Quando eu era criança, tinha um passatempo excêntrico: observar adultos. Principalmente os estranhos.
Curioso, olhava tudo: gestos, modos, momices desenhadas nas entrelinhas. Prestava atenção às palavras, ao tom de voz. As gargalhadas às vezes pareciam-me gritos disfarçados.
Eu não sabia, mas estava aprendendo uma ciência indispensável: expressão corporal.
Com inocência, ligava o meu radar intuitivo e catalogava tipos na memória desocupada: ameaçadores, trapaceiros, ilusionistas, mentirosos de carteirinha. Era como se eu enxergasse máscaras por trás de faces.
Certas vezes, por diversão, eu os imitava — figuras grotescas, de roucas vozes e desalinhadas poses, transformavam-se em personagens no meu bizarro teatro infantil.
O tempo passou. Cresci, infelizmente. Como acontece com todo mundo, perdi as virtudes puras da infância. Fiquei seco, amargo, sem graça e terrivelmente adulto.
Porém, ultimamente, ando a fazer algo novo — ou talvez algo velho. Esforço-me para voltar a olhar o mundo com os olhos daquele menino que há muito tempo fui.
Tenho me esmerado em reler as pessoas, gestos, vozes e expressões.
Na verdade, estou achando todo mundo muito parecido, principalmente nas vitrines digitais das redes sociais e na mídia em geral, engomada e falsa.
Falta espontaneidade; sobram trejeitos ensaiados na frente do espelho ou atrás das lentes.
Descubro, a cada dia, que há muito o que ver — e não imitar, sequer por brincadeira. Muitos olhos arregalados, sorrisos duros, rostos descorados — sinais nítidos de nervosismo em uma peça mal ensaiada.
Ao mesmo tempo, essa prática devolveu-me algo inesperado: uma deliciosa transformação em mim mesmo.
Notei que, ao prestar atenção de verdade — e na verdade —, mudei. Tornei-me mais leve nas conversas, mais gentil na escuta, menos apressado nos julgamentos. E isso, pasmem, tem mudado meus relacionamentos. Tenho me sentido menos só e mais bem acompanhado.
Às vezes percebo rostos vivos ao meu redor, olhares calmos e sorrisos sinceros. Vejo gente que acredita num bem que está por vir – mesmo que aconteça somente no ano que vem.
Talvez essa mudança não passe de uma tremenda infantilidade minha. Talvez. Mas é muito bom sentir-me assim. E, no fundo, não é disso que precisamos de vez em quando? Um pouco mais da pureza do olhar curioso de uma criança. Um pouco menos de certeza e mais encantamento nessa vida que nos é única e passa rápida, sem tréguas.
Dar tempo para alguém acreditar que pessoas boas ainda existem.