Caderno de Sábado

Para celebrar, afinal, a MIAC

Idealizador da Mostra Internacional de Arte Contemporânea, Fernando Zugno, escreve sobre projeto realizado na Capital no mês de outubro

Neste sábado, 4, 17h, na Cinemateca Capitólio, ocorre exibição do filme "Macaléia", seguido de conversa com a diretora Rejane Zilles e o músico Jards Macalé, que se apresenta no domingo, 5, às 19h, no Farol Santander
Neste sábado, 4, 17h, na Cinemateca Capitólio, ocorre exibição do filme "Macaléia", seguido de conversa com a diretora Rejane Zilles e o músico Jards Macalé, que se apresenta no domingo, 5, às 19h, no Farol Santander Foto : Andreia Nestrea / Divulgação / CP

A Mostra Internacional de Arte Contemporânea, MIAC, chega nesse outubro de 2025 como Tieta! Só acredito porque está acontecendo e podemos todos ver! Em 2022 inventei a MIAC, Mostra Internacional de Arte Contemporânea, a partir de muita troca com amigos, artistas, gestores, produtores: uma galera maravilhosa que compartilha comigo os fazeres artísticos no Brasil há um bocado de tempo e acompanha os vais e vens das políticas públicas, dos investimentos, dos debates nas artes… mas também muita troca com minha intuição, com as energias que habitam em mim e ao meu redor. A MIAC, como eu que sou porto-alegrense nato e hoje vivo em Fortaleza, foi dar um rolê por outras paragens e se libertar de amarras e volta linda, chique e sexy.

Com todas as intempéries políticas e climáticas que passamos nos últimos anos, ainda acho que o mais difícil era acompanhar tudo isso e seguir em frente com esse projeto entendendo que ele possui um DNA, mas que pode ser mutante, flexível, líquido e se adapta ao ambiente. Inclusive essa característica faz parte do seu DNA.

Um projeto criado a muitas mãos, mas que começou a tomar a forma dessas edições que você acompanha agora numa troca com meu curador parceiro Guilherme Thiesen e com a parceria do Farol Santander e Instituto Ling, sobretudo além de tantos outros que aos poucos foram querendo fazer parte desse grande movimento que tem se tornado a MIAC.

Aos poucos fomos montando muitas possibilidades de programação até chegarmos aqui. Conseguimos unir 2 projetos em tempo de ampliar e fortalecer uma programação que mostra sua potencialidade ao propor a troca entre artistas, encontros inusitados e nunca antes vistos, apresentações em formatos novos, com um touché a mais, obras que são desenvolvidas a partir da troca entre os curadores e os artistas… uma programação que mistura nossa cultura popular num cenário contemporâneo. Não se engane, contemporâneo aqui é só pra se referir ao que é produzido hoje em pensamento, em estética, em manifestação, não tem mistérios alucinantes de uma arte ou debate inacessível, para poucos.

A MIAC 2025 começa no Farol Santander de Porto Alegre com uma programação pop com nomes que trazem, sem ingenuidade, uma camada essencial de alegria, de divertimento unindo a música às artes visuais, ao cinema, à dança, à poesia e à performance com Tulipa Ruiz e Cecilia Luchesi, Marcos Valle e a TEM, Jards Macalé (foto acima) e Rejane Zilles, Ialodê com Thalma de Freitas, Höröyá e Borghetti com Paola Kirst e Clarissa Ferreira. Essa parte chamamos de Música Viva para nos referirmos à música com as artes vivas, a arte do efêmero, do aqui agora e nunca mais. No último final de semana dessa primeira parte ainda agregamos um espetáculo que traz a música pro teatro na obra “Azira'i” que tem ganhado o Brasil e o mundo com uma performance brilhante da Zahy Tentehar. Além da Zahy, o espetáculo ainda tem como cenário criações de vídeos de um artista genial que eu venho acompanhando há muito tempo: o Batman Zavareze. Pra fazer a ponte com a segunda parte da MIAC, convidamos a Zahy - com quem eu flertava há bastante tempo já, desde 2022 quando comecei a desenhar a MIAC - pra apresentar os trabalhos que eu já conhecia dela e que tem tudo a ver com o que estamos propondo a debater: uma arte contemporânea ancestral ou a união de tecnologias novas, as contemporâneas, e as milenares, mas que se fazem atuais nos debates que estamos propondo. E o Batman que irá dar uma aula magna sobre seu processo de criação, sobre vídeo, arte, projeções a serviço de espetáculos de teatro, dança e música, mas também para exposições de artes visuais.

