Caderno de Sábado

O ressentimento em construção

O jornalista José Weis resenha o livro “Senhor Cão”, lançado pelo jornalista, escritor, editor e livreiro Flávio Ilha, para o Caderno de Sábado, do Correio do Povo

Cena do filme "O Cachorro", dirigido pelo cineasta argentino Carlos Sorin
Cena do filme "O Cachorro", dirigido pelo cineasta argentino Carlos Sorin Foto : 20th Century Fox / Divulgação / CP Memória

O sujeito é o homem, é o Cão ou apenas “um protagonista inclassificável em sua desgraça”. Essa é a definição da jornalista e crítica literária, Paula Sperb, que assina o texto da orelha do livro de Flávio Ilha, “Senhor Cão” (Editora Aboio, 2024). Livreiro, escritor e jornalista, não necessariamente nesta ordem, o porto-alegrense Flávio Ilha também é o autor de “Longe daqui, aqui mesmo” e “Ralé”, dois volumes de contos; e de “João Aos Pedaços”, uma biografia de João Gilberto Noll. “Senhor Cão” é o seu primeiro romance.

O tempo é contemporâneo, o cenário de fundo é a cidade de Porto Alegre, com passagens pelo interior gaúcho e terminando em Lisboa, quando o protagonista enfrenta o seu destino. Trata-se de um falcatrua nato desde a origem, membro de uma conturbada família. O Brasil está inteiro nas entrelinhas, a história desnuda o caráter de uma certa classe que sempre afirmou, há séculos, com ações de preconceito e exclusão. O regime da ditadura militar, que durou mais de duas décadas, deixou marcas e vestígios na família de Pedro Flávio Póvoa, afetada e destruída pelo arbítrio. São acontecimentos envolvendo o sumiço do seu pai, Carlito, que teria sido capturado pelos órgãos de repressão, incluindo a conivência com o regime do avô militar, destilando sua intolerância, “nem cachorro o vô admitia”. Pequenas e grandes frustrações contribuíram para tornar Pedro um cara que “fracassou nas escolhas”, o que inclui a sua profissão de fotógrafo.

O autor de “Senhor Cão” lança mão de uma trama familiar, encastelada nos seus preconceitos raciais e sociais: “Gerusa aparenta bem mais idade do que os cinquenta e seis anos que tem dedicada que foi, integralmente, às instituições familiar e militar – duas glórias do Brasil varonil”. Gerusa, a avó de Pedro, é casada com um militar, Álvaro, do tipo linha dura. Família tão destroçada que, sem nenhum escrúpulo, Pedro Póvoa se torna o único beneficiado de uma indenização do Estado brasileiro pelo desaparecimento do pai, sem repartir com seus irmãos, Eulália e Joaquim.

Um ressentido atravessa o oceano

A escrita de Ilha é permeada de referências culturais, que vêm tanto da música como da própria literatura, transita entre a canção e a poesia, às vezes, fácil de identificar outras mais ocultas, cabe a leitor fazer suas conexões. Por exemplo, numa viagem aérea rumo a Lisboa, o personagem lembra de uma música de Belchior, “Pequeno Mapa do Tempo”, e sobretudo de um tempo de sentir muito medo. Porém, nem mesmo um voo de Porto Alegre a Lisboa salva Pedro de sua reduzida condição e seus ressentimentos.

Chega no frio do inverno europeu, portador do passaporte da Comunidade, sente-se seguro. Acostumado com um tipo de comportamento acobertado pela sua classe social, na primeira noite lisboeta, ele descobre que em outro país não é bem assim para se livrar de atitudes geradas pelo machismo bruto que expressa. Em um episódio numa pizzaria, à noite, Pedro assedia uma jovem negra, imigrante africana. Pois é, no Brasil dele, isso “não daria em nada”. Em Portugal, as coisas não ocorreram desta forma, mesmo com seu passaporte da Comunidade Europeia, Pedro é apenas mais um estrangeiro meliante. Antes da sua viagem, Pedro protagonizou um episódio de intolerância e racismo, quando acusou sem provas que um grupo de jovens negros, que terminavam uma partida de futebol, tipo uma pelada num parque, que estes teriam roubado a bola do jogo. Pedro ficou indiferente a ação truculenta e desproporcional da polícia militar na abordagem aos acusados.

