A culpa, o desejo, o tempo. Guerras eternas que não podem ser vencidas, quando se luta, dia após dia, somente para não se perder. O texto na contracapa do livro sem dúvida nos dá um norte para a leitura. Mas não nos enganemos: é apenas o começo. Há romances que se deixam comentar somente por enredo e personagens; outros, entretanto, parecem suscitar uma constelação de referências, como se fossem um ponto de encontro e diálogo com obras consagradas que os precederam. É o caso de “Outras guerras”, de Leonardo Brasiliense (Companhia das Letras).
À primeira vista, a premissa é simples: três marinheiros, Agostinho, Ariel e Skawinski, trabalhando isolados em um farol no extremo sul do Brasil e se dedicando, entre outras coisas, à tarefa incessante de remover a areia que o vento acumula ao redor das instalações. Mas essa aparente simplicidade esconde uma ambição maior: o romance pertence àquela rara categoria de obras em que a paisagem deixa de ser cenário para assumir uma condição mais carregada de significado. A literatura conhece bem esses lugares. São espaços que submetem o homem a uma experiência limite: a ilha, o deserto, a montanha, a floresta, o mar.
Talvez seja possível compreender “Outras guerras” a partir de três linhagens literárias distintas: Joseph Conrad, Jorge Luis Borges e Thomas Mann. Cada um deles parece oferecer uma chave particular para a leitura do romance: Conrad, a investigação moral; Borges, a arquitetura metafísica; Thomas Mann, a experiência transformadora do isolamento.
A aproximação com Joseph Conrad é, em muitos aspectos, a mais imediata. Em O coração das trevas, a viagem pelo rio Congo constitui menos um deslocamento geográfico do que uma lenta descida ao interior da consciência humana. À medida que Marlow avança em direção a Kurtz, a selva vai despojando os homens das convenções que sustentam a civilização. Ao final, resta apenas a confrontação com aquilo que Conrad chamou, de maneira definitiva, de “o horror”. Em “Outras guerras”, a operação é semelhante, mas realizada por meios inversos. Conrad trabalha pela acumulação: a umidade, o calor, a vegetação excessiva, os sons da floresta. Brasiliense opta pelo despojamento. Onde Conrad oferece a exuberância da selva, ele oferece a monotonia da areia. Onde um apresenta a escuridão da mata, o outro apresenta a claridade quase absoluta de uma praia sem fim.
A correspondência, contudo, permanece. Em ambos os casos, a natureza opera como uma força reveladora. Não se trata de um pano de fundo, mas de um mecanismo destinado a remover, camada após camada, aquilo que os personagens imaginavam ser. O isolamento deixa de ser circunstância e converte-se em método. Conrad talvez perguntasse:
“Quem é um homem quando já não lhe resta ninguém para observá-lo?”
Outras guerras parece formular a mesma indagação. Mas há algo no romance que escapa ao universo conradiano. O farol não é apenas um objeto funcional; ele pertence àquela classe de espaços que Jorge Luis Borges tanto apreciava. Em Borges, os lugares raramente são apenas lugares. “A Biblioteca de Babel”, “O Aleph”, “A Casa de Astérion” e “O Jardim dos Caminhos que se Bifurcam” funcionam como máquinas metafísicas, dispositivos destinados a produzir perguntas sobre o tempo, a identidade e o infinito.
O farol de “Outras guerras” parece compartilhar dessa natureza ambígua. Ele existe simultaneamente em dois planos: é uma construção erguida para orientar navegantes, mas também um centro gravitacional em torno do qual as vidas dos personagens passam a se organizar. Como os espaços borgianos, ele parece conter mais significados do que sua materialidade comporta. Essa dimensão torna-se ainda mais evidente na estrutura temporal do romance. Organizada em torno dos dias presentes dos personagens e dos dias de suas vidas passadas, a narrativa recusa a linearidade. O tempo deixa de avançar em linha reta e passa a funcionar como uma espécie de topografia da memória. Borges desconfiava do tempo cronológico. Em seus contos, o passado frequentemente invade o presente, o infinito se esconde no cotidiano e a identidade se revela uma construção precária. Não é difícil imaginar que ele apreciaria a ideia de personagens que carregam consigo milhares de dias invisíveis, cada um deles preservado sob as sucessivas camadas da memória. Nesse sentido, a areia assume uma função particular interessante. Ela é, simultaneamente, matéria e metáfora. Acumula-se ao redor do farol como o tempo se acumula sobre os homens. Cada pá de areia removida parece corresponder a uma tentativa de impedir que o passado os sepulte. Há algo de borgiano nessa imagem: a percepção de que a luta contra o tempo talvez seja a única guerra verdadeiramente universal.
Contudo, se Conrad fornece a dimensão moral do romance e Borges sua arquitetura metafísica, é Thomas Mann quem oferece a chave para compreender seu efeito sobre os personagens. Em “A montanha mágica”, Hans Castorp sobe a um sanatório suíço para uma breve visita e acaba permanecendo por anos. Pouco a pouco, o isolamento altera sua percepção do mundo. O tempo dilata-se, as conversas adquirem um peso desproporcional, e a própria experiência da vida assume contornos diferentes. O que Thomas Mann compreendeu como poucos é que o isolamento constitui uma tecnologia de transformação. Separado do mundo, o homem torna-se obrigado a conviver consigo mesmo.
Em “Outras guerras”, o farol desempenha uma função análoga à do sanatório. Ambos são espaços liminares, situados entre dois estados de existência. Neles, as personagens deixam de ser definidas por suas ocupações ou biografias e passam a ser definidas por aquilo que recordam. Também aqui a repetição desempenha um papel decisivo: Hans Castorp vive segundo os horários rígidos do sanatório; os homens de “Outras guerras” removem areia. Em ambos os casos, a rotina deixa de ser um mero conjunto de tarefas e adquire um caráter quase ritual. A repetição transforma-se em conhecimento. É significativo que, tanto em Mann quanto em Brasiliense, a pergunta central nunca seja “o que aconteceu?”, mas “o que aconteceu com estas pessoas?”.
O acontecimento exterior importa menos do que a lenta reorganização interior que ele produz. Cada passo dele é teimosia e luta. Usa botas de borracha cano longo, pesa mil homens, e se arrasta. O céu e o inferno não o querem ali, a natureza não o quer ali. Há ainda um elemento comum aos três autores: a relação entre o homem e uma força que o excede. Em Conrad, essa força é a escuridão moral; em Borges, é o infinito; em Thomas Mann, o tempo. Em “Outras guerras”, ela assume a forma da natureza. Entretanto, a natureza do romance não é propriamente natural. A areia comporta-se como um símbolo. Ela não ameaça apenas soterrar um farol; ameaça apagar memórias, identidades e histórias pessoais.
Como acontece nas grandes narrativas simbólicas, o conflito físico e o conflito espiritual tornam-se inseparáveis. E todos esses autores, incluindo Brasiliense, compreenderam uma verdade fundamental: há batalhas que não existem para serem vencidas, mas para definir aqueles que as enfrentam.