Nem sempre valorizada adequadamente, sobretudo por causa de um vezo ideológico, já que o escritor, ao contrário de seus contemporâneos, jamais se filiou a qualquer partido político ou desenvolveu militância política, a obra de Erico Verissimo, nem por isso, deixou de alcançar enorme sucesso junto ao grande público leitor brasileiro.
Ao lado de Dyonélio Machado e de Reynaldo Moura, o autor de Cruz Alta introduziu, no ciclo do chamado romance de 30, essencialmente nordestino e ruralista, a perspectiva urbana e da classe média. Perspicaz e sensível, Erico Verissimo se deu conta de que este novo personagem da vida social brasileira poderia e queria ser, também o novo personagem da narrativa romanesca nacional. Assim, desde “Clarissa”, ele escolheu o centro histórico da cidade de Porto Alegre e focou sua atenção para a mobilidade social. Ao contrário de Dyonélio Machado, que escolheu a periferia da cidade, com “Os Ratos”, por exemplo, Verissimo percebeu que a classe média que se formava era oriunda do interior do estado – como ele próprio, diga-se de passagem – e buscava constituir um espaço específico, que pudesse chamar de seu, integrando-se ao conjunto histórico e social. Portanto, seus romances se tornam histórias de ascensão social, sob os mais diversos aspectos.
Falecendo aos 70 anos de idade, sua herança é uma preciosidade, porque sintetiza a história da classe média brasileira, não apenas no Rio Grande do Sul, quanto no restante do Brasil. Preocupado em escrever sobre e para este público, o romancista não podia se dar ao luxo de grandes elucubrações filosóficas. Ele precisava escrever numa língua que todo o mundo entendesse histórias pelas quais todo o mundo se interessasse, porque continham personagens com quem todo o mundo se identificava. Em síntese este seu objetivo foi atingido plenamente, para desgosto da crítica ideologicamente comprometida que, por isso mesmo, passou-o a denominar “contador de histórias”, denominação que ele assumiu plenamente, inclusive adotando-a no volume que a Editora Globo publicou, em 1972, alusivo a seus 40 anos de vida literária, sob organização de Flávio Loureiro Chaves.
Em 2005, em alusão à passagem do centenário de seu nascimento, tive a oportunidade de organizar, enquanto vice-governador do Estado, com a parceria do então secretário de Estado da Cultura, Roque Jacoby, e o decidido apoio do Governador Germano Rigotto, uma série de iniciativas que marcaram a data, dentre elas os calendários anuais do Banco do Estado do Rio Grande do Sul (Banrisul), a aquisição de pacotes de suas obras, a Companhia das Letras, a serem entregues às bibliotecas de colégios estaduais, e uma programação desenvolvida com a TV Educativa do estado.
Em 2025 comemoram-se os 120 anos de seu nascimento: a coincidência é que, desta vez, respondo pela administração da Fundação Theatro São Pedro, da qual faz parte o Multipalco. Por sua própria denominação e espaços disponíveis, o Multipalco pode e deve abrigar iniciativas variadas no campo das artes. E a passagem desta data não poderia ser esquecida. Começou-se por imaginar uma exposição: telefonei à Lúcia Verissimo que me repassou, incontinenti, à Fernanda Verissimo, e a resposta foi rápida; podemos fazer uma exposição do Eloar Guazzelli com quadrinhos de uma adaptação que ele está fazendo de “O Tempo e o Vento” para a Companhia das Letras, a ser lançado no ano vindouro. Sugestão feita, reunião com o artista gráfico que se encontrava na cidade, exposição marcada. Daí surgiu a Mariana Abascal: a Assembléia Legislativa, presidida pelo deputado Pepe Vargas, realizava um festival cinematográfico alusivo aos 190 anos da instituição, e que iria incluir a versão mais recente de “O Tempo e o Vento” dirigida por Jayme Monjardim e interpretada centralmente por Thiago Lacerda. O filme, de 2013, poderia ser incorporado a esta programação: um verdadeiro brainstorming resultou no convite para o diretor e o ator se fazerem presentes na sessão, mais a roteirista e romancista Letícia Wierzchowski, culminando na ideia de que a Orquestra Theatro São Pedro, sob a batuta do maestro Evandro Matté, interpretasse ao vivo a trilha sonora do filme, idealização do maestro e compositor Alexandre Guerra, que também se faria presente a esta exibição.
