A Mostra Internacional de Arte Contemporânea, MIAC, chega nesse outubro de 2025 como Tieta! Só acredito porque está acontecendo e podemos todos ver! Em 2022 inventei a MIAC, Mostra Internacional de Arte Contemporânea, a partir de muita troca com amigos, artistas, gestores, produtores: uma galera maravilhosa que compartilha comigo os fazeres artísticos no Brasil há um bocado de tempo e acompanha os vais e vens das políticas públicas, dos investimentos, dos debates nas artes… mas também muita troca com minha intuição, com as energias que habitam em mim e ao meu redor. A MIAC, como eu que sou porto-alegrense nato e hoje vivo em Fortaleza, foi dar um rolê por outras paragens e se libertar de amarras e volta linda, chique e sexy.
Com todas as intempéries políticas e climáticas que passamos nos últimos anos, ainda acho que o mais difícil era acompanhar tudo isso e seguir em frente com esse projeto entendendo que ele possui um DNA, mas que pode ser mutante, flexível, líquido e se adapta ao ambiente. Inclusive essa característica faz parte do seu DNA.
Um projeto criado a muitas mãos, mas que começou a tomar a forma dessas edições que você acompanha agora numa troca com meu curador parceiro Guilherme Thiesen e com a parceria do Farol Santander e Instituto Ling, sobretudo além de tantos outros que aos poucos foram querendo fazer parte desse grande movimento que tem se tornado a MIAC.
Aos poucos fomos montando muitas possibilidades de programação até chegarmos aqui. Conseguimos unir 2 projetos em tempo de ampliar e fortalecer uma programação que mostra sua potencialidade ao propor a troca entre artistas, encontros inusitados e nunca antes vistos, apresentações em formatos novos, com um touché a mais, obras que são desenvolvidas a partir da troca entre os curadores e os artistas… uma programação que mistura nossa cultura popular num cenário contemporâneo. Não se engane, contemporâneo aqui é só pra se referir ao que é produzido hoje em pensamento, em estética, em manifestação, não tem mistérios alucinantes de uma arte ou debate inacessível, para poucos.
A MIAC 2025 começa no Farol Santander de Porto Alegre com uma programação pop com nomes que trazem, sem ingenuidade, uma camada essencial de alegria, de divertimento unindo a música às artes visuais, ao cinema, à dança, à poesia e à performance com Tulipa Ruiz e Cecilia Luchesi, Marcos Valle e a TEM, Jards Macalé (foto acima) e Rejane Zilles, Ialodê com Thalma de Freitas, Höröyá e Borghetti com Paola Kirst e Clarissa Ferreira. Essa parte chamamos de Música Viva para nos referirmos à música com as artes vivas, a arte do efêmero, do aqui agora e nunca mais. No último final de semana dessa primeira parte ainda agregamos um espetáculo que traz a música pro teatro na obra “Azira'i” que tem ganhado o Brasil e o mundo com uma performance brilhante da Zahy Tentehar. Além da Zahy, o espetáculo ainda tem como cenário criações de vídeos de um artista genial que eu venho acompanhando há muito tempo: o Batman Zavareze. Pra fazer a ponte com a segunda parte da MIAC, convidamos a Zahy - com quem eu flertava há bastante tempo já, desde 2022 quando comecei a desenhar a MIAC - pra apresentar os trabalhos que eu já conhecia dela e que tem tudo a ver com o que estamos propondo a debater: uma arte contemporânea ancestral ou a união de tecnologias novas, as contemporâneas, e as milenares, mas que se fazem atuais nos debates que estamos propondo. E o Batman que irá dar uma aula magna sobre seu processo de criação, sobre vídeo, arte, projeções a serviço de espetáculos de teatro, dança e música, mas também para exposições de artes visuais.
Então começamos nossa segunda parte da MIAC no Instituto Ling com o título O Tempo Dos Corpos que quer refletir sobre um outro tempo, o tempo da natureza, o tempo de pessoas que tem outra relação com a vida. E a Zahy é essa multiartista fantástica que apresenta pra gente seu curta metragem Os Civilizados e fala sobre a presença dos seus saberes indígenas do povo Guajajara no seu trabalho, suas criações e relações com a arte contemporânea.
O seminário segue nesse tom brilhante com tantos mestres e líderes e artistas que tem tanto a nos ensinar: a Cacica Kaigang Iracema Nascimento, a mestra Maria de Tiê do Cariri, o mestre Bule Bule, a Pajé Mapulu Kamayurá e a imortal escritora Ana Maria Gonçalves entre tantos outros que vem se dedicando a pensar as artes, os festivais, os seminários, as mostras de arte de outra forma, como nós da MIAC. É quase como se estivéssemos fazendo um estágio com nossa própria programação. Um festival aprendendo a ser com seus convidados: em mutação, em elaboração de um jeito todo nosso.
Além do seminário, a MIAC: O Tempo Dos Corpos também há uma programação brilhante de lançamento do filme “A Queda do Céu”, criado pelo Eryk Rocha e Gabriela Carneiro da Cunha a partir do livro imenso do Davi Kopenawa Yanomami e do Bruce Albert que estreou e foi premiado em Cannes e chega na tela da Cinemateca Capitólio; a performance “Ytá”, também do Cariri, de Barbara Matias Kariri e do Edceu Barboza. Nada mais natural que agora que, desenvolvo raízes no Ceará, queira trazer meus mundos pra se conhecerem melhor. Aliás, importante dizer que na curadoria do seminário contamos com o apoio luxuoso de Dane de Jade, uma mulher da maior importância pra cultura no nosso país, caririense que nos ajudou a trazer uma linda parte do nosso Brasil pra Porto Alegre. Nossa programação internacional se acumulou pro final do Tempo Dos Corpos: com “Primeiro Amor da Itália”, “L’Opera de Villageois de Camarões” e “Les Sans”, de Burkina Faso/Burundi. Com isso, num longo período, de 3 a 26 de outubro, não de forma linear nem ininterrupta, colocamos, Guilherme e eu junto a uma equipe imensa sem a qual nada seria possível, duas edições da MIAC que se dialogam, se conectam e estão nas ruas, nos centros culturais, nas casas de espetáculos com uma programação fora do óbvio: inusitada, criativa, inteligente. É uma batalha imensa fazer um evento de arte como esse, desse tamanho, que conta com um grande número de artistas e profissionais da área além da participação de muitas instituições importantes sem as quais não seria possível por o bloco na rua. Mas quando a MIAC chega, o cansaço abre espaço pra esperança e a alegria de ver parte daquilo que o Brasil tem de melhor se encontrando.
Muito importante dizer que a MIAC é toda financiada pela Lei Rouanet através do Ministério da Cultura e contam com os patrocínios do Santander Brasil para a edição Música Viva com apoio do Farol Santander Porto Alegre e da Crown Brand-Building Packaging para a edição O Tempo dos Corpos e apoio do Instituto Ling.