A Casa de Cultura Mario Quintana (CCMQ) — instituição da Secretaria da Cultura (Sedac) —, famosa “casa rosa da Andradas” e antigo Majestic Hotel, acaba de completar 35 anos. E para marcar este momento, apresentamos o slogan “Viva a casa de todas as culturas” - frase que resume o significado da CCMQ para seus visitantes. Para além de um edifício histórico e um ponto turístico, a Casa se consolidou, ao longo das décadas, como um verdadeiro coração pulsante da cultura no Estado. 14 vezes campeã do prêmio “Top of Mind”, do Grupo Amanhã, na categoria “Centro Cultural mais lembrado pela população gaúcha”, as palavras mais mencionadas pelas pessoas ao se referirem à instituição, segundo uma pesquisa que fizemos no fim de 2024, são felicidade, alegria, conhecimento, arte e muitos outros termos positivos.
Inspirada em referências nacionais e internacionais de centros culturais multifuncionais, a CCMQ nasceu com a ambição de ser um espaço plural e dinâmico, capaz de acolher múltiplas linguagens artísticas e de promover interações que vão além da fruição de espetáculos. Desde que a Casa se transformou em um centro cultural, os arquitetos Joel Gorski e Flávio Kiefer buscaram criar um lugar que fosse, em si, uma experiência — onde o espaço físico e o projeto cultural se complementam, permitindo que os visitantes participem ativamente da vida artística, seja como público, seja como agente de produção. Tanto é assim que hoje a Casa conta com uma parede que se tornou um painel que dá voz a seus visitantes, buscando suscitar diálogo com seus públicos por meio de post its que colorem o quinto andar da instituição.
Ao longo das últimas três décadas e meia, aliás, a CCMQ se firmou como um espaço múltiplo. Atualmente, não apenas abriga institutos de artes e economia criativa do Estado, mas mantém viva a ideia de “uma casa dentro da casa”, proporcionando diálogo constante entre diferentes expressões culturais. Institutos de Música, Cinema, Artes Cênicas e Artes Visuais, e diversos acervos históricos coexistem, muitas vezes promovendo atividades, em sua maioria gratuitas, que abraçam mais de um centro. Nessas comunhões, surgem diversas formações e atravessamentos em torno de temáticas como a relação entre espécies, ecossistemas, sustentabilidade, tecnologia e tantas outras que buscam na arte fomentar debates contemporâneos e reflexões para um futuro próximo.
Nas conversas que tive com Germana Konrath, ex-diretora da Casa de Cultura Mario Quintana, antes de assumir a gestão, percebi imediatamente que compartilhamos uma visão muito semelhante sobre a missão da instituição. Ela sempre dizia que a Casa não é apenas um espaço de preservação histórica ou de entretenimento. Para nós, a CCMQ é um ponto de transformação social e cultural, onde diferentes gerações, raças, gêneros e perfis se encontram e aprendem uns com os outros, partindo de pesquisas e produções artísticas. Germana gostava de afirmar que “a Casa já nasce com essa multiplicidade em seu DNA”, e não poderia estar mais de acordo com ela.
O cerne da Casa de Cultura se manifesta também na forma como ela integra espaços comerciais à programação cultural, mantendo a singularidade de cada iniciativa e respeitando a vocação artística de cada projeto. Restaurantes, cafés e livrarias são elementos que dialogam com a literatura, a música e as artes visuais. Ao ser morada para ciclos de cinema, exposições interdisciplinares e festivais, a instituição reforça seu caráter integrador, recebendo projetos externos, atendendo demandas da sociedade e da comunidade artística.
A CCMQ é referência no resgate e preservação de memória viva. Além do acervo de nosso poeta patrono, Mario Quintana, outras coleções como o acervo de Elis Regina, do Museu de Arte Contemporânea (MAC RS), da Discoteca Natho Henn e das bibliotecas são continuamente atualizadas, com curadorias e programas de formação.
A efervescência da Casa se reflete, ainda, nas reformas e melhorias de seus espaços físicos, que garantem tanto a preservação histórica quanto a adaptação às novas demandas culturais, tecnológicas e de resiliência climática. A ampliação da Biblioteca Erico Verissimo, o restauro completo do Teatro Bruno Kiefer, a futura criação do Terraço Petrobras com jardim sensorial e o próprio entendimento do Jardim Lutzenberger como mais um espaço de memória viva e em constante cultivo e renovação apontam nessa direção. Cada intervenção busca potencializar patrimônios já existentes e criar novas possibilidades.
