Conheci Guilhermino Cesar no final dos anos sessenta, quando ingressei na Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Ele havia regressado de Portugal, onde ocupara a Cátedra de Literatura Brasileira na Universidade de Coimbra. Recém vindo da Europa, reassumiu o ensino de Literatura Brasileira no Curso de Letras, que então pertencia à Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras. Sua fama intelectual o precedia. Um professor com tal titulação era, para nós, desafio e encantamento. Éramos aproximadamente setenta jovens desinformados, de poucas ambições intelectuais, com raras e fracas leituras. E as aulas do mestre eram conferências, com largas digressões eruditas, que acompanhávamos, ignorantes e deslumbrados. De quando em vez, ele interrompia a fala e perguntava aos alunos: “o que é Escolástica”, “o que você entende por Maneirismo” - questões que expunham o nosso despreparo e ignorância. Cônscio dessa precariedade, o professor propôs a redação individual de monografias. Cada aluno deveria escolher um escritor brasileiro, pensar um tema e submetê-lo à aprovação. Ele atendia aos alunos com hora marcada, para além do horário de aulas. Com uma pequena máquina de escrever tipo Olivetti, entrevistava um a um os pretendentes, preenchendo fichas individuais.
No prazo de um mês, realizava novas entrevistas para ver o andamento dos projetos, acompanhando-os até a entrega da monografia final. Severo, rigoroso, Guilhermino lia, comentava e não poupava ninguém. Tantos anos depois, imagino o que ele sentia nesse confronto diário entre sua expectativa e nossa inconsistência. O velho mestre gostava de semear em terras desertas. Filha de professores bastante instruídos, eu lia muito mas sem a pretensão de dedicar-me profissionalmente às Letras. Assim, ao me defrontar com minha ignorância ante a exigência dos professores, tive vontade de desistir do Curso e dedicar-me às panelas, como ironicamente alguns sugeriam. Mas Guilhermino leu meu trabalho monográfico e o examinou com seriedade e respeito. E assim teve início nossa relação, fundada na sua erudição e competência e no meu fascínio por sua cultura e conhecimento.
Com tempo, a admiração pelo Mestre solidificou-se em longa amizade. Guilhermino Cesar revitalizou o ensino das Letras. Trouxe para suas aulas o Barroco brasileiro, a literatura e a arte mineira, o estudo do poema, a leitura das grandes obras literárias do Brasil e de Portugal. Fez parte do seu projeto contribuir para a criação do Programa de Pós-graduação em Letras da Ufrgs. Como orientador na Área de Literatura Brasileira, privilegiou o estudo de escritores sul-rio-grandenses cujas obras considerava decisivas para a definição da literatura local. Orientou as primeiras dissertações sobre escritores gaúchos, objeto de seu interesse. E sugeriu-me examinar a obra ficcional de Alcides Maya, autor então pouco lido, mas cujos romances e contos não poderiam permanecer esquecidos. Voltei a Maya anos mais tarde, para o Doutorado em Literatura Comparada, orientada então pela professora Tania Franco Carvalhal.
Na condição de orientanda e amiga, frequentei a casa de Guilhermino César por muitos anos e guardo as melhores e mais fecundas lembranças desses nossos encontros. O apartamento em que residia com a esposa, Dona Vanda, era literalmente ocupado por livros. Além disso, sua biblioteca espraiava-se pelo apartamento contíguo, que ele alugava para esse fim. E era impressionante vê-lo circular pelos estreitos corredores, por entre as prateleiras, encontrando os livros que buscava mesmo sem consultar suas lombadas. A intimidade com eles era uma prática que o velho Mestre cultivava.
Tempos depois, quando ele já estava bem idoso, enxergando pouco, eu o visitava para ler os seus poemas. Esse foi um aprendizado muito particular que fez a diferença para mim. Com ele aprendi a sentir e valorizar o poema, o ritmo, sua carga sonora, as metáforas, as imagens. E reconhecer os múltiplos significados do texto, a linguagem elevada a sua mais alta potência. Além de participar da organização do Instituto de Letras Programa de Pós-Graduação nessa universidade, Guilhermino Cesar renovou os estudos literários na Universidade, conjugando ao viés historicista, então dominante nos estudos literários, o eixo disciplinar da Teoria e da Crítica Literária. Tal postura intelectual preside os livros que publicou.
