No curso de nossa história, inúmeras lendas foram criadas em torno da figura do Patrono da Nação, alferes Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, e da chamada Conjuração Mineira, sua dimensão e sua relevância no processo político da independência do Brasil. No caso do alferes, umas quantas: a defesa do escravo na vila de Minas Novas, a estadia em Portugal, o pedido de casamento da menina Ana Clara Freire, os planos de engenharia para o abastecimento d’água do Rio de Janeiro e por aí afora. Lendas que, frise-se, não param de pé quando compulsados os dez volumes dos Autos de devassa da Inconfidência Mineira e a documentação administrativa da época.
No século passado, alguns autores registraram que Tiradentes era maçom e, de suas viagens à capital da Bahia, onde aderira à sociedade secreta, trouxera os ideais de liberdade, igualdade e fraternidade que teriam empolgado os conjurados de Vila Rica na década de 1780.
São inverídicos tais registros.
O jovem Joaquim José, ao mascatear pelas trilhas da capitania, subiu até Minas Novas, onde esteve preso e perdeu todos os seus haveres, e nas fontes primárias inexistem provas de que, antes ou depois, tenha andado mais 1.000km com a tropa de mulas, até Salvador, assim como igualmente nada consta que tenha pertencido à maçonaria.
Esta versão do tropeiro é tão quimérica quanto a conexão que usualmente se faz entre a conjura, Thomas Jefferson e os comerciantes de Bordéus, historieta que entrou nos Autos de devassa tão só porque um dos réus, Domingos Vidal Barbosa, mencionou-a ao ser interrogado.
Depôs Vidal Barbosa que, em março de 1789, ao conversar com o primo Francisco Antônio de Oliveira Lopes sobre o levante que Tiradentes propalava, lembrou-se de que em Montpellier, onde estudava, o colega José Joaquim da Maia, filho de um pedreiro carioca, dissera “estar deliberado a constituir-se enviado de sua nação” no intuito de se encontrar com o embaixador Thomas Jefferson e pedir auxílio para que o Brasil se tornasse um país independente. Pelo prestígio de terceiros conseguiu o encontro. Jefferson nada prometeu, invocando as boas relações dos Estados Unidos com Portugal, apenas referiu que seu país poderia fornecer recursos econômicos assim que o Brasil, efetivamente, se separasse de Portugal. Por dever do cargo comunicou o fato ao seu governo, mas, conforme o próprio Maia, “tomara em pouca consideração sua representação e o desprezara”, por vê-lo “malvestido” e com “ar de miséria”.
O anotador da 2ª edição dos Autos de Devassa, Tarquínio José Barbosa de Oliveira, defendendo a sobredita conexão, afirma que outro réu, o engenheiro José Álvares Maciel, então estudante em Coimbra – este sim, maçom –, recebeu de José Joaquim da Maia, que terminava o curso de Medicina em Bordéus, a notícia da entrevista com Jefferson. Contudo, não há qualquer comprovação de que Maciel tenha estado em Montpellier ou Bordéus, que tenha conhecido Maia ou trocado cartas com ele. E Maia não retornou ao Brasil, morreu na viagem. De resto, Vidal Barbosa, se bem que a par da entrevista, não foi conjurado. Se o fosse, e se trazia da França a novidade, por que teria demorado tanto a mencioná-la? Chegou da França em setembro de 1788 e teve aquele arremedo de epifania somente em março do ano seguinte, quando a conspiração já se esfarelara e os candidatos a conspiradores já fugiam apressadamente uns dos outros, receosos das delações.
Outras e miúdas citações do “braço europeu” da Conjuração Mineira derivaram de depoimentos do primo Oliveira Lopes e, como é de praxe, também vieram instruir essa fábula do século XX. Mas Oliveira Lopes, a par de repetir o que ouvira do parente, tratou de contribuir com suas achegas. Era tão ou mais falaz do que Tiradentes, com a agravante de que parecia se ufanar de seus atropelos à verdade. No interrogatório de 13 de julho de 1791, chegou a alegar “que mentiu sem fim, sem razão alguma, foi unicamente por querer mentir, porque quem não mente não é boa gente”. E pouco antes já alegara “que acrescentou, por querer acrescentar, e ter julgado que quanto mais acrescentasse, mais depressa seria solto”.
Mas o anotador dos Autos é categórico:
“A reação altamente crítica do comércio brasileiro parece evidente da atitude assumida pelo Rio de Janeiro, enviando instruções sigilosas a José Joaquim da Maia, cujo pai era um respeitável empreiteiro de obras da capital do Estado do Brasil, para que buscasse contato na França com o ministro norte-americano e os comerciantes de Bordéus”.
Como assim? O Rio, em nome de seus comerciantes, envia instruções políticas capitais a um desvalido estudante para que consiga apoio de outro país à sua revolução? Quando se sabe que a fonte da versão – a pedanteria de Maia – era ridicularizada por seus condiscípulos? E quando se sabe que, no Rio, não havia ninguém a conspirar? Isto porque, segundo Tiradentes, os cariocas eram “pusilânimes”, eram “uns bananas” e “uns vis patifes” (Autos, v.5, pp.27 e 30, tb. v.4, p.64).
Haja retoques nessa crônica mineira!
E é assim que o pai do estudante, um honrado pedreiro, passa a ser um “respeitável empreiteiro de obras” e um mascate ou tropeiro de mulas um “comissário comercial por conta própria”.
Vai mais longe o febril anotador, aduzindo, sem indicação da fonte, que Jefferson teria “credenciado” Maia junto à burguesia maçônica de Bordéus. Por todos os diabos, onde ele foi buscar esta informação? A história de nosso país, de vultos de nosso passado e de nossos sonhos de libertação haveria de passar bem melhor sem o ministério do palpite. Entre o soi-disant preposto dos cariocas e os conspiradores de Vila Rica não há relação nem quanto ao propósito: Maia falava na independência do Brasil, os de Vila Rica na independência de Minas. De outra parte, jamais houve promessa de auxílio estrangeiro. Quantas vezes Tiradentes precisará confessar, como confessou (Autos, v.5, pp.41 e 45), que sua alusão a este apoio era um embuste para cooptar parceria?
E não se pense que o alferes, para proteger alguém em especial ou os demais réus, quis ocultar a amplitude do movimento. Acaso ele sonegou algum nome em seus onze depoimentos na devassa? Bem ao contrário. Em sua quarta inquirição, a 18 de janeiro de 1790, pressionado e “porque assim queria Deus”, passou a entregar aos juízes portugueses, nome por nome, todos os seus parceiros, amigos e conhecidos. Até mesmo seu comandante e o padrinho de sua filha.