“Ele estava só. Estava livre e solto, feliz e perto do coração selvagem da vida”
(James Joyce, 1916)
A célebre frase do romance “Retrato do Artista quando Jovem” (“A Portrait of the Artist as a Young Man”, 1916) encontrou forte ressonância no Brasil, transformando-se no título do primeiro romance de Clarice Lispector “Perto do Coração Selvagem” (1943), enquanto João Guimarães Rosa servia como Cônsul na Alemanha nazista. Na década seguinte, a obra de Rosa também iria enveredar pela busca do coração selvagem da vida – embora de um modo bem diverso do espírito urbano e boêmio do “Retrato” e do “Ulysses” de Joyce, onde a sede de vida de um jovem de 20-30 anos é espelhada (e parodiada) nas desavenças de um homem de meia idade.
Há inúmeras semelhanças entre “Ulysses” e “Grande Sertão: Veredas” – da linguagem inovadora ao personagem central: o homem de meia idade contemplando (su)a saudade das epifanias de vida intensa, plena e livre que acompanham os momentos de imenso prazer amoroso, estético e erótico na juventude. A exaltação de Stephen quando a imagem de uma moça jovem na praia se confunde com os sonhos de beleza e arte (em “Dubliners” e no “Retrato”), retorna também no “Ulysses” – embora sob o signo de um tom e um estilo radicalmente alterados. É esse tom que distingue a Odisseia de Bloom da travessia de Riobaldo: nos dois romances reina uma atmosfera muito diversa. Riobaldo sempre irá lembrar a travessia com o “menino” e os momentos de quietude com Diadorim como revelações das belezas amorosas que existem no sertão que é o mundo. Mas a visão do artista errando pelos labirintos de Dublin sobre as coisas amadas na juventude modifica-se de modo significativo: a destreza artística de Joyce entrega-se ao prazer de desnudar o envelhecimento emocional, ironizando as perdas da vida adulta, por exemplo quando a busca de intensidade autêntica é substituída pelos artifícios sentimentais e as guinadas perversas da alma reprimida e humilhada. Joyce devassa os prazeres voyeuristas do simpático cidadão Bloom que não resiste a um flerte à distância com Gerty MacDowell, expõe seus pendores onanistas e o masoquismo do marido traído de Molly.
Em “Grande Sertão: Veredas”, embora não faltem alusões à disposição polimórfica-perversa da sexualidade, essas permanecem mais discretas, quase crípticas, projetadas sobre as formas de devassidão que reinam no campo do Hermógenes. Enquanto o tom lacônico de Joyce no “Ulysses” nos oferece uma reflexão sóbria e profunda sobre a experiência prosaica da maturidade, com seu séquito de decepções e perdas, Rosa dá um giro mais metafísico às mesmas aflições, e seu tom mais torturado termina por elevar-se para epifanias existenciais: Riobaldo conclui que “Demo não há, o que há é o homem humano”; e essa verdade contemplativa e conciliadora ressoa em todas as estórias rosianas – da Terceira “Margem do Rio” à estória do Tio Man’Antônio até o conto “Evanira”. No lugar da devassa dos dramas da trivialidade cotidiana, os narradores e personagens rosianos recapitulam as errâncias e os segredos da contemplação metafísica: “Devo adquirir mais silêncio, mais espera, mais brancura.” (Evanira)
Essa diferença de perspectiva muda também as respectivas visões da sensualidade, do amor e da amizade, alterando o foco do imaginário envolvendo as relações entre homens e mulheres e a concepção dos desejos homo, bi e heterossexuais – visões com as quais Rosa se distingue não somente de J. Joyce, mas também de todos os autores brasileiros (antes e depois de sua época).
ESTILO, PASTICHE,
PARÓDIA, IRONIA
Joyce foi um verdadeiro trapezista dos estilos. Passava voando do romântico para o sórdido, da epopeia homérica à retórica escolástica e ao romance moderno, dos jogos de linguagem e trocadilhos às associações livres da psicanálise e aos surtos do inconsciente. Ele parodia tanto o sentimentalismo de sua heroína Gerty, como as fantasias lúbricas de Bloom. Inserido na sua tradição, Joyce adquiriu a habilidade de adotar, para cada um dos seus 18 capítulos, seu respectivo estilo – cada um diferente do outro e apresentando graus de dificuldade crescente para o leitor – transformando o romance em pastiche da própria tradição literária. No último terço do romance, ele passa da perfeição da ironia romanesca na esteira de Swift e Maupassant (no capítulo 13, Nausícaa), para os estilos crípticos, indigestos e torturantes para o leitor, nos episódios dos Bois do Sol e de Circe – superando o que há de melhor e mais difícil numa cultura com longa e forte tradição formal.
