Caderno de Sábado

O Thesouro da Juventude

Escritor Alcy Cheuiche acessa memórias de infância para tratar da enciclopédia juvenil do século XX

Enciclopédia Thesouro da Juventude com 18 volumes abriu portas da cultura universal para jovens dos Brasil nos anos 1950, 1960 e 1970
Enciclopédia Thesouro da Juventude com 18 volumes abriu portas da cultura universal para jovens dos Brasil nos anos 1950, 1960 e 1970 Foto : CP Memória

De férias em Brasília, na casa de minha irmã Laís, encontro um thesouro da nossa infância e juventude. Sim, um tesouro com th que, juntamente com as histórias contadas por nosso pai e os livros de Monteiro Lobato, abriu-nos as portas para a cultura universal.

Herança da casa paterna e materna, em Alegrete, aqui estão seus dezoito volumes encadernados, que tanto consultamos quando nem televisão havia por aqueles pagos.

Pegar e abrir o primeiro volume é como abraçar um velho amigo. Quase sem querer, minha mão direita acaricia a página de abertura, onde estão identificadas as seções em que se divide a obra: A Terra, A Natureza, A Nossa Vida, O Novo Mundo, O Velho Mundo, Cousas que devemos saber, Homens e Mulheres célebres, Os Contos, As Bellas Acções, Livros Famosos, Os Porquês, Cousas que podemos fazer, Poesia, Lições attrahentes.

Sinto saudade da minha irmã Lília, a que mais consultava esta enciclopédia juvenil, e veio a ser uma arqueóloga famosa. Foi ela, dois anos mais velha do que eu, quem me explicou a razão desta corujinha pousada sobre um grosso volume, ao pé da página: É o símbolo de Palas Athena, a Deusa da Sabedoria. E logo me lembrei dos livros O Minotauro e Os Doze Trabalhos de Hércules, do nosso mestre da infância, lidos em voz alta pela Laís, a maninha mais velha.

Apenas um parêntese. Agora andam inventando que Monteiro Lobato era racista e que teria nos influenciado negativamente na infância. No meu caso, ainda hoje, sou um apaixonado pela Tia Nastácia, e fui várias vezes com os picapauzinhos à Grécia Antiga para resgatá-la do labirinto de Creta.

Mas, voltemos a este outro Thesouro da Juventude, que tanto bem me fez quando menino. E vou direto à página 196, na seção Homens e Mulheres Célebres:

“Como Guilherme Tell trespassou com uma seta a maçã sobre a cabeça de seu filho

Não há povos que mais amem a liberdade do que os que vivem nas montanhas ou à beira-mar. Há duas nações na Europa que estiveram sob o jugo do oppressor estrangeiro, e ambas tiveram chefes valorosos que as levaram à conquista da liberdade. Uma é nação de montanheses; a outra, de gente do mar.

A primeira d’ellas é a Suissa, que esteve em tempos sujeita ao archiduque da Austria, que foi também imperador. A Suissa é dividida em districtos chamados cantões, e uma autoridade nomeada pelo archiduque costumava governal-os despoticamente.

Conta a tradição que havia um hábil frecheiro chamado Guilherme Tell, que não queria obedecer a uma ordem que mandava que todos se descobrissem perante o chapéu do archiduque, que era uma espécie de coroa.

Pegaram portanto em Tell, assim como no seu filhinho, e puzeram uma maçã sobre a cabeça d’este, dizendo a Tell que atirasse uma seta à maçã, o que ele fez, atravessando-a. Salvo o filho, trespassou também o delegado do archiduque com outra seta, iniciando a libertação de seu paíz”.

Na página ao lado, uma belíssima imagem de Joana D’Arc, que já conhecíamos pelo famoso livro infantojuvenil de Erico Verissimo e por narrativas do nosso pai.

Agora, recuo até a página 68, com cuidado para não despencar algumas das velhas folhas, em busca do Livro dos Porquês, destinado a equilibrar os ensinamentos históricos e artísticos, com informações científicas essenciais:

“Como é que a lua origina as marés

Suponhamos que a lua não girasse à roda da terra, mas que tão somente a acompanhasse no seu movimento atravez dos espaços. Neste caso, a lua appareceria e desappareceria diariamente, mas sempre às mesmas horas. E, d’este modo, haveria marés diárias em todas partes do mundo, como realmente acontece, mas sempre à mesma hora. A diferença entre isto e o que de facto se passa é que a lua move-se à roda da terra emquanto essa gira sobre o seu próprio eixo. Isto faz com que a lua appareça e desappareça, em cada logar da terra, meia hora mais tarde, aproximadamente, em cada dia, e está provado que as marés experimentam um atrazo semelhante. A lua e a água do mar são substâncias materiaes, e é sabido que a matéria atrae a matéria. Este fenômeno recebeu o nome de gravitação universal”.

Fecho o volume de trezentas e cinquenta páginas e o coloco novamente na estante. Onde é certo que voltará a dormir sem ser despertado junto com seus dezessete irmãos. Um conjunto impressionante de mais de seis mil páginas, que serviu, pelo menos, a quatro gerações. Não só de brasileiros, mas de jovens de muitos países, em traduções do seu original em inglês, editado nos Estados Unidos.

Com o Google e tantos outros recursos eletrônicos à disposição dos jovens de 2026, certamente o Thesouro da Juventude é hoje uma peça de museu. Mas vale a pena visitá-lo novamente, como acabo de fazer.

Não só para matar a saudade, mas para dizer-lhe muito obrigado em nome do menino que um dia fui.