Diante de desafios realmente árduos, como a enchente que atingiu o Rio Grande do Sul em maio de 2024, resultando em mais de 1,5 metro de água no pavimento térreo da Casa, foi necessário encontrar resiliência, força coletiva e capacidade de reinvenção. Depois de 101 dias, reabrimos as portas da instituição, movimento que só foi possível pelos esforços de todos os colaboradores da CCMQ e da Sedac, e graças à doação de mais de 2,5 milhões do Banrisul, nosso patrocinador e parceiro desde antes da inauguração da Casa.
O resultado de toda essa rede apoio que se fortaleceu após a enchente foi que, embora o espaço tenha permanecido fechado por cerca de três meses, recebemos, ao longo de 2024, mais de 250 mil visitantes, chegando a recordes de visitação em novembro, com a circulação de mais de 55 mil pessoas.
Assumir a direção da CCMQ neste contexto, com uma equipe tão engajada, competente e apaixonada pelo que faz, e celebrar esse aniversário de 35 anos com uma programação tão linda e diversa, me deixa muito realizada. Na instituição, iniciei a minha trajetória em 2022, como diretora do Instituto Estadual de Música (IEM). Agora, três anos depois, me sinto honrada por estar a frente dessa Casa que tanto admiro e respeito.
Há cerca de um mês, firmamos o patrocínio com a Petrobras, por meio do Programa Petrobras Cultural, garantindo recurso de R$ 3,2 milhões via lei de incentivo federal, a serem distribuídos entre agosto de 2025 e julho de 2027. Esse valor, somado aos demais patrocínios como da Hyundai, Paraflu e Lojas Renner, viabilizados pela Lei Rouanet, via Ministério da Cultura (MinC), garante a continuidade das atividades da Casa de Cultura pelos próximos dois anos. Seguimos em captação, é claro, sempre buscando qualificar e ampliar nossa grade de atividades e ações. Encontrar patrocinadores, sobretudo, parcerias mais duradouras, é um desafio constante que entendo ser uma das minhas atribuições na direção da CCMQ, visando complementar os recursos de manutenção que o Estado aporta regularmente e que também foram ampliados após a enchente.
Neste cenário pujante, temos previstas uma série de atividades. E, embora já tenhamos projetos consolidados que serão continuados, como o “Samba do Quintana”, o “Som da Casa” e o “Curta no Jardim”, mais possibilidades certamente surgirão. Em um futuro mais próximo, posso destacar os encontros que integram a programação de 35 anos. Entre eles, cito a apresentação do grupo Imperadores do Samba, neste domingo (28/9), que marca a nossa grande festa. Atual campeã do Carnaval de Porto Alegre, esperamos que a Imperadores encha nossa Travessa com boa Música Popular Brasileira e com todos aqueles que se sentem em casa na casa de todas as culturas.
Ainda este ano, a Ocupação Literária — projeto que visa fomentar a produção no Estado — promoverá uma série de oficinas gratuitas e abertas ao público. As atividades fazem parte da proposta de criação de um espaço de formação, troca e diálogo entre autoras(es), fortalecendo a cadeia produtiva do livro e ampliando o acesso à literatura contemporânea. Para todos que gostam de escrita e de literatura, fica o meu convite.
No mais, teremos a tradicional Festa de Dia das Crianças, a 3ª edição da Semana do Horror, os festivais Cinema Negro em Ação, FRAPA e Porto Verão Alegre, além de muitas feiras na Travessa. Já para o ano que vem, nossa agenda prevê a realização dos projetos que estão agora com inscrições abertas via editais, como a ocupação do Espaço Vitrine CCMQ + RS Criativo, e as exposições artísticas que devem ocupar nossos espaços expositivos, como o Marilene Bertoncheli. E claro, a cereja do bolo serão as ações alusivas aos 120 anos de nascimento do nosso poeta patrono, Mario Quintana.
Por fim, só posso desejar que esse aniversário seja, sim, uma marca no tempo, mas também um ponto de renovação. Que os valores que sustentam a CCMQ — pluralidade, memória, criação e encontro — sigam vivos nos próximos capítulos de sua história. E que venham muitos outros anos fazendo jus ao que já se tornou mais que um lema: sendo, de fato, a Casa de Todas as Culturas.