literário, ela só se realiza no poema. Demanda algum engenho e trabalho, do autor e também do leitor. No poema, ela (a poesia) se realiza imbricada na significação, forma e sonoridade (a eterna hesitação entre som e sentido que postulou Paul Valéry). E, além disso, toma para si uma dicção própria, valorizando o como se diz e não necessariamente o que se está a dizer, o tema.

Por outro lado, quase tudo já foi dito, escrito e reescrito, de inúmeras formas. Ou seja, o desafio do poeta é trabalhar com a tradição já dada e, ao mesmo tempo, criar algo que seja seu, que soe como seu, que tenha a sua pegada. Essa pequena introdução se faz necessária, a meu ver, para que possamos localizar a poesia feita por Ricardo Silvestrin e a fatura poética que ele nos oferece em mais um livro: “Irmão Robô”, Libretos, 2024.

Não é um livro de principiante. O autor transita há muito por vários gêneros e, na poesia, já publicou dezesseis livros. Essa ampla experiência com o texto poético revela-se em cada poema deste livro, cuja leitura flui e o entendimento chega rápido. Sua poesia é escrita sem afetação, com uma musicalidade que se realiza em uma dicção que esbarra na coloquialidade.

Silvestrin é craque e já começa driblando os possíveis leitores a partir do título do livro, da capa e dos primeiros poemas. Tudo é disposto de tal forma a nos fazer crer que ele entregará uma fatura poética na chave da tecnologia e de suas implicações. É um pouco disso também, mas só em uma primeira camada.

Seu discurso começa se dirigindo aos ‘irmãos robôs’, mas na sequência dos poemas vamos percebendo que o livro é uma reflexão estendida sobre o ser, o eu, a vida e o tempo.

Vejamos o que diz o poema que está entre os primeiros do livro:

WHATS

Há que se andar

de braços abertos

para receber as manhãs.

Mas o convite

para se fechar em concha

se renova a cada segundo.

Um passo para dentro

e se cai num autogame,

correndo e pulando

para encontrar a saída.

Do fundo do poço,

pode se ouvir o sinal

de que chegou mensagem

e nos trazer de volta à superfície.

Do oco do outro,

do qual também sou o seu eco,

seguimos por um tempo

atados ao presente.

Cessada a troca,

cada um volta a si,

esse lugar incerto.

Sempre me impressiona a capacidade que a poesia tem de falar de coisas complexas de forma tão concisa. O que esse poema tematiza, nas mãos de um filósofo como o coreano/alemão Byung-Chul Han, por exemplo, se desdobraria (e de fato se desdobrou) em vários ensaios.

No título do poema, “Whats”, há a referência ao aplicativo de conversas WhatsApp (e seus similares) que nos consome a todos num jogo frenético de informação e desinformação, contato e pseudocontato com o outro e conosco. Estamos sempre a um passo de cair no engodo do “autogame”, que joga travestido de si mesmo (um avatar?) com o “oco do outro” que é um eco longínquo de mim mesmo.

O título pode ser lido também como uma pergunta: “O que está acontecendo conosco e com nosso tempo? Por que nos tornamos presas tão fáceis dos estímulos que nos impulsionam não para o encontro efetivo e uma possível troca, mas para um locus que é só virtualidade, mesmo quando insisto em chamá-lo de ‘eu mesmo’?”. O ser humano é um “bicho pretensioso”. No poema “Humanos”, o eu lírico diz: “Eu mesmo, / tu mesmo, / ensimesmados, / cismando / que somos humanos / e que isso / é o que há / de mais divino.”

Pretensiosos e ensimesmados. O poema “Cortejo” termina revelando que como seguimos pela vida “olhando para dentro”, respondendo a um inconsciente frenético, estamos sempre em outro tempo e lugar, não no aqui e agora. Sempre desatentos para “a flor carregada pelo cortejo das formigas”.

O poema “Luta”, ao mesmo tempo em que continua a falar sobre a condição humana e sua eterna luta, revela o trabalho formal do poeta. Escrito com sete versos de dez sílabas poéticas (decassílabo), todos trazem na terceira sílaba o “ão” e também na última (com exceção do sétimo verso), gerando uma repetição de rimas pobres, enfadonhas e pesadas que potencializam a negatividade da condição humana.

O poeta é hábil. Começa e termina o poema com o positivo. O “sim” impondo-se no final da luta, mesmo que seja para reconhecer o reinado do não é um gesto que revela o possível triunfo da vontade humana. Pelo menos na forma do poema.

LUTA

Sim e não, a humana condição

um trilhão de células em ação,

batalhão armado e de prontidão,

lutarão até ir a munição,

tombarão um dia sem apelação,

vem então a tal decomposição.

Reina o não, reina o não, reina o não, sim!

Em “Planejamento”, outro poema significativo do livro, o eu lírico diz: “O distinto destino / faz da vida / o que ele quer, / tem o d / de deus / e mete o dedo / em todos os eus.” Um exímio e sonoro jogo de significantes e significados.

A vida vista como uma longa travessia feita por um equilibrista. Uma corda sobre o abismo. O ser humano refazendo seus cálculos a cada queda, tentando decifrar a mensagem inscrita em todas as coisas.

MENSAGEM

Tudo é mensagem cifrada,

a estrela cadente,

o trinado do pássaro,

a maré em conversa com a lua.

Um cachorro pensativo pela madrugada,

a pedra solitária,

a raiz da árvore cada vez mais funda.

Tudo fala

e, mais,

nos escuta.

O eu lírico se pergunta: “quem veio primeiro, / o mundo ou a poesia?” Talvez, a resposta esteja dada em outros poemas que flertam com o vazio, ou com o silêncio: “Extrair de cada coisa / a sua porção / de silêncio.”

O poeta como aquele ser que soube lidar com a quietude e “conseguiu achar um vão, / uma rachadura no concreto da vida, / onde colocou cada verso / que fez ao revés / de tudo que não era poesia.”

A arte como uma forma de conciliação com o divino que há em nós. A constatação de que “Bastaria falar, / e, no entanto, / há o canto. // Bastaria andar, / mas toda criança / logo dança.”

Talvez, no fim das contas, só nos resta “enfrentar a terra” ou “Avaliar o que sobra / do objeto extraído, / se obra, se átomo.”

Silvestrin, com mais este livro, segue pavimentando sua obra com o brilhantismo de sua dicção contemporânea e única.