Caderno de Sábado

Os anos que transformaram a política gaúcha

Escritora e especialista em Economia da Cultura, Ana Helena Rilho, ressalta em artigo a obra “O Alvorecer da Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul e a Revolução Farroupilha”, de Alcy Cheuiche, com ilustrações de Gilmar Fraga, que terá lançamento no dia 8

Livro “O Alvorecer da Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul e a Revolução Farroupilha”, alusivo aos 190 anos da Assembleia, é escrito por Alcy Cheuiche e tem ilustrações de Gilmar Fraga
Livro “O Alvorecer da Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul e a Revolução Farroupilha”, alusivo aos 190 anos da Assembleia, é escrito por Alcy Cheuiche e tem ilustrações de Gilmar Fraga Foto : Gilmar Fraga / Reprodução / CP

Com o título de “O Alvorecer da Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul e a Revolução Farroupilha”, o escritor Alcy Cheuiche está lançando no dia 8 de julho uma obra de grande importância para melhor entendimento das causas que levaram a criação da República Rio-Grandense.

O Brasil é uma República Federativa porque esse foi um desejo primordial do povo brasileiro. Antes de nossa independência e durante o império, muitos movimentos republicanos eclodiram de norte a sul do País. E o mais importante deles, que durou quase dez anos, foi a Revolução Farroupilha.

Esse livro, inédito na literatura brasileira, narra a luta de personagens históricas lideradas por Bento Gonçalves para a instalação da Assembleia Legislativa Provincial do Rio Grande do Sul, única maneira de limitar o poder absoluto do então Presidente da Província, que liderava um movimento para que o Brasil retornasse a ser colônia de Portugal.

No extremo sul do Brasil, os patriotas estavam divididos em dois grupos inimigos: os farroupilhas, que defendiam o povo como um todo, incluindo os esfarrapados, e os caramurus, que cuidavam de seus próprios interesses políticos e econômicos.

No dia 20 de abril de 1835 tomaram posse vinte e oito deputados eleitos para nossa primeira legislatura, entre eles figuras históricas que vieram a liderar a Revolução Farroupilha, como o Coronel Bento Gonçalves, o Padre Chagas e o industrial Domingos José de Almeida. Bloqueados todos seus projetos pelos deputados caramurus, os deputados farroupilhas partiram para a força das armas, iniciando o movimento libertário exatamente cinco meses depois, no dia 20 de setembro de 1835.

Escrito pelo consagrado escritor Alcy Cheuiche e ilustrado por Gilmar Fraga, artista plástico de grande talento, este livro está sendo lançado nas comemorações dos cento e noventa anos da Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul, destacando personagens e ações que provam a importância dessa instituição desde seu alvorecer histórico.

Em seu prefácio, o deputado Pepe Vargas, Presidente da Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul, salienta:

“A obra de Alcy Cheuiche, ambientada entre 1832 e 1835, desvenda, em oito capítulos bem construídos, os bastidores da luta para instalar a Assembleia Legislativa no Rio Grande do Sul. Percorrendo cenários que vão do Rio de Janeiro, Porto Alegre e Viamão, o autor nos transporta para um período crucial que antecedeu em quase três anos e meio o início da Revolução Farroupilha contra o Império brasileiro.

Este romance histórico revela com riqueza de detalhes a trajetória dos primeiros deputados rio-grandenses, desde sua posse até o exercício de seus mandatos. Acompanhamos as articulações políticas de Bento Gonçalves e os embates entre lideranças que posteriormente se tornariam farroupilhas e os representantes do poder imperial na província.

Os debates entre caramurus e farroupilhas, antes e durante o funcionamento da Assembleia, pavimentaram o caminho para o conflito que se estenderia por uma década no território sulino. Com habilidade narrativa, Cheuiche reconstrói os episódios fundamentais das disputas políticas que agitavam o Rio Grande do Sul na primeira metade do século XIX.

No primeiro capítulo, acompanhamos Bento Gonçalves em sua audiência com o ministro Feijó, apresentando um pedido para substituir Mariani, presidente provincial que se recusava a aceitar a criação da Assembleia, mesmo quando instituições semelhantes ganhavam adeptos por todo o Brasil. Na ocasião, Feijó assegura que tanto Bento quanto João Manuel, militar que o acompanhava à Corte, seriam reintegrados aos comandos dos quais haviam sido afastados. Já no segundo capítulo, vemos a substituição de Mariani, embora a Assembleia permanecesse sem instalação.

O terceiro capítulo detalha a promulgação da Lei n° 16, de 12 de agosto de 1834, que estabeleceu o funcionamento das Assembleias Provinciais. No quarto, testemunhamos o dia da eleição e posse dos deputados na igreja Matriz, com a vitória de doze liberais e dezesseis conservadores. O quinto capítulo retrata a primeira sessão na Casa da Junta, marcada pela eleição da presidência legislativa e pelo confronto entre Fernandes Braga, presidente provincial e deputado empossado, e Bento Gonçalves, episódio que inflamou antagonismos tanto no parlamento quanto nas ruas.

No sexto capítulo, destaca-se o contundente discurso de um parlamentar liberal contra a escravidão e a tributação sobre o charque. A província continuava carente de Poder Judiciário e de infraestrutura básica. O recesso parlamentar fragilizou o Legislativo frente ao Executivo. Com o fechamento da Assembleia, deputados e líderes farroupilhas decidiram derrubar o presidente provincial Fernandes Braga. O sétimo capítulo narra a reunião conspiratória que resultou na decisão de tomar Porto Alegre e destituir os caramurus.

O capítulo final descreve a invasão da capital em 20 de setembro. Fernandes Braga fugiu para Rio Grande enquanto o 8° Batalhão de Caçadores desertava para apoiar as tropas farroupilhas, facilitando a tomada da cidade. O presidente da Assembleia assumiu o governo provincial e Bento Gonçalves proclamou um manifesto, inaugurando o conflito que perduraria por dez anos.

Neste belo livro, Alcy Cheuiche nos conduz, com prosa romanceada e perspicaz, pelos intensos três anos que transformaram a política gaúcha. Somos testemunhas da instalação da Assembleia, seu posterior fechamento por um presidente provincial nomeado pela Corte, e as consequências de um autoritarismo que, ao encerrar os caminhos da política, abriu espaço para a guerra. A Assembleia Legislativa só voltaria a funcionar em 1° de março de 1846.”

No dia 20 de abril de 2025, data comemorativa dos 190 anos da Assembleia Legislativa, foi inaugurada uma placa com os nomes dos vinte e oito deputados eleitos para a sua primeira legislatura.