As conversas foram se alargando: Salus Loch, da Casa da Memória Unimed, anunciou que a instituição promoveria uma exposição, com curadoria de Marco Aurelio Biermann Pinto e de José Francisco Alves e em parceira com a Associação Cultural Acervo Literário Erico Verissimo, com manuscritos e objetos do escritor, em novembro. Com o beneplácito de Nilson May e de Alcides Stumpf, a Unimed Federação RS tornou-se parceira nesta iniciativa, e então foi a vez do teatro; buscamos o grupo Cerco, que já realizou espetáculos a partir de textos do escritor; pensamos na obra dirigida às crianças, e assim escolhemos “O Urso com Música na Barriga”, e, enfim, a grande novidade: desafiamos o dramaturgo e diretor Julio Conte a escrever uma peça sobre Erico Verissimo.
O tempo era curto, mas Conte tem prática neste tipo de escritura. A partir de uma entrevista de Jorge Andrade com o romancista, publicada na revista “Realidade”, Conte descobriu que Clarice Lispector também havia feito entrevistas com o seu, agora passamos a saber, grande amigo Erico Verissimo e sua esposa Mafalda, aliás, padrinhos de ambos os filhos da escritora. Pronto, surgiu a peça “A Hora de Erico”, alusão ao último romance de Clarice, “A hora da estrela”, e que, em sua estrutura, seguirá a lição de “A divina comédia”, de Dante Alighieri.
Eis, em pouquíssimas palavras, a gênese deste projeto que pretende marcar, com destaque, o aniversário daquele que faz a síntese romanesca de nossa história: a partir dos dias 7 e 8 de outubro, com a inauguração da exposição de Guazzelli e, no dia seguinte, a projeção do filme baseado em “O Tempo e o Vento”, vamos realizar atividades que incluem, ainda, debates com professoras como Socorro de Assis, Mara Jardim e Ana Cláudia Munari, distribuídos entre o Multipalco e a Casa da Memória, evidenciando toda a dinâmica e a influência da obra de Erico Verissimo em nossa cultura.
No ano vindouro, aliás, o mesmo projeto homenageará Mario Quintana, que também completará 120 anos de nascimento, e cuja comemoração já estamos começando a organizar: o Rio Grande do Sul não pode deixar de agradecer, com tais iniciativas, a estes dois extraordinários escritores, um na prosa, o outro na poesia, que se tornaram figuras de referência e de orgulho para todos nós. Por isso, o projeto, que se desdobra ao longo destes dois anos, foi denominado “Legado”.
Para as novas gerações, é fundamental conhecerem a criação de Erico Verissimo e a sua decidida vinculação com nossa história e cultura. Para a geração dos leitores de Erico Verissimo, é um excelente momento para matarem saudades e avaliarem a importância e a repercussão de sua obra.
Para todos nós, que nos envolvemos neste projeto, foi imensamente prazeroso ir descobrindo, gradualmente, o quanto cada um tinha de relacionamento com a obra do criador de personagens inesquecíveis. Nosso “contador de histórias” pode se orgulhar, sim, desta denominação: seus textos se encontram no inconsciente de nossa memória, mas afloram, quando menos esperamos. Erico Verissimo deu vida às figuras que criou, vitalidade que ultrapassou o seu tempo de escritor e o tempo da leitura de suas obras e as ações de seus personagens. Certamente, ao revisitarmos sua obra, através destas transcriações, vamos nos dar conta do quanto cada um de nós carregamos de seu trabalho.