Caderno de Sábado

Os monumentos, de pé pelo Rio Grande!

Historiador, curador e pesquisador, José Francisco Alves comenta movimento de restauração de monumentos do RS e anuncia publicação de livro

Monumento Nacional do Imigrante, 1954, Caxias do Sul. Obra do escultor gaúcho de Pelotas, Antonio Caringi
Monumento Nacional do Imigrante, 1954, Caxias do Sul. Obra do escultor gaúcho de Pelotas, Antonio Caringi Foto : Bayard Fonseca / Divulgação / CP

Entre nós, é difundida a percepção de que o Rio Grande do Sul possui características culturais que o distinguem de outras regiões do país, sobretudo nos costumes e nas tradições. Também na cultura política, o estado assumiu, em diferentes momentos, do passado ao presente, posições contrárias ao status quo do poder central nacional, chegando a liderar levantes que transformaram a história brasileira. Tais singularidades decorreram de fatores diversos, ligados à ocupação do território, à definição das fronteiras, à transformação do ambiente em favor do desenvolvimento humano e às tomadas de posições que estabelecemos com o restante do Brasil.

A ideia de uma cultura gaúcha “diferenciada” encontra respaldo, ao menos no campo da memória pública expressa pelos monumentos, em iniciativas e acontecimentos concretos. Não se trata de ignorar que toda interpretação histórica é atravessada pelos interesses de seu tempo – constatação, aliás, evidente. Em diferentes épocas, cada grupo social interpreta o passado a partir de seus próprios interesses e de sua concepção de memória pública. Os sul-rio-grandenses não constituem exceção, pois esse processo é inerente à vida em sociedade. Nos últimos tempos, contudo, o repertório dessa memória se ampliou. Novos grupos organizados passaram a ocupar o espaço público não apenas para contestar celebrações alheias, mas também para afirmar suas próprias perspectivas por meio de monumentos artísticos.

Essa produção monumental do Rio Grande do Sul, especialmente a escultura pública – estátuas, bustos, obeliscos, marcos artísticos e obras de arte contemporânea –, é objeto de uma pesquisa que iniciei há quase três décadas. Sua conclusão tornou-se possível nos últimos dois anos, e os resultados serão publicados em breve em livro financiado por edital estadual da PNAB. O levantamento, necessariamente exemplificativo, reunirá cerca de 1.300 obras distribuídas por aproximadamente 210 municípios.

A investigação evidenciou quanto a produção artística do interior do estado permanece subestimada e pouco contemplada pela historiografia, particularmente pela história da arte. Mesmo em uma amostra seletiva, revela-se uma diversidade surpreendente de manifestações e linguagens escultóricas. É um Rio Grande do Sul que ainda precisamos conhecer – e que precisa reconhecer a si mesmo. Alguns monumentos receberam análises mais aprofundadas, tanto por sua relevância quanto pela escassez de estudos anteriores. Entre eles, destaca-se o Monumento Nacional ao Imigrante (1954), em Caxias do Sul, uma das grandes realizações de Antonio Caringi. O estudo dessa obra conduziu a uma imersão na história cultural e política de Caxias do Sul em meados do século XX e permitiu acompanhar os últimos passos de Getúlio Vargas em seu estado natal, no início de 1954.

Em suas variadas formas artísticas, esse vasto patrimônio monumental evoca acontecimentos, personagens e experiências que marcaram a história do território gaúcho: a epopeia das Missões Jesuíticas-Guaranis, as disputas de fronteira entre Portugal e Espanha, a Independência e a República e seus protagonistas, os conflitos fratricidas de 1835, 1893, 1923 e 1932, a religiosidade e o civismo, a Guerra do Paraguai e o combate ao nacional-socialismo pela atuação da Força Expedicionária Brasileira (FEB). As homenagens às etnias imigrantes, antes proibidas, ganharam crescente reconhecimento cultural a partir da década de 1970, impulsionadas pelo orgulho comunitário de suas origens e renovadas em 2024 e 2025. A esse panorama somam-se as manifestações afro-brasileiras, que passaram a ser também afirmadas no espaço monumental público. Entre as diferentes vertentes, sobressaem as comemorações farroupilhas e as expressões de gauchidade, presentes em todas as regiões, assim como as homenagens a nomes das artes regional e nacional.

Ainda que o século XXI tenha sido marcado por perdas irreparáveis no patrimônio de arte pública, em consequência do vandalismo e dos furtos, o ano de 2026 assinala iniciativas importantes de preservação. Com recursos de emendas parlamentares ou da Lei de Incentivo à Cultura do Rio Grande do Sul, foram iniciados ou realizados os restauros do Monumento a Bento Gonçalves, em Porto Alegre, do Monumento Nacional ao Imigrante, em Caxias do Sul, e do Obelisco Republicano (1885), em Pelotas. Investir nessa memória monumental é indispensável: uma sociedade precisa de sua história e de seus símbolos, capazes de produzir referências comuns, mesmo sem unanimidade na esfera pública. É igualmente necessário reconhecer os escultores gaúchos, brasileiros e estrangeiros que contribuíram e continuam a contribuir para esse expressivo acervo artístico. Que este ano tenha representado, assim, um recomeço na valorização da arte pública do Rio Grande do Sul – tarefa que exige pesquisa, preservação e divulgação.