Entre nós, é difundida a percepção de que o Rio Grande do Sul possui características culturais que o distinguem de outras regiões do país, sobretudo nos costumes e nas tradições. Também na cultura política, o estado assumiu, em diferentes momentos, do passado ao presente, posições contrárias ao status quo do poder central nacional, chegando a liderar levantes que transformaram a história brasileira. Tais singularidades decorreram de fatores diversos, ligados à ocupação do território, à definição das fronteiras, à transformação do ambiente em favor do desenvolvimento humano e às tomadas de posições que estabelecemos com o restante do Brasil.
A ideia de uma cultura gaúcha “diferenciada” encontra respaldo, ao menos no campo da memória pública expressa pelos monumentos, em iniciativas e acontecimentos concretos. Não se trata de ignorar que toda interpretação histórica é atravessada pelos interesses de seu tempo – constatação, aliás, evidente. Em diferentes épocas, cada grupo social interpreta o passado a partir de seus próprios interesses e de sua concepção de memória pública. Os sul-rio-grandenses não constituem exceção, pois esse processo é inerente à vida em sociedade. Nos últimos tempos, contudo, o repertório dessa memória se ampliou. Novos grupos organizados passaram a ocupar o espaço público não apenas para contestar celebrações alheias, mas também para afirmar suas próprias perspectivas por meio de monumentos artísticos.
Essa produção monumental do Rio Grande do Sul, especialmente a escultura pública – estátuas, bustos, obeliscos, marcos artísticos e obras de arte contemporânea –, é objeto de uma pesquisa que iniciei há quase três décadas. Sua conclusão tornou-se possível nos últimos dois anos, e os resultados serão publicados em breve em livro financiado por edital estadual da PNAB. O levantamento, necessariamente exemplificativo, reunirá cerca de 1.300 obras distribuídas por aproximadamente 210 municípios.
A investigação evidenciou quanto a produção artística do interior do estado permanece subestimada e pouco contemplada pela historiografia, particularmente pela história da arte. Mesmo em uma amostra seletiva, revela-se uma diversidade surpreendente de manifestações e linguagens escultóricas. É um Rio Grande do Sul que ainda precisamos conhecer – e que precisa reconhecer a si mesmo. Alguns monumentos receberam análises mais aprofundadas, tanto por sua relevância quanto pela escassez de estudos anteriores. Entre eles, destaca-se o Monumento Nacional ao Imigrante (1954), em Caxias do Sul, uma das grandes realizações de Antonio Caringi. O estudo dessa obra conduziu a uma imersão na história cultural e política de Caxias do Sul em meados do século XX e permitiu acompanhar os últimos passos de Getúlio Vargas em seu estado natal, no início de 1954.
Em suas variadas formas artísticas, esse vasto patrimônio monumental evoca acontecimentos, personagens e experiências que marcaram a história do território gaúcho: a epopeia das Missões Jesuíticas-Guaranis, as disputas de fronteira entre Portugal e Espanha, a Independência e a República e seus protagonistas, os conflitos fratricidas de 1835, 1893, 1923 e 1932, a religiosidade e o civismo, a Guerra do Paraguai e o combate ao nacional-socialismo pela atuação da Força Expedicionária Brasileira (FEB). As homenagens às etnias imigrantes, antes proibidas, ganharam crescente reconhecimento cultural a partir da década de 1970, impulsionadas pelo orgulho comunitário de suas origens e renovadas em 2024 e 2025. A esse panorama somam-se as manifestações afro-brasileiras, que passaram a ser também afirmadas no espaço monumental público. Entre as diferentes vertentes, sobressaem as comemorações farroupilhas e as expressões de gauchidade, presentes em todas as regiões, assim como as homenagens a nomes das artes regional e nacional.
Ainda que o século XXI tenha sido marcado por perdas irreparáveis no patrimônio de arte pública, em consequência do vandalismo e dos furtos, o ano de 2026 assinala iniciativas importantes de preservação. Com recursos de emendas parlamentares ou da Lei de Incentivo à Cultura do Rio Grande do Sul, foram iniciados ou realizados os restauros do Monumento a Bento Gonçalves, em Porto Alegre, do Monumento Nacional ao Imigrante, em Caxias do Sul, e do Obelisco Republicano (1885), em Pelotas. Investir nessa memória monumental é indispensável: uma sociedade precisa de sua história e de seus símbolos, capazes de produzir referências comuns, mesmo sem unanimidade na esfera pública. É igualmente necessário reconhecer os escultores gaúchos, brasileiros e estrangeiros que contribuíram e continuam a contribuir para esse expressivo acervo artístico. Que este ano tenha representado, assim, um recomeço na valorização da arte pública do Rio Grande do Sul – tarefa que exige pesquisa, preservação e divulgação.