A obra de João Gilberto Noll é considerada um marco para a inserção do mundo contemporâneo na literatura brasileira. Desde a publicação de seu primeiro livro, “A fúria do corpo”, em 1981, mas sobretudo a partir de 2002, com o romance “Bekerley em Bellagio”, há um personagem nômade que se desloca de modo incessante em contos e romances, inconformado com as regras do mundo e vivendo um entrelugar situado entre a marginalização social e a tirania institucionalizada. Homem errante, marginal, mendigo, exilado, dissocia-se do mundo e da vivência rotineira e domesticada, para “enunciar um sentimento de insuficiência diante do real”, conforme as palavras de David Treece no prefácio dos “Romances e contos reunidos”.
Romances e contos de João Gilberto Noll são textos viscerais, verdadeiros espasmos que investigam os desvãos do homem. O autor explora a linguagem e a ultrapassa, sem preocupar-se em definir claramente a intriga, conforme ocorre em romances tradicionais. Servindo-se de narradores que oscilam entre a terceira e a primeira pessoa do singular, o autor cria deslizamentos discursivos que lembram as associações livres, tão caras à linguagem onírica e à psicanálise. O recurso se amplia pela agregação de forte dose de lirismo ao texto, modulando com suavidade o ritmo de algumas frases e surpreendendo o leitor pelo contraste insólito com o realismo de narrativas homoeróticas.
PERSONAGEM ERRANTE. É comum aos textos de Noll a presença de um personagem errante, nômade a circular por espaços reais e oníricos, condenado pela eterna e irremediável solidão. Noll não quer ser o escritor intimista que desvela a consciência dos homens. Também recusa os paradigmas do romance sociológico, embora seus textos revelem o conflito inconciliável entre homem e sociedade. Conforme a crítica vem mostrando há algum tempo ao referir-se a condição de exílio voluntário de suas personagens, o mundo, tal como é, obriga ao desterro e à deserção. O trágico dessa condição é, paradoxalmente, a consciência impotente de que tudo poderia ser de outro modo. Ao assumir-se, em muitos textos, como protagonista da narrativa, confundindo e fragmentando as instâncias de autor-narrador-personagem, João Gilberto Noll transforma a subjetividade em relato e confunde sujeito e objeto, forjando uma lírica própria, contrária às narrativas intimistas e confessionais. Narrativa difusa que confunde os estados de consciência, os textos de Noll são o testemunho ressentido, corrosivo e irônico da condição humana no mundo atual, onde o contato entre as pessoas é esporádico, mecânico e destituído de valor.
PERCEPÇÃO DO CORPO. Por situar o sexo como eixo dominante da vida dos protagonistas, muitas obras de Noll são o desdobramento de uma percepção expandida do corpo. É dos tecidos corpóreos do narrador-personagem, dos sentidos despertos para além da consciência que advém a matéria dos romances. Força motriz da narrativa, a percepção do corpo sugere ao leitor um aglomerado de associações. Nesse sentido, é possível ler os textos do escritor como rupturas do signo, cuja mediação do sentido é precária e incompleta. O escritor conhece a precariedade expressiva da palavra, pois não existe correspondência ou analogia perfeita com o que ainda não foi dito. E escrever é também nomear o que ainda não existe. O leitor percebe essa tensão nas falácias da linguagem, não raro irônica com relação ao ato de narrar. Pode-se supor, também, que na ânsia de dessacralizar os interditos, Noll cria um personagem que é “ele mesmo". Mas esse “alguém” pode ser um “outro”, que espelha e aguça a subjetividade do primeiro, narrando-o de fora e transformando-o em simulacro de si próprio. Além disso, ao assumir a perspectiva homoerótica, o escritor usa a linguagem para profanar tabus e desnudá-los com tristeza e melancolia. Fluidos indecisos, corpos escorregadios, seres desamparados, a urgência do encontro e dos corpos faz da obra de Noll uma babilônia de sensações e sentimentos que o texto poetiza repetidamente, lembrando o apelo à música que ocupou um espaço importante na vida do escritor. E como se lê em muitos romances, em especial, em “Berkeley em Bellagio”, linguagem e identidade confundem-se, ambas ameaçadas pela afasia, dissolução e desaparecimento. A força do erotismo exacerbado é o que mantém vivo o protagonista, condenado a nascer, viver e a morrer sem opção de escolha. O sexo intermitente, mesmo desvinculado de afeto, cria um desejo obsessivo, insaciável, que tende à continuidade. E o cárcere da linguagem, não raro do idioma, é da mesma natureza que o cárcere do corpo.
HOMEM NO MUNDO. Por esse ângulo, o escritor oferece uma leitura da criação literária como ato erótico, a criação para revelar a natureza do homem no mundo, expondo os paradoxos dessa relação. Donde o sofrimento pela consciência do que o mundo e o texto poderiam vir a ser. Essa busca de transformação expressa-se num fluxo constante, desconstituindo paradigmas literários. Em longos parágrafos, a falência da linguagem convive com sua visível opulência formal. Esse desencontro, essa impossibilidade de dizer o que existe ainda nas antecâmaras da linguagem, é o grande desafio que resulta, muitas vezes, numa prosa de índole barroca. Presas a um mundo domesticado e contraditório, onde a síntese é impossível, as personagens de Noll são erráticas, inquietas e angustiadas, ao mesmo tempo em que constroem, com seus passos, um mundo instigante para a sensibilidade e para a inteligência dos leitores desse grande escritor contemporâneo.
* Publicada originalmente no CS em 8 de abril de 2017