Sempre interessado nas questões locais, Guilhermino trouxe para os currículos de Letras a disciplina de Literatura Sul-rio-grandense, derivada dos cursos que ministrara no Mestrado, com foco no Regionalismo e na figura ímpar de Simões Lopes Neto. Essa atitude pioneira respondia ao interesse da época, quando a literatura local começava a ser conhecida, lida e divulgada no Estado e no País. Então, através de esforços conjugados entre novas editoras que surgiam e o Instituto Estadual do Livro, então órgão do Departamento de Assuntos Culturais do Estado, foram sendo desenvolvidos projetos de apoio às novas editoras e à valorização dos escritores que surgiam, mesmo às sombras da Ditadura Militar. Por essa ocasião, Guilhermino escrevia sistematicamente para o Caderno de Sábado. Seus estudos sobre o conto gauchescos (foram seis) constituem leitura obrigatória para quem pretende conhecer as peculiaridades do gênero.
Intelectual de múltiplos interesses, o professor, além disso, prestou ao Estado relevantes serviços. Erudito historiador, presidiu o Instituto Histórico e Geográfico Rio Grande do Sul e o Conselho Estadual de Cultura; ensaísta, tradutor, crítico literário e articulista; poeta, autor de obras diversas, teve participação ativa na imprensa gaúcha, sobretudo no Correio do Povo.
Interessado também pelas Artes Dramáticas, nos anos 40 dirigiu a encenação de “Antígona”, de Anouilh, em Porto Alegre. Publicou inúmeros livros. Coube-lhe, além disso, participar da “descoberta” e reavaliação da obra teatral do dramaturgo Qorpo Santo, bem como do resgate do poeta Pedro Canga, e do romancista Caldre e Fião, autor do primeiro romance no Estado.
Dentre suas maiores contribuições para a literatura, destacam-se a publicação da “História da Literatura no Rio Grande do Sul” (1737-1902), editada em 1955, pela Globo; e da “História do Rio Grande do Sul - Período Colonial” (1970), pela mesma editora, ambas resultantes do trabalho de pesquisa sobre a formação cultural do Estado. O trabalho foi dado a conhecer já nos anos 50, quando Guilhermino, passou a residir em Porto Alegre e tomou a si o encargo de pesquisar as origens e as razões históricas e sociológicas que contribuíram para formar a literatura do Rio Grande do Sul. Até então, as histórias literárias existentes datavam do início do século XX. Talvez o fato de não ser gaúcho possibilitou-lhe o distanciamento necessário para escrever a obra. E esta, conforme registram os estudiosos, tem o mérito de incluir a perspectiva teórico-crítica na seleção e ordenação das obras, um passo bem adiante da visão tradicional e historicista dominante.
Além da participação direta no mundo literário e artístico gaúcho, o professor atuou por muitos anos no Instituto Histórico Geográfico do Estado, órgão que presidiu. Também presidiu nosso Conselho Estadual de Cultura. Sua atuação foi decisiva para a constituição das instituições culturais ligadas à então secretaria de Educação e Cultura, a que pertenciam o Departamento de Assuntos Culturais, com o Instituto Estadual do Livro, as bibliotecas e os Museus. Esteve presente na organização de eventos importantes para a cidade, como a Feira do Livro, que o homenageou como Patrono em 1990. Depois que faleceu, sua imensa biblioteca, que chegou a ocupar dois apartamentos no edifício onde residia, foi dividida. Uma parte, destinou-se a formar a “rio-grandina”, com obras raras e preciosas que foram entregues à Biblioteca Pública do Estado. O restante foi distribuído entre universidades.
Há alguns anos, a editora da Ufrgs publicou um livro, organizado pela professora Maria do Carmo Campos, que mapeia e reaviva as lembranças que temos da vida e da obra de Mestre: “Guilhermino Cesar, Memória e Horizonte”. (2010). E, apesar de já contarmos com estudos importantes sobre sua obra, como teses de Mestrado e Doutorado, ainda há muito a aprender e a pesquisar a respeito da relevância da sua contribuição. O poeta do grupo modernista de Cataguazes, ao mudar-se para o Rio Grande do Sul, muito contribuiu para modernizar a arte, a cultura, os estudos literários, arejando a Academia com seu entusiasmo e ânsia de renovação.
Certa ocasião, em conversa informal que tivemos, Guilhermino César comentou que, se um dia fosse lembrado, queria sê-lo como poeta. Dentre os de sua lavra, “Sistema do Imperfeito e outros poemas” talvez seja o que melhor revela o humanismo do mestre, pouco afeito à religiosidade e ao sentimentalismo, sempre em busca da essência do humano. Deixou aos leitores poemas de alta voragem estética, o canto áspero do poeta, com versos exemplares: “Viver no ácido é o meu sistema/ Não que o tenha inventado/ Eu/ Recebi de presente, não sei como/ É um modo de morrer se esfarelando”.