Caderno de Sábado

O menino e as pessoas

Diretor do Instituto Unimed/RS e presidente da Associação dos Amigos da Biblioteca Pública do Estado, Alcides Mandelli Stumpf expressa em texto a leitura de observação que fazia e faz das pessoas ao seu redor

Criança deposita flores em monumento no World War II Memorial, em Kiev, nas celebrações do Dia da Vitória
Criança deposita flores em monumento no World War II Memorial, em Kiev, nas celebrações do Dia da Vitória Foto : Sergei Supinsky / AFP / CP Memória

Quando eu era criança, tinha um passatempo excêntrico: observar adultos. Principalmente os estranhos.

Curioso, olhava tudo: gestos, modos, momices desenhadas nas entrelinhas. Prestava atenção às palavras, ao tom de voz. As gargalhadas às vezes pareciam-me gritos disfarçados.

Eu não sabia, mas estava aprendendo uma ciência indispensável: expressão corporal.

Com inocência, ligava o meu radar intuitivo e catalogava tipos na memória desocupada: ameaçadores, trapaceiros, ilusionistas, mentirosos de carteirinha. Era como se eu enxergasse máscaras por trás de faces.

Certas vezes, por diversão, eu os imitava — figuras grotescas, de roucas vozes e desalinhadas poses, transformavam-se em personagens no meu bizarro teatro infantil.

O tempo passou. Cresci, infelizmente. Como acontece com todo mundo, perdi as virtudes puras da infância. Fiquei seco, amargo, sem graça e terrivelmente adulto.

Porém, ultimamente, ando a fazer algo novo — ou talvez algo velho. Esforço-me para voltar a olhar o mundo com os olhos daquele menino que há muito tempo fui.

Tenho me esmerado em reler as pessoas, gestos, vozes e expressões.

Na verdade, estou achando todo mundo muito parecido, principalmente nas vitrines digitais das redes sociais e na mídia em geral, engomada e falsa.

Falta espontaneidade; sobram trejeitos ensaiados na frente do espelho ou atrás das lentes.

Descubro, a cada dia, que há muito o que ver — e não imitar, sequer por brincadeira. Muitos olhos arregalados, sorrisos duros, rostos descorados — sinais nítidos de nervosismo em uma peça mal ensaiada.

Ao mesmo tempo, essa prática devolveu-me algo inesperado: uma deliciosa transformação em mim mesmo.

Notei que, ao prestar atenção de verdade — e na verdade —, mudei. Tornei-me mais leve nas conversas, mais gentil na escuta, menos apressado nos julgamentos. E isso, pasmem, tem mudado meus relacionamentos. Tenho me sentido menos só e mais bem acompanhado.

Às vezes percebo rostos vivos ao meu redor, olhares calmos e sorrisos sinceros. Vejo gente que acredita num bem que está por vir – mesmo que aconteça somente no ano que vem.

Talvez essa mudança não passe de uma tremenda infantilidade minha. Talvez. Mas é muito bom sentir-me assim. E, no fundo, não é disso que precisamos de vez em quando? Um pouco mais da pureza do olhar curioso de uma criança. Um pouco menos de certeza e mais encantamento nessa vida que nos é única e passa rápida, sem tréguas.

Dar tempo para alguém acreditar que pessoas boas ainda existem.