Caderno de Sábado

O Livro Nosso de Cada Dia

Escritor Alcy Cheuiche exalta as realizações de Feira do Livro em Porto Alegre e nas cidades do interior do RS em texto para o Caderno de Sábado

A 70ª Feira do Livro de Porto Alegre vendeu mais de 241 mil livros em 20 dias de realização
A 70ª Feira do Livro de Porto Alegre vendeu mais de 241 mil livros em 20 dias de realização Foto : Mauro Schaefer

Ainda de ressaca literária, depois de vinte dias na Feira do Livro de Porto Alegre, volto, aos poucos, à minha rotina. Assim, entro numa padaria da Goethe em busca de um pão rústico que costumo comprar.

- Por onde andava, meu amigo? – pergunta-me o padeiro com simpatia.

E, antes que eu possa falar, responde ele mesmo:

- Na Feira, certamente. Eu também fui lá neste domingo, com a família.

Continuamos no assunto, e ele arregala os olhos quando lhe digo que foram vendidos cerca de duzentos e cinquenta mil livros, além da realização de algumas centenas de sessões de autógrafos, debates, contações de histórias, apresentações musicais e de teatro. E o melhor de tudo para um escritor: o encontro com os leitores.

Aliás, como dizia Mario Quintana, nosso maior privilégio na Feira é o de autografar fora de hora, para a pessoa que nos aborda com o livro nas mãos, os olhos brilhando.

E completo o relato com a frase do próprio Mario:

- O verdadeiro analfabeto é aquele que sabe ler e não lê.

O padeiro acha graça na frase, eu pago, recolho o pão cheiroso e, quando vou me despedir, ele diz:

- O livro devia ser como o pão nosso de cada dia.

Agora quem arregala os olhos sou eu, concordando. E saio da padaria com a frase ecoando na minha cabeça.

Logo adiante, passo por uma antiga banca de jornais e revistas, que, há alguns anos, costumava vender também livros. Infelizmente, transformou-se num local de vendas de quinquilharias. Por que? Porque ninguém lê. Mas, se ninguém lê, como foram vendidos mais de dez mil livros por dia na Feira? Não seria possível inventar um projeto para equipar essas bancas com muitos livros? Mesmo que continuem vendendo outras coisas?

Chegando em casa, pego o “Romance da Rua da Praia”, que Leonardo Stefani lançou nesta Feira, e localizo o trecho que vou transcrever:

Passando diante da banca de revistas, Arthur acena com a cabeça para o dono. Ele vê que o leiaute mudou. O luminoso informa que há café e local para sentar. Livros, periódicos, carregadores de celular e cartões são armazenados em prateleiras de vidro. Reclusas e longe das mãos curiosas de outrora. Não existem pilhas de jornais nem revistas penduradas em barbantes girando ao sabor da brisa.

De imediato, minha imaginação transforma a banca descaracterizada na réplica de um estande da Feira do Livro, com homens, mulheres e crianças disputando espaço. Inclusive nos balaios de ofertas, onde já comprei maravilhas mais baratas do que um pão. E até com sessões de autógrafos sendo ali realizadas periodicamente.

A frase do padeiro volta à minha cabeça para dar nome ao projeto, que poderá unir todos os dias, e não só uma vez por ano, a Prefeitura Municipal com a Câmara Rio-Grandense do Livro, escrito na testa de todas as bancas de revistas de Porto Alegre: O Livro Nosso de Cada Dia.

Um exemplo a ser seguido pelas cidades do interior, principalmente naquelas mais de cem que realizam todos os anos suas Feiras do Livro. Como a de Pelotas, que acaba de completar cinquenta anos, e a de Viamão, premiada pela Federasul e Assembleia Legislativa como Expressão Cultural, entre os Líderes & Vencedores de 2024.

Um sonho maluco? Talvez. Mas não tão maluco como o de Say Marques, o jornalista e vereador que idealizou a nossa Feira do Livro de Porto Alegre no longínquo ano de 1955. E de todos os outros malucos que a trouxeram viva em setenta edições, inclusive durante a Pandemia e logo após a maior enchente da nossa História