Caderno de Sábado

Para multiplicar e divulgar a cultura afrodiaspórica

Historiadora da Arte e Mestra em História, Teoria e Crítica de Arte, Izis Abreu apresenta a plataforma ‘Oríkì’ em artigo para o Caderno de Sábado

A arte negra ganha um novo território de memória, difusão e articulação no ambiente digital com o lançamento da Oríkì – Arte Afrodiaspórica
A arte negra ganha um novo território de memória, difusão e articulação no ambiente digital com o lançamento da Oríkì – Arte Afrodiaspórica Foto : Josemar Afrovulto / Divulgação / CP

O nome “Oríkì” vem de uma tradição iorubá ligada à evocação da memória, da ancestralidade e das qualidades de uma pessoa ou comunidade por meio da oralidade. A plataforma Oríkì Arte Afrodiaspórica nasce, portanto, como um espaço de preservação, valorização e fortalecimento das narrativas, saberes e práticas culturais afrodiaspóricas.

A Oríkì é uma plataforma digital dedicada à arte afrodiaspórica e às produções culturais de autoria negra. Seu principal objetivo é conectar artistas, mestres e mestras da cultura viva, pesquisadores, produtores culturais, instituições, coletivos e territórios culturais do Brasil, das Américas, do Caribe e do continente africano, criando um ecossistema de circulação, visibilidade e fortalecimento dessas produções.

O projeto surge a partir de uma inquietação relacionada à invisibilização histórica das estéticas afro-atlânticas nos campos da arte, da cultura e da memória. A história da arte ocidental foi construída a partir de parâmetros eurocêntricos que separaram arte e vida cotidiana, estabelecendo divisões entre arte erudita e popular, artista e artesão, cultura e espiritualidade. Nesse processo, muitas práticas culturais africanas e afrodiaspóricas foram classificadas como folclóricas, primitivas ou populares.

A Oríkì parte de outra compreensão de arte. Em muitas cosmopercepções africanas e afrodiaspóricas, arte, espiritualidade, corpo, território, oralidade e coletividade não estão separados. A estética não se restringe ao objeto artístico, mas está presente nos modos de viver, celebrar, transmitir conhecimento e construir comunidade. Nesse sentido, a plataforma compreende como arte afrodiaspórica tanto produções contemporâneas quanto práticas tradicionais de matriz afro-atlântica, como samba, capoeira, teatro, oralituras, slam, congadas e desfiles de escolas de samba, além de reconhecer terreiros, quilombos, bailes black, ballrooms, clubes sociais e favelas como territórios estéticos, culturais e de preservação de memórias africanas na diáspora.

Mais do que um site, a Oríkì busca consolidar uma rede de articulação entre diferentes agentes culturais negros, ampliando as formas de reconhecimento e legitimação da arte afrodiaspórica e contribuindo para a construção de outras narrativas sobre arte, patrimônio e diáspora.

A plataforma funciona a partir de quatro eixos curatoriais: Galeria, Comunidade, Educativo e Programa Público.

A Galeria reúne imagens, registros audiovisuais, sonoros e textuais voltados à difusão e valorização da arte afrodiaspórica. O espaço funciona como arquivo digital, ambiente expositivo e ferramenta pedagógica para ações de educação patrimonial e antirracista.

A Comunidade Oríkì é um espaço de mapeamento e conexão entre artistas, pesquisadores, produtores culturais, mestres da cultura, instituições e iniciativas culturais negras. Profissionais e organizações poderão criar perfis, apresentar seus trabalhos, fortalecer redes de atuação, estabelecer parcerias e ampliar oportunidades de circulação e contratação.

O eixo Educativo reúne conteúdos voltados à educação antirracista e à valorização das culturas afro-brasileiras e africanas. Materiais produzidos por agentes culturais, pesquisadores e educadores poderão ser disponibilizados na plataforma, contribuindo para a aplicação da Lei 10.639/2003 e para a ampliação do acesso a conteúdos relacionados à história e cultura afro-brasileira nas escolas e em outros espaços formativos.

O Programa Público organiza ações presenciais realizadas em parceria com agentes e instituições culturais nacionais e internacionais, promovendo exposições, seminários, oficinas, intercâmbios, encontros e atividades formativas voltadas à circulação de saberes e ao fortalecimento das redes afrodiaspóricas.

A primeira atividade presencial da Oríkì é a exposição “Indumentárias Ancestrais”, resultado de uma pesquisa documental e iconográfica sobre vestimentas e adornos utilizados por mulheres negras no século XIX no sul do Brasil, evidenciando permanências culturais de matriz africana. A mostra articula moda, memória, ancestralidade e patrimônio cultural, reunindo fotografias, documentos históricos, obras artísticas e trajes produzidos em diálogo com mestras de tradições afro-brasileiras.

Entre os próximos projetos da plataforma estão o Festival Internacional de Arte Afrodiaspórica e o Prêmio Oríkì de Arte Afrodiaspórica, iniciativas voltadas à valorização, circulação e reconhecimento daqueles que atuam no campo da arte afrodiaspórica.

A Oríkì pretende expandir continuamente sua comunidade, sua galeria digital e suas parcerias institucionais, fortalecendo a circulação de conteúdos, saberes e produções negras em âmbito nacional e internacional. Mais do que uma plataforma digital, a Oríkì se constitui como um espaço de aquilombamento, memória e afirmação da arte afrodiaspórica como campo legítimo de criação, produção de conhecimento e existência.