Rosa, ao contrário, não brilha tanto pelo virtuosismo literário. Ele é um autor mais compenetrado e genuinamente identificado com as raízes de seus personagens e com sua própria origem. A todo momento, sentimos seu encanto com a tradição oral do sertão e com os desdobramentos eruditos da oralidade que ele explorou debruçando-se sobre os causos e casos de Simões Lopes Neto. Sua obra e sua identidade gravitam em torno do seu lugar de nascimento, Cordisburgo. Esse enraizamento dá um alto grau de solenidade às ruminações de seu narrador, que nunca perde de vista certa aspiração espiritual, e o impede de acompanhar os loopings da ironia e do humor (muitas vezes francamente cínicos) de Joyce. Onde o irlandês explora todos os registros da escala estilística da literatura anglo-saxã e lança mão de inúmeras tradições linguísticas e culturais do Ocidente, a empreitada de Rosa fecha uma brecha da história literária brasileira: recuperando o patrimônio popular do Brasil – uma tarefa que os irmãos Grimm cumpriram um século antes na Alemanha. Rosa está sinceramente comprometido com a coleta das tradições populares e do folclore antes da modernidade dispersar a memória desse patrimônio até então desprezado.
Ele pertence a uma tradição completamente diferente daquela perícia formal que remonta à grande reforma elisabetana da linguagem e da tradição literária cultivada com zelo e rigor nas escolas e universidades ao longo dos séculos. Nada comparável existia no Brasil, nem na Alemanha, nem na Áustria – e quando Rosa criou sua autobiografia imaginária, inserindo as raízes mais remotas de sua linhagem não apenas no sertão brasileiro, mas na cultura celta e germânica, ele tomou de empréstimo uma tradição bem mais jovem: seus autores mais admirados são os pré-românticos alemães (Novalis, Hölderlin, Kleist), Goethe e Thomas Mann, Kafka e R. Musil – ou seja, autores cujas narrativas repousam sobre um forte lastro filosófico e contemplativo; além disso, ele segue uma tradição emocional que repudia os sarcasmos da ironia demasiadamente paródica e cínica, cultivando formas mais doces e conciliadoras de ironia e crítica.
No lugar das ousadias eróticas que parodiam os sonhos pequeno burgueses no “Ulysses”, expondo meninas e filhas, mulheres e esposas aos olhares masculinos e à sua sexualidade polimorfa-perversa, Rosa, sem ser pudico, coloca rédeas na liberdade sexual masculina, emancipa suas mulheres e reconhece seu direito a prazeres eróticos nada convencionais (Maria da Luz e Hortênsia). Acima dos desmandos do sertão, reina um tom que abranda a hybris erótica masculina que Joyce captou – em grande estilo. Rosa envereda por uma sensualidade mais espiritualizada – cria uma atmosfera quase transcendente que vincula sensualidade com amor, beleza e gratidão. Riobaldo, sob a influência inebriante do encontro com o “menino” – Reinaldo-Diadorim – desperta para a amizade, a beleza e o amor, começa a refinar seu olhar, aprende a perceber as transcendências da realidade banal e abre-se à riqueza do universo. Seguindo as sugestões do famoso ensaio “Sobre a amizade” de Montaigne, ele distancia-se do foco sexual de Freud. Rosa explora toda a gama que vincula Eros e Ágape, abrindo caminhos para as muitos matizes da amizade hétero, bi e homossexual e para as epifanias do amor – do orgasmo sexual a uma conciliação amorosa dos gêneros – de homens e mulheres, de homens e homens – e da humanidade com todas as criaturas.
SERVIÇO
- Festa Literária “Bloomsday: entre Dublin e o Sertão”
- Papo entre Donaldo Schüler, Kathrin Rosenfield, Sergius Gonzaga e Milton Ribeiro. Música: Projeto ORDA, de Caetano Maschio
- Dia 13/6, sábado, das 15h30min às 17h30min.
- Instituto Ling (João Caetano, 440 – Porto Alegre)
- Entrada franca. Inscrição sem custo no site www.institutoling.org.br.