Com uma estética impecável, “De Profundis” é o primeiro solo de Elison Couto, nas celebrações dos 50 anos de trajetória do diretor Dilmar Messias, a partir do texto do irlandês Oscar Wilde (1854-1900). A obra foi escrita na prisão londrina de Reading, quando o escritor foi condenado por “indecência grave”, e condenado a trabalhos forçados, no período de dois anos, que consumiu sua saúde e reputação.
Com um processo de atuação maduro e potente, o ator constrói uma fisicalidade e atua em um cenário com poucos elementos, que se parece com uma teia, na qual está preso. Ele está encarcerado a um passado e a um amor tóxico e obsessivo, que lhe tirou tudo, mas em cena diz que não pode viver do ódio. Respeitado, em 1895 Oscar Wilde usufruía do sucesso de “O Retrato de Dorian Gray” (1981) e três peças: “O Leque de Lady Windermere”, “Um Marido Ideal” e “A Importância de ser Prudente”. Pela relação com o Lord Alfred Douglas, o Bosie, jovem aristocrata com aspirações intelectuais de família falida e com quem frequentava bares e cabarés, foi processado pelo pai do rapaz, John Douglas, o Marquês de Queensberry. Perdeu não apenas a liberdade, mas esposa, filhos e a fortuna. Cumprida a pena, voltou a encontrar com Bosie, tentou escrever com pseudônimo e decidiu exilar-se em Paris em 1898, onde morreu dois anos depois.
O espetáculo, codirigido por Gabriel Messias – que estudou cinema e teatro, em Los Angeles e Nova Iorque (EUA) - filho de Dilmar, na primeira parceria juntos, traduz toda a humilhação e sofrimento que o autor passou. Elison vai se despindo, na medida em que o personagem vai revelando suas dores e fragilidade, em passagens comoventes, que lhe arrancaram lágrimas nos ensaios e do espectador, no teatro. A trilha, executada ao vivo por Elaine Foltran, contextualiza uma época conservadora, que criminaliza o homossexualismo, ao som de Claude Debussy. Ela se comunica com o cenário, feito por Diego Steffani, que em determinado momento serve como figurino, em uma solução cênica criativa. Vale destacar o trabalho de Denise Souza, na maquiagem do rosto e corpo todo. Por fim, “De Profundis” tenta condensar a vida de um ícone da literatura universal em 1h, instigando o público a buscar mais informações sobre suas realizações e motivações. Traz as escolhas bem feitas, dos signos utilizados.