No princípio do teatro não havia cenografia. Não havia refletores, bilheteria, poltronas numeradas ou campanhas de estreia. Havia uma voz. Havia alguém que se levantava diante da comunidade para narrar uma perda, celebrar uma vitória, pedir clemência aos deuses, rir das fraquezas humanas ou formular perguntas sem resposta. Antes de ser edifício, o teatro foi necessidade. Antes de ser espetáculo, foi palavra em estado de urgência.
Talvez por isso toda grande dramaturgia comece menos com uma ação do que com uma fala capaz de deslocar o mundo. “Ser ou não ser.” “Ó deuses.” “Toda nudez será castigada.” Uma frase pode inaugurar um destino. Uma pergunta pode atravessar séculos. Uma confissão pode reorganizar a memória de quem a escuta. O teatro sabe, desde sempre, que a humanidade não se move apenas por exércitos ou moedas, mas por narrativas, promessas, discursos, poemas e silêncios.
Quando atravessada por intenção dramática, a palavra deixa de ser mero instrumento de comunicação. Ganha carne, conflito, música e risco. No palco, uma frase pode salvar um amor ou destruí-lo. Pode depor um rei, reconciliar irmãos, expor uma mentira cultivada por anos. Pode arrancar riso no centro da tragédia e lágrimas no meio da festa. Nenhuma tecnologia substituiu esse milagre antigo: pessoas reunidas para ver o que acontece quando alguém diz algo decisivo diante de outro alguém.
É nesse horizonte que surge Casa da Palavra, projeto do Multipalco Eva Sopher. Não como simples item de agenda cultural, mas como afirmação de princípio. Em tempos marcados pelo ruído e pela superficialidade das trocas, recolocar a palavra no centro da experiência pública é gesto artístico, intelectual e, também, político, no sentido mais nobre da expressão: o de cuidar da vida em comum.
Toda arte, de algum modo, conversa com a palavra. A música a prolonga em ritmo e respiração. A pintura a desafia no silêncio da imagem. A dança a traduz em gesto. O cinema a fragmenta e recompõe em tempo e corte. A literatura a estica até seus limites mais belos e perigosos. O teatro, entretanto, realiza algo singular: transforma a palavra em presença.
No palco, a palavra não permanece abstrata. Ela transpira. Hesita. Mente. Consola. Acusa. Contradiz-se. Amadurece diante de nossos olhos. Diferentemente da palavra impressa, que pede recolhimento, e da palavra digital, tantas vezes arremessada sem consequência, a palavra teatral assume risco. Precisa ser dita diante do outro. Precisa atravessar o ar. Precisa responder à respiração da plateia. No teatro, a linguagem volta a ter peso.
Quando Hamlet pergunta se deve ser ou não ser, não ouvimos apenas a dúvida de um príncipe dinamarquês. Ouvimos a perplexidade humana diante do abismo. Quando Antígona desafia a lei injusta, sua voz atravessa regimes e calendários para lembrar que consciência e poder raramente caminham em paz. Quando Nelson Rodrigues escancara nossas hipocrisias familiares, percebemos que o escândalo mais duradouro mora dentro de casa. Quando Ariano Suassuna restitui ao Brasil a inteligência popular, a palavra ri, dança e pensa ao mesmo tempo.
Guimarães Rosa compreendeu algo decisivo: a linguagem não serve apenas para descrever a vida. Ela participa da criação da vida. Nomear não é gesto neutro. Quem dá nome dá contorno, existência, destino. Uma emoção sem palavra é névoa. Uma injustiça sem palavra permanece difusa. Um amor sem palavra corre o risco de nunca se completar. Uma sociedade sem palavras suficientes torna-se incapaz de interpretar a si mesma.
