O nome do livro é “O nome da ilha” (Casa de Astérion, 2026). Mas o nome da ilha nunca é dito. A. D. Cattani despista, para que a gente se dê conta apenas no fim do livro, quando a revelação da verdade é um rastilho de pólvora que queima de trás pra frente, iluminando o que ficou entre linhas.
Sim, trata-se de uma novela de mistério. Mas esse e outros silêncios não têm nada a ver com os velhos truques do gênero. São astúcias da melhor literatura, vide Tchékhov, Italo Svevo, Machado de Assis. Cattani ainda se dá ao luxo de ironizar vários clichês que caruncham tantos livros e filmes. Mais, como notou Giba Assis Brasil, no prefácio: Cattani subverte o padrão investigativo dos romances populares. Não importa quem matou e sim por que matou.
O livro se divide em duas partes. A primeira, “Uma história”, é uma espécie de sinopse do filme que é rodado na segunda, “A história verdadeira”. Ela dá, através de seus personagens fictícios, um vislumbre dos criminosos reais. Aí é que são elas: como a ilha, esses criminosos não têm nome, são membros anônimos de corporações. Quem tem nome são apenas os capangas.
Vamos voltar ao nome da ilha. Logo no começo, um personagem pensa que vai “até aquele lugar com nome errado, preferiria que se chamasse Almirante ou Comodoro alguma coisa, ou um sofisticado nome britânico, e não o de origem indígena, daquela gente que estava onde não deveria”. À primeira vista, isso parece apenas o viralatismo de um descendente de europeus, o desprezo pela terra e pelo povo que sustenta sua riqueza. Mas, no final do livro, suspeitamos que se trata de uma mágoa mais profunda: não basta saquear e exterminar um povo, é preciso apagar seu nome de tal modo que pareça nunca ter existido.
Isso, meus amigos, tem nome, e espero que vocês saibam qual.
Não devo falar mais claramente. Nada de spoiler, confere? Mas uma coisa eu posso garantir: ninguém casa no fim, nem é feliz pra sempre.
Ninguém tem tempo nem dinheiro pra acompanhar a literatura brasuca atual com, no mínimo, dez autores novos surgindo a cada mês. Um amigo me disse que grande parte dela gira em torno do umbigo dos autores e – que Deus me acuda – em prosa poética. Claro, eventualmente algum umbigo pode ser o motor de uma obra-prima, mas estou mais interessado no que se passa ao redor do umbigo, a balbúrdia do mundo, suas belezas e suas crueldades. Quanto à prosa poética, o problema é que raramente é poética, ou raramente ultrapassa aquela velha cafonice do José de Alencar que compara as águas do mar à esmeralda líquida.
Nesse quadro em que predomina o umbigo poético, A. D. Cattani é um alienígena. Como sociólogo, publicou, nos últimos anos, Ricos, podres de ricos (Marcavisual/Tomo Editorial, 2017), Carí$$imos ricos (Tomo Editorial, 2019) e A síndrome do mal (Cirkula, 2020). Só pelos títulos dá pra saber que a barra é pesada. E a prosa, adianto, é seca, um direto no plexo. Em suas ficções, não trocou de tema, nem de estilo. Apenas buscou examinar o que escapa do escrutínio da sociologia. É uma aventura arriscada, mas, depois de ler O nome da ilha, a gente espera que ele dobre a aposta.