Então começamos nossa segunda parte da MIAC no Instituto Ling com o título O Tempo Dos Corpos que quer refletir sobre um outro tempo, o tempo da natureza, o tempo de pessoas que tem outra relação com a vida. E a Zahy é essa multiartista fantástica que apresenta pra gente seu curta metragem Os Civilizados e fala sobre a presença dos seus saberes indígenas do povo Guajajara no seu trabalho, suas criações e relações com a arte contemporânea.

O seminário segue nesse tom brilhante com tantos mestres e líderes e artistas que tem tanto a nos ensinar: a Cacica Kaigang Iracema Nascimento, a mestra Maria de Tiê do Cariri, o mestre Bule Bule, a Pajé Mapulu Kamayurá e a imortal escritora Ana Maria Gonçalves entre tantos outros que vem se dedicando a pensar as artes, os festivais, os seminários, as mostras de arte de outra forma, como nós da MIAC. É quase como se estivéssemos fazendo um estágio com nossa própria programação. Um festival aprendendo a ser com seus convidados: em mutação, em elaboração de um jeito todo nosso.

Além do seminário, a MIAC: O Tempo Dos Corpos também há uma programação brilhante de lançamento do filme “A Queda do Céu”, criado pelo Eryk Rocha e Gabriela Carneiro da Cunha a partir do livro imenso do Davi Kopenawa Yanomami e do Bruce Albert que estreou e foi premiado em Cannes e chega na tela da Cinemateca Capitólio; a performance “Ytá”, também do Cariri, de Barbara Matias Kariri e do Edceu Barboza. Nada mais natural que agora que, desenvolvo raízes no Ceará, queira trazer meus mundos pra se conhecerem melhor. Aliás, importante dizer que na curadoria do seminário contamos com o apoio luxuoso de Dane de Jade, uma mulher da maior importância pra cultura no nosso país, caririense que nos ajudou a trazer uma linda parte do nosso Brasil pra Porto Alegre. Nossa programação internacional se acumulou pro final do Tempo Dos Corpos: com “Primeiro Amor da Itália”, “L’Opera de Villageois de Camarões” e “Les Sans”, de Burkina Faso/Burundi. Com isso, num longo período, de 3 a 26 de outubro, não de forma linear nem ininterrupta, colocamos, Guilherme e eu junto a uma equipe imensa sem a qual nada seria possível, duas edições da MIAC que se dialogam, se conectam e estão nas ruas, nos centros culturais, nas casas de espetáculos com uma programação fora do óbvio: inusitada, criativa, inteligente. É uma batalha imensa fazer um evento de arte como esse, desse tamanho, que conta com um grande número de artistas e profissionais da área além da participação de muitas instituições importantes sem as quais não seria possível por o bloco na rua. Mas quando a MIAC chega, o cansaço abre espaço pra esperança e a alegria de ver parte daquilo que o Brasil tem de melhor se encontrando.

Muito importante dizer que a MIAC é toda financiada pela Lei Rouanet através do Ministério da Cultura e contam com os patrocínios do Santander Brasil para a edição Música Viva com apoio do Farol Santander Porto Alegre e da Crown Brand-Building Packaging para a edição O Tempo dos Corpos e apoio do Instituto Ling.