Em agosto de 1920, em Paris, o poeta André Breton utilizou, pela primeira vez, o termo surrealismo em um artigo. Com ele, procurava denominar as criações espontâneas produzidas pelo inconsciente na linguagem (particularmente na escritura automática). Em 1924, retomou o termo, desta vez para se referir às atividades de um grupo de jovens (Louis Aragon, Paul Éluard, Benjamin Péret, Philippe Soupault e ele próprio, entre outros) que conspiravam contra a conjuntura, impulsionavam um denominado “laboratório de pesquisas surrealistas” e objetivavam fazer uma “revolução surrealista”. No mesmo ano de 1924, foi publicado o Manifesto do movimento, assinado por André Breton. Era um grito de revolta e não conformismo, exaltava o maravilhoso e os poderes da imaginação. Era, sobretudo, um chamado a praticar a poesia e a mudar a vida. O surrealismo surgia como um estado de espírito, um modo de pensar, uma maneira de ver e de sentir, uma atitude poética, social e filosófica. Uma reação contra o statu quo, uma proposta de lutar pela libertação total do ser humano. Buscava, em definitivo, refazer o conhecimento humano.
“Isso é surrealista!”
Ouvimos frequentemente a expressão. Trata-se de um uso figurado informal que tem o sentido de caracterizar algo pejorativamente (espantoso, que causa assombro) ou positivamente (algo genial). Ambos usos fogem do emprego original da palavra “surrealismo”, mas talvez isso ocorra porque o surrealismo, de alguma forma, permaneceu vivo e pulsante. Já foi dito que foram muitos os movimentos que surgiram na Europa no século passado (apenas para citar alguns: o cubismo, o ultraísmo, o expressionismo), mas só o surrealismo é lembrado quando se quer dar ênfase a algo ou a alguma coisa. Na rua ouvimos alguém reclamando de algo surreal, nas redes, encontramos comentários referidos ao surrealismo de determinada situação, geralmente fazendo referência à loucura ou a algo insano (ou, no melhor dos casos, ao irracional ou ao desvario). Porém, para deixar claro: a loucura nunca foi meta dos surrealistas, entretanto não lhes dava medo: “Não é o temor da loucura que nos obrigará a deixar a bandeira da imaginação a meia haste”, escreveu Breton em seu famoso Manifesto. Quanto ao irracional, vários surrealistas já recomendaram evitar o uso do termo, o francês Jean Schuster, por exemplo: quando dizem que o surrealismo é contra a razão, é um erro: ele é contra a razão estreita dos racionalistas”, isto é, o racionalismo fechado, positivista, mecanicista. E Schuster completa: “Ao contrário, o surrealismo está a favor da razão que joga dialeticamente com a paixão ou com a desrazão, que sabe dar passagem a uma ou a outra”.
O certo é que os apelos do Manifesto foram ouvidos internacionalmente, e o que começou como um grito de revolta em Paris, logo estava espalhado pelo mundo por núcleos de poetas, artistas, intelectuais. O primeiro grupo surrealista fora da Europa surgiu em Buenos Aires, em 1926, ao redor do poeta Aldo Pellegrini (1903-1973), e publicou a revista Qué, em 1928, sendo esse o primeiro periódico surrealista em língua espanhola.
SURREALISMO NO BRASIL
No Brasil, foi necessário esperar até os anos 60 para que se organizasse o grupo surrealista de São Paulo e Rio de Janeiro, com os poetas Sergio Lima, Claudio Willer, Leila Ferraz e alguns outros. Porém, antes disso, uma lista significativa de nomes (como os de Prudente de Moraes, neto (sic), Elsie Houston, Oswald de Andrade, Tarsila do Amaral, Murilo Mendes, Jorge de Lima, Flavio de Carvalho, Walter Lewy, Maria Martins) foram associados ao surrealismo, de forma breve ou duradoura, à moda brasileira ou não.
Por motivo da efeméride, e com grande satisfação, lançamos na UFRGS o número 77 da revista Organon, com artigos de pesquisadores da área (disponível em https://seer.ufrgs.br/index.php/organon/issue/archive), e o ciclo de palestras “Surrealismo em todos os quadrantes”, eventos que também celebram quarenta anos de pesquisa do surrealismo na referida Universidade.
O título da revista, “O surrealismo completa 100 anos”, comemora o aniversário do Manifesto, mas, em rigor, poderíamos invocar embriões do surrealismo muito antes no tempo, inclusive, citando o poeta surrealista argentino Enrique Molina, quando evoca os primórdios da humanidade:
No planeta em que ainda estava viva a delicadeza dos dinossauros se produziu o primeiro ato surrealista quando, enfeitiçado pela sua inédita consciência do mundo, um homem, em cujo peito se aninha a chuva e o trovão, a fumaça do vulcão e a desmesura de seu desamparo primordial, grava a imagem de um bisonte na pedra de sua caverna. Um gesto provocado pelos mais profundos impulsos de seu sangue, a aceitação da morte e o resplendor do sol. Anterior à história da arte, fora de toda norma herdada, anterior a qualquer dogma ou imposições de qualquer religião.
Molina elimina as fronteiras entre o mundo interior e o exterior, exaltando a existência desse ponto único formulado por Breton onde “a vida e a morte, o real e o imaginário, o passado e o futuro, o comunicável e o incomunicável, cessam de ser percebidos como contraditórios.” Ao submeter o andar da fauna à imaginação, a humanidade “se instalou no centro da criação e reclama sua liberdade absoluta.” Essa raiz antropológica do surrealismo, sua manifestação premonitória, que “ainda não tinha nome nem estava instalada como uma constelação brilhante no céu das ideias” será a revelação desse agora centenário Manifesto.