Caderno de Sábado

O Patentino, jornal da Família Verissimo, completa 75 anos

Nos 90 anos de Luis Fernando Verissimo, escritor Breno Serafini recupera um pouco da história do periódico familiar

Clarissa e Luis Fernando com o pai Erico Verissimo ao piano
Clarissa e Luis Fernando com o pai Erico Verissimo ao piano Foto : Acervo da Família Verissimo / CP Memória

Tal qual um papiro perdido no tempo, o único exemplar que restou d’O Patentino, periódico que, com o perdão da palavra, colocava em dia as questões intestinais da Maison Verissimo, é o de número 6, ano II, datado de 13 de julho de 1951, 75 anos atrás, portanto.

Em registro datilografado (Remington?), amarelecido pelo tempo, ainda com marcas da fita durex que o prendia ao azulejo ou à porta do banheiro da família, na rua Felipe de Oliveira, em Porto Alegre, trazia no seu expediente o adolescente Luis Fernando como diretor, sendo secretariado por sua irmã Clarissa (1) (sim, aquela de mesmo nome do primeiro romance do pai, Erico) e tendo como fo-foca o primo Carlitos (2).

No jocoso folhetim, curiosamente “patrocinado” pela Coca-Cola (imagem vermelha e branca colada ao canto da página) (3), segundo relato da filha Fernanda, as personas citadas são Olga Reverbel, professora e teórica de teatro (que hoje dá nome a sala no Multipalco do Teatro São Pedro), casada com Carlos Reverbel, muito amiga da família; Cecy Mércio, também grande amiga da família, natural de Bagé, que morou com eles na Felipe de Oliveira, durante muito tempo; e Lucinda Martins, irmã de Mafalda e mãe de Carlitos, cujo pai era Justino Martins, jornalista que foi um dos criadores da revista Manchete.

Mas a publicação, longe de permitir uma crítica genética (4) à obra do nosso cronista-mor, até porque o texto apresentado é o de sua irmã, possibilita auscultar o seu espírito inventivo e bem-humorado, uma crônica doméstica de fatos acontecidos e inventados. Sobre o seu conteúdo, refere Fernanda ainda, “Lucinda também era madrinha e razão principal do nome de minha filha; Nadine Quaranta (depois Nadine Brun, de casada) era uma grande amiga francesa, que morou uns anos no Brasil e era grande amiga de Lucinda; e Hamilcar de Garcia era irmão da Olga, trabalhou na Editora Globo, em Porto Alegre, e, ao se mudar para o Rio de Janeiro, tornou-se ‘dicionarista’”.

O noticioso familiar foi o prenúncio daquilo que tardaria, mas não falharia, o despertar do talento e da verve humorística de um escritor que construiu uma obra vastíssima, especulando sobre o cotidiano com graça, elegância e, às vezes, uma letal ironia, a pedra angular de uma carreira que se consolidaria mais tarde, a partir de 1967, quando começou no jornal Zero Hora, depois na Folha da Manhã e tomando conta do país em seguida.

Aqui o jovem Verissimo de 14 anos desautorizava o prognóstico de Guimarães Rosa, de que a adolescência é algo pra ser desmentido depois; ao contrário, era o gérmen do uso da “pena da galhofa” e da “tinta da ironia” para desmascarar, em versão privada, as pequenas idiossincrasias da natureza humana e fazer do cotidiano o cimento da mais alta literatura, isto é, tornar o rés do chão excepcional.

NOTAS:

(1) Segundo o depoimento do próprio Luis Fernando, o nome do livro foi inspirado “numa menina que meu pai viu passar, mas que nunca identificou", o que acabou resultando no próprio nome da irmã, tanto em virtude do apreço de Erico à obra quanto ao sucesso obtido por ela.

(2) Carlos Eduardo Martins.

(3) Indício de algum coloradismo?

(4) A crítica genética investiga o processo de criação de uma obra literária ou artística, a partir do estudo de seus rascunhos e documentos de trabalho, como manuscritos e cadernos de anotações, rasuras, recortes, esquemas e desenhos, etc.