Caderno de Sábado

O vento e a areia desde sempre

Escritor Luiz Antonio Assis Brasil aborda livro “Outras guerras”, de Leonardo Brasiliense, obra, segundo ele, construída no diálogo perene da cultura

Leonardo Brasiliense lança livro
Leonardo Brasiliense lança livro Foto : Marcelo Brum / Divulgação / CP

A culpa, o desejo, o tempo. Guerras eternas que não podem ser vencidas, quando se luta, dia após dia, somente para não se perder. O texto na contracapa do livro sem dúvida nos dá um norte para a leitura. Mas não nos enganemos: é apenas o começo. Há romances que se deixam comentar somente por enredo e personagens; outros, entretanto, parecem suscitar uma constelação de referências, como se fossem um ponto de encontro e diálogo com obras consagradas que os precederam. É o caso de “Outras guerras”, de Leonardo Brasiliense (Companhia das Letras).

À primeira vista, a premissa é simples: três marinheiros, Agostinho, Ariel e Skawinski, trabalhando isolados em um farol no extremo sul do Brasil e se dedicando, entre outras coisas, à tarefa incessante de remover a areia que o vento acumula ao redor das instalações. Mas essa aparente simplicidade esconde uma ambição maior: o romance pertence àquela rara categoria de obras em que a paisagem deixa de ser cenário para assumir uma condição mais carregada de significado. A literatura conhece bem esses lugares. São espaços que submetem o homem a uma experiência limite: a ilha, o deserto, a montanha, a floresta, o mar.

Talvez seja possível compreender “Outras guerras” a partir de três linhagens literárias distintas: Joseph Conrad, Jorge Luis Borges e Thomas Mann. Cada um deles parece oferecer uma chave particular para a leitura do romance: Conrad, a investigação moral; Borges, a arquitetura metafísica; Thomas Mann, a experiência transformadora do isolamento.

A aproximação com Joseph Conrad é, em muitos aspectos, a mais imediata. Em O coração das trevas, a viagem pelo rio Congo constitui menos um deslocamento geográfico do que uma lenta descida ao interior da consciência humana. À medida que Marlow avança em direção a Kurtz, a selva vai despojando os homens das convenções que sustentam a civilização. Ao final, resta apenas a confrontação com aquilo que Conrad chamou, de maneira definitiva, de “o horror”. Em “Outras guerras”, a operação é semelhante, mas realizada por meios inversos. Conrad trabalha pela acumulação: a umidade, o calor, a vegetação excessiva, os sons da floresta. Brasiliense opta pelo despojamento. Onde Conrad oferece a exuberância da selva, ele oferece a monotonia da areia. Onde um apresenta a escuridão da mata, o outro apresenta a claridade quase absoluta de uma praia sem fim.

A correspondência, contudo, permanece. Em ambos os casos, a natureza opera como uma força reveladora. Não se trata de um pano de fundo, mas de um mecanismo destinado a remover, camada após camada, aquilo que os personagens imaginavam ser. O isolamento deixa de ser circunstância e converte-se em método. Conrad talvez perguntasse:

“Quem é um homem quando já não lhe resta ninguém para observá-lo?”

Outras guerras parece formular a mesma indagação. Mas há algo no romance que escapa ao universo conradiano. O farol não é apenas um objeto funcional; ele pertence àquela classe de espaços que Jorge Luis Borges tanto apreciava. Em Borges, os lugares raramente são apenas lugares. “A Biblioteca de Babel”, “O Aleph”, “A Casa de Astérion” e “O Jardim dos Caminhos que se Bifurcam” funcionam como máquinas metafísicas, dispositivos destinados a produzir perguntas sobre o tempo, a identidade e o infinito.

O farol de “Outras guerras” parece compartilhar dessa natureza ambígua. Ele existe simultaneamente em dois planos: é uma construção erguida para orientar navegantes, mas também um centro gravitacional em torno do qual as vidas dos personagens passam a se organizar. Como os espaços borgianos, ele parece conter mais significados do que sua materialidade comporta. Essa dimensão torna-se ainda mais evidente na estrutura temporal do romance. Organizada em torno dos dias presentes dos personagens e dos dias de suas vidas passadas, a narrativa recusa a linearidade. O tempo deixa de avançar em linha reta e passa a funcionar como uma espécie de topografia da memória. Borges desconfiava do tempo cronológico. Em seus contos, o passado frequentemente invade o presente, o infinito se esconde no cotidiano e a identidade se revela uma construção precária. Não é difícil imaginar que ele apreciaria a ideia de personagens que carregam consigo milhares de dias invisíveis, cada um deles preservado sob as sucessivas camadas da memória. Nesse sentido, a areia assume uma função particular interessante. Ela é, simultaneamente, matéria e metáfora. Acumula-se ao redor do farol como o tempo se acumula sobre os homens. Cada pá de areia removida parece corresponder a uma tentativa de impedir que o passado os sepulte. Há algo de borgiano nessa imagem: a percepção de que a luta contra o tempo talvez seja a única guerra verdadeiramente universal.

Contudo, se Conrad fornece a dimensão moral do romance e Borges sua arquitetura metafísica, é Thomas Mann quem oferece a chave para compreender seu efeito sobre os personagens. Em “A montanha mágica”, Hans Castorp sobe a um sanatório suíço para uma breve visita e acaba permanecendo por anos. Pouco a pouco, o isolamento altera sua percepção do mundo. O tempo dilata-se, as conversas adquirem um peso desproporcional, e a própria experiência da vida assume contornos diferentes. O que Thomas Mann compreendeu como poucos é que o isolamento constitui uma tecnologia de transformação. Separado do mundo, o homem torna-se obrigado a conviver consigo mesmo.

Em “Outras guerras”, o farol desempenha uma função análoga à do sanatório. Ambos são espaços liminares, situados entre dois estados de existência. Neles, as personagens deixam de ser definidas por suas ocupações ou biografias e passam a ser definidas por aquilo que recordam. Também aqui a repetição desempenha um papel decisivo: Hans Castorp vive segundo os horários rígidos do sanatório; os homens de “Outras guerras” removem areia. Em ambos os casos, a rotina deixa de ser um mero conjunto de tarefas e adquire um caráter quase ritual. A repetição transforma-se em conhecimento. É significativo que, tanto em Mann quanto em Brasiliense, a pergunta central nunca seja “o que aconteceu?”, mas “o que aconteceu com estas pessoas?”.

O acontecimento exterior importa menos do que a lenta reorganização interior que ele produz. Cada passo dele é teimosia e luta. Usa botas de borracha cano longo, pesa mil homens, e se arrasta. O céu e o inferno não o querem ali, a natureza não o quer ali. Há ainda um elemento comum aos três autores: a relação entre o homem e uma força que o excede. Em Conrad, essa força é a escuridão moral; em Borges, é o infinito; em Thomas Mann, o tempo. Em “Outras guerras”, ela assume a forma da natureza. Entretanto, a natureza do romance não é propriamente natural. A areia comporta-se como um símbolo. Ela não ameaça apenas soterrar um farol; ameaça apagar memórias, identidades e histórias pessoais.

Como acontece nas grandes narrativas simbólicas, o conflito físico e o conflito espiritual tornam-se inseparáveis. E todos esses autores, incluindo Brasiliense, compreenderam uma verdade fundamental: há batalhas que não existem para serem vencidas, mas para definir aqueles que as enfrentam.