A palavra é, talvez, a mais sofisticada tecnologia inventada pela humanidade. Muito antes do chip e do satélite, houve a sílaba. Antes do algoritmo, houve a conversa. Com palavras criamos mitos fundadores, códigos jurídicos, poemas, tratados de paz, cartas de despedida, pedidos de desculpa e manifestos revolucionários. Com palavras organizamos a memória e projetamos o futuro. Com palavras evitamos a barbárie; ou a anunciamos.
Quem dispõe de poucas palavras frequentemente encontra mais dificuldade para elaborar sentimentos complexos, sustentar argumentos consistentes, compreender ambiguidades e negociar conflitos. Onde falta linguagem, sobra simplificação. Onde falta repertório, cresce a caricatura. Onde falta escuta, prospera o grito.
Casa da Palavra surge como resposta luminosa a esse cenário. O projeto, com patrocínio da Casa da Memória Unimed/RS e do Sescoop/RS, reunirá profissionais de múltiplas vertentes – literatura, dança, teatro, dramaturgia, jornalismo e outras expressões artísticas e intelectuais – para afirmar algo essencial: a palavra não pertence a um único campo. Ela é necessariamente plural.
Nossa casa – Multipalco – será palco para histórias de sucesso narradas, antes de tudo, pela força da palavra. E será justamente por meio dela que se estabelecerá a verdadeira cena: o encontro entre quem fala e quem escuta, entre público e convidado, entre experiência e sensibilidade. Porque toda palavra dita com verdade deixa de ser apenas som e se transforma em vínculo.
Reunir vozes distintas sob o mesmo teto é mais do que promover encontros temáticos. É oferecer à cidade um laboratório de convivência intelectual. Num país tantas vezes dividido por trincheiras artificiais, colocar diferentes linguagens em diálogo é ato de coragem cultural. A Casa da Palavra recusa o isolamento dos nichos. Aproxima saberes, desmonta fronteiras e lembra que pensar melhor depende, quase sempre, de ouvir melhor.
Com este projeto, reafirmamos nossa identidade como centro pulsante de produção cultural e pensamento contemporâneo. Não apenas palco de espetáculos, mas organismo vivo que formula perguntas, provoca encontros e participa do destino simbólico da cidade.
Dona Eva Sopher compreendia com lucidez rara que cultura nunca foi ornamento. Cultura é estrutura. É aquilo que sustenta uma sociedade quando a economia oscila, quando a política decepciona, quando a brutalidade ameaça se normalizar. Sem cultura, uma cidade pode até funcionar, mas dificilmente floresce.
Casa da Palavra nos recorda que civilização e linguagem caminham juntas. Toda grande crise humana é também crise de comunicação. E toda reconstrução começa quando alguém encontra as palavras certas para reabrir o diálogo.
Talvez essa seja a beleza mais funda do projeto: ele não oferece respostas prontas. Oferece condições para perguntas melhores. E perguntas melhores costumam produzir sociedades melhores.
Que o Rio Grande do Sul entre nessa casa. Que jovens descubram que escrever bem não é formalismo, mas liberdade. Que adultos recordem o prazer de uma conversa substantiva. Que artistas contaminem jornalistas, que jornalistas provoquem escritores, que leitores inquietem atores. Que o vocabulário coletivo se expanda. Que a escuta pública amadureça.
Porque enquanto houver seres humanos tentando compreender uns aos outros, haverá necessidade de palavra. E enquanto houver palavra viva, haverá teatro, haverá arte.
Nosso lançamento, claro, será com a força e o poder da palavra: “Quem conta o país? O Brasil em cena e em prosa”, com José Falero e Jorge Furtado, em encontro mediado pela jornalista Bruna Paulin. No palco do Teatro Simões Lopes Neto, o escritor e o roteirista e diretor falarão, a partir de suas trajetórias, sobre o papel da palavra que percorre com maestria a cena, a linguagem, a narrativa, a literatura, o cinema e a interpretação. Para participar, basta doar um livro.
- Luciano Alabarse é o presidente da Fundação Theatro São Pedro