Caderno de Sábado

O espírito lúdico e a elegância precisa em “Bijoux Paçoca”

Professora e pesquisadora do PPG em Museologia e Patrimônio da Ufrgs, Fernanda Albuquerque, analisa mostra de Claudio Cretti, que está no v744atelier

Vista da exposição individual, intitulada "Bijoux Paçoca", de Claudio Cretti, no Espaço Orlando, em São Paulo, no ano de 2025.
Vista da exposição individual, intitulada "Bijoux Paçoca", de Claudio Cretti, no Espaço Orlando, em São Paulo, no ano de 2025. Foto : Carlos Monaretta / Divulgação / CP

Espécies de adornos, ornamentos e até mesmo brinquedos, todos um tanto ao avesso, as obras de Claudio Cretti (Belém/PA, 1964, radicado em São Paulo) se constroem como colagens ou exercícios de aproximação. Materiais e objetos recolhidos de feiras, briques e de seu próprio ateliê são reunidos em composições que desafiam sua função e estética originais e inauguram novas possibilidades de sentido, tal como o título da mostra no V744atelier (“Bijoux Paçoca”), em Porto Alegre, sugere.

A prática do artista aqui em destaque ancora-se nessa investigação de elementos – que trazem certo rescaldo da vida – e na sua justaposição. Madeira, metal, couro, contas, barbantes, papéis, feltro, objetos comuns – e também alguns cuidadosamente garimpados – convivem em arranjos que parecem ao mesmo tempo espontâneos e rigorosamente orquestrados.

Há, nessas composições e nos seus exercícios de verticalidade, como na obra que abre a exposição, disposta no corredor de entrada, a sugestão de um equilíbrio delicado. É como se os elementos ali reunidos tivessem encontrado, por um instante, a posição exata para coexistir, revelando-nos uma lógica insuspeita, quase secreta. Algo do encontro surrealista, mas também de uma economia rigorosa: nada ali sobra, nada é gratuito.

O humor e a doçura – presentes também no título da mostra – atravessam a produção do artista de modo sutil: nas associações inusitadas e nos deslocamentos de função. Tal leveza não anula a sofisticação formal que caracteriza o conjunto. É justamente na convivência entre o espírito lúdico e uma elegância precisa que reside a potência desses trabalhos. É nessa junção que nosso olhar se demora, curioso.

Ao operar com materiais encontrados, Cretti propõe um novo regime de atenção: olhar para o que já existe, para o que foi descartado ou esquecido, e reconhecer ali um potencial poético. Como sugere a poeta Ana Martins Marques, trata-se de compreender que “colecionamos objetos, mas não o espaço entre os objetos” — ou o tempo entre eles ou a memória daquilo para o qual são feitos ou ainda os intervalos entre seus significados. Assim, as obras convidam o público a percorrer as articulações entre os diferentes elementos, desvelando relações que se constroem no limite entre o estranhamento e o reconhecimento.

Ao lado de três pequenas colagens, cujas composições parecem articular uma delicada coreografia, “Bijoux Paçoca” apresenta um conjunto generoso desses objetos improváveis, que vêm marcando a trajetória recente do artista. Cada arranjo é resultado de uma aproximação paciente, entre idas e vindas, avanços e recuos, na qual os diferentes elementos aprendem a operar – ou seria dançar? – juntos. Ao nos devolverem o olhar, os trabalhos nos instigam a perscrutá-los com atenção, algum espanto, deleite e encantamento.

SERVIÇO

O Quê: Exposição “Bijoux Paçoca”, de Claudio Cretti. Texto da pesquisadora Fernanda Albuquerque

Quando: Visitação até 17 de julho de 2026. De quartas a sextas, das 14h às 17h. Outros dias e horários: mediante agendamento pelo DM do @V744atelier

Onde: V744atelier | rua Visconde do Rio Branco, 744, Bairro Flores