É possível medir a pujança da Rússia por distintas formas. Seja por suas dimensões territoriais quase continentais, por sua posição geográfica estratégica entre a Europa e a Ásia; por sua inquestionável relevância histórica – a Rússia conteve o avanço dos exércitos de Napoleão e mais tarde de Hitler. A Rússia promoveu um dos eventos políticos mais importante do século XX, que foi a revolução bolchevique, com enormes desdobramentos. Mas há uma métrica que reputo ser da maior relevância: a qualidade da sua literatura.
Como diz Otto Maria Carpeaux, “a literatura russa do século XIX foi além da literatura propriamente dita. Foi jornalismo, num país em que não existia imprensa livre. Foi tribuna política, num país em que não havia parlamento. Foi cátedra universitária, num país em que as universidades eram fiscalizadas pela polícia. E foi púlpito, num país em que a própria Igreja estava muda”.
A literatura russa do século XIX, a chamada “Era de Ouro”, com Puchkin, Gogol, Turguêniev, Dostoiévski e Tolstói, entre outros, chegando até o “primeiro modernismo”, com Tchecov e Gorki. Trata-se de uma literatura com tamanha envergadura, que reencontra no presente elementos e potências que os tornam atuais. Muitas obras literárias produzidas neste período são exemplos do que Ítalo Calvino definiria como ‘clássicos” – as obras que vencem o desafio implacável do tempo.
Há nelas características que as unem e as contrapõem à nova literatura russa, posterior à revolução bolchevique e ao período soviético. É um tipo de literatura que deixa ver não somente como vive a sociedade e o que pensa, mas que também traduz uma “alma russa”, uma identidade eslava quase metafísica, própria do caráter dos seus membros. Como dizia Tolstói, esta “alma” é russa, mas ao mesmo tempo universal.
Ela floresce através do mergulhar na intimidade dos sentimentos humanos – como tão bem o fez séculos antes a dramaturgia de William Shakespeare. Para mim, Dostoiévski pode ser considerado o equivalente do bardo inglês nas letras russas e a sua prosa é a base de uma nova forma de se fazer literatura, uma verdadeira cartografia psicológica, calibrada para o registro dos mecanismos mentais do indivíduo moderno, mas numa linguagem mais livre, prenunciando o que alguns chamariam depois de “fluxo de consciência”.
Não por acaso, surgiriam depois de Dostoiévski autores como Conrad, Joyce, Woolf, Faulkner e outros. A literatura russa do século XIX supera todas as expectativas. Talvez não houvesse Freud sem antes Dostoiévski; Gandhi sem antes Tolstói; ou Sartre e Camus sem que antes existissem Turguêniev e Dostoiévski. Mas devo fazer justiça com outra fundamental contribuição da chamada “Era de Ouro”.
Adentrando o século XIX em meio a um czarismo impiedoso, apoiado por uma aristocracia arrogante e dominadora, mas como uma imensa maioria de camponeses e servos no campo, vivendo em quase absoluta miséria, os russos conseguem livrar-se da degradante servidão, no ano de 1861. E aqui atrevo-me a propor que a literatura teve um papel fundamental na sua extinção.
Atribuo aos textos sobre a vida dos camponeses e dos servos russos, mostrando-os como seres humanos, dotados dos mesmos sentimentos das demais pessoas, e não como mercadoria ou força de trabalho, escritos por Ivan Turguêniev (ele um escritor voltado para um mundo eurocêntrico) parte da responsabilidade pela mudança de comportamento da sociedade em relação ao tema da servidão, levando o czar a extingui-la.
Liev Tolstói, um escritor pertencente à alta aristocracia russa, teve também grande importância no tema do fim da servidão. Há contos antológicos da sua autoria e que abordam este tema, como O Senhor e o Servo ou De quanta terra precisa um homem? Tolstói criou escolas para os filhos dos servos da sua propriedade, libertou-os e transferiu muitos dos seus bens de família para os mais necessitados.
Mais adiante, na Rússia da segunda metade do século XIX, convulsionada politicamente e animada pelo hábito da leitura rápida e concisa dos jornais, surge a figura de Tchecov, o qual revoluciona a narrativa curta – um primeiro modernismo – no qual tudo que não pareça essencial ao texto é depurado.
Nos seus contos e peças teatrais, Tchecov diz adeus ao compromisso quase profético dos seus predecessores, em especial, Tolstói e Dostoiévski, os quais querem conduzir o leitor pelo chamado “bom caminho”. Tchecov, ao contrário, abdica deste compromisso – quer que o leitor encontre, ele próprio, o melhor destino para a sua prosa. Penso que estes três gigantes das letras resumem bem a grandeza e a universalidade da literatura russa.