Um sujeito que teria boas condições para dar certo na vida, mas o ambiente familiar, as heranças comportamentais da ditadura, a mediocridade, fazem que ele fique mais próximo de uma desumanização, um ressentimento que alimenta sua mesquinhez e seu racismo.

O sentimento de ressentimento perpassa toda trajetória de Pedro Póvoa. Sobre este aspecto, há um livro de Maria Rita Kehl, “Ressentimento” (Boitempo, 2020). “Ressentir-se significa atribuir ao outro a responsabilidade pelo que nos faz sofrer”, adverte Maria Rita. Essa seria uma definição do personagem de “Senhor Cão”. No seu livro, Maria Rita amplia o conceito de ressentimento: “a atualidade do ressentimento enquanto tema é clínica e também política. O ressentimento é uma constelação afetiva que serve aos conflitos característicos do homem contemporâneo, entre as exigências e as configurações imaginárias próprias do individualismo e os mecanismos de defesa do eu a serviço do narcisismo”, aponta.

Numa visão psicanalítica, Kehl recupera conceitos que vêm desde Freud, que formou ou iluminou conceitos. Ela também situa o ressentimento que veio à tona no Brasil nestes últimos tempos: “o ressentimento na sociedade brasileira está enraizado em nossa dificuldade em nos reconhecermos como agentes da vida social, sujeitos da nossa história, responsáveis coletivamente pela resolução dos problemas que nos afligem”, avalia.

Conversas com o autor e alguns depoimentos

Flávio Ilha relata que começou a pensar no projeto do livro “Senhor Cão”, “mais ou menos a partir de 2018, com campanha eleitoral que levaria Jair Bolsonaro à presidência da República e quando o bolsonarismo passou a ter corpo e alma. Ou nas palavras de Flávio Ilha: “foi quando o efeito do bolsonarismo apareceu para nós”, resume o autor.

Com uma longa experiência de redações em jornais e revistas, atuando como repórter e editor, o escritor a exemplo de tantos autores sempre foi um bom leitor, cita suas influências que vêm do argentino Julio Cortázar ao sul-africano J.M. Coetzee, Prêmio Nobel de Literatura em 2003, autor do qual ele cita o livro “Desonra”.

Flávio conta que levou cerca dois anos para concluir o livro, que inicialmente teria um outro título, “Os Herdeiros”, mas que, segundo o escritor Marcelino Freire, que escreveu um comentário na contracapa, pareceria o nome de uma novela de Gilberto Braga. Então veio o nome definitivo “Senhor Cão”. Diz o texto de Marcelino Freire: “uma história de tirar o fôlego, lida em um fôlego só. Linguagem original e visceral. Escrita entre os dentes. Presa a uma corrente elétrica essa prosa, raivosa do Senhor Cão”, elogia. Na mesma contracapa, a também escritora Julia Dantas corrobora: “Flávio Ilha faz gesto corajoso e necessário de se colocar no lugar de homens que se acreditavam os do mundo, mas receberam com herança apenas o ressentimento”.

O autor volta para sua obra: “na verdade eu comecei a escrever de fato lá por 2022, com o intuito de fazer um romance mesmo”, lembra. O repórter brinca e provoca: um livro do tipo, ressentidos do mundo, uni-vos! E Flávio segue conversando sobre seu livro: “os que não oferecem nada mais do que uma vida medíocre, são bem-sucedidos, economicamente, profissionalmente, mas intelectualmente são ressentidos”. Para Ilha, essas, são pessoas que “não conseguem uma vida de prazer, não conseguem ter prazer, não conseguem sair do armário, não conseguem se relacionar bem com o mundo ao redor”. Para Flávio, este tipo ressentido não supera a sociedade brasileira, paternalista, patriarcal e patrimonialista, que se acirrou nestes últimos tempos. Tudo isso está em “Senhor Cão”, que tem tudo para se tornar um dos clássicos contemporâneos que tentam desvendar o que é o Brasil.