Espécies de adornos, ornamentos e até mesmo brinquedos, todos um tanto ao avesso, as obras de Claudio Cretti (Belém/PA, 1964, radicado em São Paulo) se constroem como colagens ou exercícios de aproximação. Materiais e objetos recolhidos de feiras, briques e de seu próprio ateliê são reunidos em composições que desafiam sua função e estética originais e inauguram novas possibilidades de sentido, tal como o título da mostra no V744atelier (“Bijoux Paçoca”), em Porto Alegre, sugere.
A prática do artista aqui em destaque ancora-se nessa investigação de elementos – que trazem certo rescaldo da vida – e na sua justaposição. Madeira, metal, couro, contas, barbantes, papéis, feltro, objetos comuns – e também alguns cuidadosamente garimpados – convivem em arranjos que parecem ao mesmo tempo espontâneos e rigorosamente orquestrados.
Há, nessas composições e nos seus exercícios de verticalidade, como na obra que abre a exposição, disposta no corredor de entrada, a sugestão de um equilíbrio delicado. É como se os elementos ali reunidos tivessem encontrado, por um instante, a posição exata para coexistir, revelando-nos uma lógica insuspeita, quase secreta. Algo do encontro surrealista, mas também de uma economia rigorosa: nada ali sobra, nada é gratuito.
O humor e a doçura – presentes também no título da mostra – atravessam a produção do artista de modo sutil: nas associações inusitadas e nos deslocamentos de função. Tal leveza não anula a sofisticação formal que caracteriza o conjunto. É justamente na convivência entre o espírito lúdico e uma elegância precisa que reside a potência desses trabalhos. É nessa junção que nosso olhar se demora, curioso.
Ao operar com materiais encontrados, Cretti propõe um novo regime de atenção: olhar para o que já existe, para o que foi descartado ou esquecido, e reconhecer ali um potencial poético. Como sugere a poeta Ana Martins Marques, trata-se de compreender que “colecionamos objetos, mas não o espaço entre os objetos” — ou o tempo entre eles ou a memória daquilo para o qual são feitos ou ainda os intervalos entre seus significados. Assim, as obras convidam o público a percorrer as articulações entre os diferentes elementos, desvelando relações que se constroem no limite entre o estranhamento e o reconhecimento.
Ao lado de três pequenas colagens, cujas composições parecem articular uma delicada coreografia, “Bijoux Paçoca” apresenta um conjunto generoso desses objetos improváveis, que vêm marcando a trajetória recente do artista. Cada arranjo é resultado de uma aproximação paciente, entre idas e vindas, avanços e recuos, na qual os diferentes elementos aprendem a operar – ou seria dançar? – juntos. Ao nos devolverem o olhar, os trabalhos nos instigam a perscrutá-los com atenção, algum espanto, deleite e encantamento.
SERVIÇO
O Quê: Exposição “Bijoux Paçoca”, de Claudio Cretti. Texto da pesquisadora Fernanda Albuquerque
Quando: Visitação até 17 de julho de 2026. De quartas a sextas, das 14h às 17h. Outros dias e horários: mediante agendamento pelo DM do @V744atelier
Onde: V744atelier | rua Visconde do Rio Branco, 744, Bairro Flores