Com o advento do regime soviético, nas primeiras décadas do século XX, e depois no stalinismo, virá a exigência estatal de um compromisso do autor no sentido de que a literatura tenha como prioridade não a sua universalidade ou beleza estética, mas o moldar de um “novo homem”, que será parte essencial de um mundo idealizado pelo ideário socialista, o qual jamais se confirmaria. Gorki, Maiakovski e outros representam esta nova literatura.
É mister informar ao leitor que qualquer obra que pretendesse ser diferente deste ideário socialista seria duramente reprimida pelo Estado. Stálin assim o faria e de forma bem mais violenta do que no czarismo. Milhares de autores dissidentes serão executados, enviados para prisões e trabalhos forçados na Sibéria ou forçados a deixar o seu país. Stálin mantém um inventário completo de todas as máquinas de escrever existentes nas repúblicas soviéticas.
Mas seria injusto dizer que o chamado “realismo socialista” vivido pela literatura soviética ao longo de várias décadas do século XX foi um tempo caracterizado pela ausência de grandes autores. Na verdade, eles estavam lá, mas foram simplesmente sufocados por uma censura implacável. Mandelstam é preso e morre num campo de trabalhos forçados na Sibéria. Brodsky é processado e preso. Soljenitsyn é mandado para um gulag, sem uma razão bem explicada. Os dois seguiriam o caminho do exílio.
Na primeira edição do Prêmio Nobel de Literatura, em 1901, Dostoiévski já havia falecido. Tolstói é o grande favorito, mas por suas posições pessoais não foi escolhido. Na época, havia resistência da Academia Sueca em escolher um escritor russo, Tchecov também não foi considerado. Gorki é indicado, mas nunca premiado.
Mais tarde, por sua maestria estilística, profundidade psicológica, crítica social e universalidade, vários autores de língua russa recebem o Prêmio Nobel de Literatura. Em 1933, Bunin – no exílio - é o primeiro a receber a premiação, pela prosa elegante e rigorosa. Depois, Pasternak é reconhecido com o Prêmio Nobel de Literatura, em 1958, pelo lirismo da sua poesia e pelo êxito retumbante do romance Doutor Jivago. Paskernak é impedido de receber a premiação pelas autoridades soviéticas, mas é postumamente reconhecido.
Nabokov seria também indicado, mas não recebe a premiação. A sua famosa obra Lolita é proibida em vários países. Em 1965, Sholokhov é premiado com o Prêmio Nobel de Literatura, pela intensidade artística na sua narrativa épica. Solzhenitsyn é também premiado, em 1975, pela coragem de registrar a dureza dos “gulags”. Brodsky recebe a premiação em 1985, um exímio poeta, quando vivia no exílio, nos EUA. Mais recentemente, Svetlana Aleksiévitch recebe o Nobel, em 2015, por seu jornalismo documental, foco na história oral e alta literatura. É uma autora bielorrussa, mas escreve na língua russa.
É sobre essa potente e maravilhosa literatura que dedico a mostra intitulada Russkaya dusha (alma russa): Os grandes nomes da literatura russa, que fica aberta até o dia 14 de novembro de 2026, no Multipalco Eva Sopher, no nosso Centro Histórico, e que é parte da programação oficial da 72ª Feira do Livro de Porto Alegre. Nela, estão expostas cerca de trezentas obras raras, algumas em primeira edição, bem como fotografias e documentos preciosos que ilustram a construção da grande literatura russa. O leitor é também brindado com leituras de textos selecionados pelo curador e interpretados pelos grandes Zé Adão Barbosa e Arlete Cunha.
Dostoiévski, um dos maiores escritores de todos os tempos, cujas obras trazem reflexões sobre as nossas questões morais mais profundas, o sentido da liberdade, os conflitos entre o bem e o mal, a existência ou não de Deus e o papel que os seres humanos desempenham no seu próprio destino, autor de grandes clássicos, como Crime e castigo e Os irmãos Karamázov, quando perguntado sobre qual seria a sua definição de “russkaya dusha”, responde que “a mais básica necessidade espiritual dos russos é o sofrer, pois o mundo russo gravita em torno de Jesus Cristo, da sua humildade, do seu sofrimento e da sua opção por morrer na cruz, em nome da humanidade”.
Serviço
Exposição Russkaya dusha – Os grandes nomes da literatura russa, com curadoria de Gilberto Schwartsmann
Visitação: até 14 de novembro, de domingo a domingo, das 10h às 20h
Multipalco Eva Sopher (Rua Riachuelo, 1089 - Centro Histórico - Porto Alegre/RS)
Entrada franca