De férias em Brasília, na casa de minha irmã Laís, encontro um thesouro da nossa infância e juventude. Sim, um tesouro com th que, juntamente com as histórias contadas por nosso pai e os livros de Monteiro Lobato, abriu-nos as portas para a cultura universal.
Herança da casa paterna e materna, em Alegrete, aqui estão seus dezoito volumes encadernados, que tanto consultamos quando nem televisão havia por aqueles pagos.
Pegar e abrir o primeiro volume é como abraçar um velho amigo. Quase sem querer, minha mão direita acaricia a página de abertura, onde estão identificadas as seções em que se divide a obra: A Terra, A Natureza, A Nossa Vida, O Novo Mundo, O Velho Mundo, Cousas que devemos saber, Homens e Mulheres célebres, Os Contos, As Bellas Acções, Livros Famosos, Os Porquês, Cousas que podemos fazer, Poesia, Lições attrahentes.
Sinto saudade da minha irmã Lília, a que mais consultava esta enciclopédia juvenil, e veio a ser uma arqueóloga famosa. Foi ela, dois anos mais velha do que eu, quem me explicou a razão desta corujinha pousada sobre um grosso volume, ao pé da página: É o símbolo de Palas Athena, a Deusa da Sabedoria. E logo me lembrei dos livros O Minotauro e Os Doze Trabalhos de Hércules, do nosso mestre da infância, lidos em voz alta pela Laís, a maninha mais velha.
Apenas um parêntese. Agora andam inventando que Monteiro Lobato era racista e que teria nos influenciado negativamente na infância. No meu caso, ainda hoje, sou um apaixonado pela Tia Nastácia, e fui várias vezes com os picapauzinhos à Grécia Antiga para resgatá-la do labirinto de Creta.
Mas, voltemos a este outro Thesouro da Juventude, que tanto bem me fez quando menino. E vou direto à página 196, na seção Homens e Mulheres Célebres:
“Como Guilherme Tell trespassou com uma seta a maçã sobre a cabeça de seu filho
Não há povos que mais amem a liberdade do que os que vivem nas montanhas ou à beira-mar. Há duas nações na Europa que estiveram sob o jugo do oppressor estrangeiro, e ambas tiveram chefes valorosos que as levaram à conquista da liberdade. Uma é nação de montanheses; a outra, de gente do mar.
A primeira d’ellas é a Suissa, que esteve em tempos sujeita ao archiduque da Austria, que foi também imperador. A Suissa é dividida em districtos chamados cantões, e uma autoridade nomeada pelo archiduque costumava governal-os despoticamente.
Conta a tradição que havia um hábil frecheiro chamado Guilherme Tell, que não queria obedecer a uma ordem que mandava que todos se descobrissem perante o chapéu do archiduque, que era uma espécie de coroa.
Pegaram portanto em Tell, assim como no seu filhinho, e puzeram uma maçã sobre a cabeça d’este, dizendo a Tell que atirasse uma seta à maçã, o que ele fez, atravessando-a. Salvo o filho, trespassou também o delegado do archiduque com outra seta, iniciando a libertação de seu paíz”.
Na página ao lado, uma belíssima imagem de Joana D’Arc, que já conhecíamos pelo famoso livro infantojuvenil de Erico Verissimo e por narrativas do nosso pai.
Agora, recuo até a página 68, com cuidado para não despencar algumas das velhas folhas, em busca do Livro dos Porquês, destinado a equilibrar os ensinamentos históricos e artísticos, com informações científicas essenciais:
“Como é que a lua origina as marés
Suponhamos que a lua não girasse à roda da terra, mas que tão somente a acompanhasse no seu movimento atravez dos espaços. Neste caso, a lua appareceria e desappareceria diariamente, mas sempre às mesmas horas. E, d’este modo, haveria marés diárias em todas partes do mundo, como realmente acontece, mas sempre à mesma hora. A diferença entre isto e o que de facto se passa é que a lua move-se à roda da terra emquanto essa gira sobre o seu próprio eixo. Isto faz com que a lua appareça e desappareça, em cada logar da terra, meia hora mais tarde, aproximadamente, em cada dia, e está provado que as marés experimentam um atrazo semelhante. A lua e a água do mar são substâncias materiaes, e é sabido que a matéria atrae a matéria. Este fenômeno recebeu o nome de gravitação universal”.
Fecho o volume de trezentas e cinquenta páginas e o coloco novamente na estante. Onde é certo que voltará a dormir sem ser despertado junto com seus dezessete irmãos. Um conjunto impressionante de mais de seis mil páginas, que serviu, pelo menos, a quatro gerações. Não só de brasileiros, mas de jovens de muitos países, em traduções do seu original em inglês, editado nos Estados Unidos.
Com o Google e tantos outros recursos eletrônicos à disposição dos jovens de 2026, certamente o Thesouro da Juventude é hoje uma peça de museu. Mas vale a pena visitá-lo novamente, como acabo de fazer.
Não só para matar a saudade, mas para dizer-lhe muito obrigado em nome do menino que um dia fui.