Caderno de Sábado

Para trazer à luz os acervos audiovisuais

Jornalista cultural Roger Lerina, cocurador da Mostra de Acervo do 15º Cine Esquema Novo – Arte Audiovisual Brasileira, que segue até 23/2, analisa a evolução do CEN ao longo dos seus 22 anos

"Quebrante", produção com 23 minutos, de 2024, tem direção de Janaina Wagner, de Alagoas, e está na Mostra Competitiva Brasil, do Cine Esquema Novo 2025
"Quebrante", produção com 23 minutos, de 2024, tem direção de Janaina Wagner, de Alagoas, e está na Mostra Competitiva Brasil, do Cine Esquema Novo 2025 Foto : Sofia Tocari / Divulgação / CP

Ao completar 22 anos, o Cine Esquema Novo (CEN) consolida uma proposta de diálogos e borramentos entre cinema e artes visuais iniciada em 2022 com a exibição lado a lado de obras do acervo do festival com trabalhos audiovisuais de artistas integrantes da coleção do Museu de Arte Contemporânea do Rio Grande do Sul (MACRS), em uma exposição na Galeria Sotero Cosme da Casa de Cultura Mario Quintana. Uma das seis mostras do 15º Cine Esquema Novo – Arte Audiovisual Brasileira, que ocorre de 14 a 23 de fevereiro em Porto Alegre, com entrada franca, a programação especial vai exibir obras de instituições gaúchas cujos acervos abrigam produções em videoarte, filmes de artista e registros de performance. Além do CEN e do MACRS, participarão da Mostra de Acervo o Museu de Arte do Rio Grande do Sul (Margs) e a Fundação Vera Chaves Barcellos (FVCB). Nos dias 22 e 23 de fevereiro, a Cinemateca Capitólio exibirá quatro programas com obras audiovisuais dessas instituições. Cada acervo terá uma sessão própria com trabalhos selecionados por uma curadoria especialmente formada pelo CEN, integrada pela gestora e produtora cultural Jaqueline Beltrame – uma das sócias fundadoras e diretora geral do festival – e por mim. Trata-se de uma oportunidade única para o público conhecer trabalhos de artistas locais, nacionais e estrangeiros, históricos e contemporâneos, raramente exibidos.

Essa programação potencializa duas ênfases curatoriais que perpassam desde sempre o CEN: o interesse por obras, artistas e estratégias expositivas que proponham aproximações e fricções entre os campos da visualidade; e a valorização e ressignificação das experiências pioneiras e históricas de criadores que exploraram e tensionaram as fronteiras porosas entre cinema, vídeo, performance e artes visuais.

O festival foi inovador no Brasil ao contemplar os mais diversos suportes audiovisuais – dos filmes em película, rodados em todas as bitolas, às obras digitais produzidas com uma miríade de tecnologias e aparelhos –, em qualquer duração e gênero. Tal inclinação libertária qualificou o CEN como plataforma privilegiada no país para a divulgação de trabalhos audiovisuais inovadores, ousados, contemporâneos. Essa abertura desde sua origem à experimentação coerentemente deu guarida não apenas a realizadores ligados ao cinema e ao vídeo, mas também a artistas em geral associados às artes visuais cuja poética inclui também a produção audiovisual. Também de maneira orgânica, logo o festival espraiou-se para além do ambiente físico cinematográfico, buscando igualmente ocupar lugares expositivos não identificados com as salas de exibição convencionais como galerias, museus, espaços públicos e os meios digitais da internet.

Reverberar o presente e antecipar o futuro é uma das vocações do festival. O CEN, no entanto, nunca perdeu do horizonte a perspectiva dos processos: a produção atual é necessariamente uma resposta ao que foi feito antes – e o olhar retrospectivo para o audiovisual realizado ontem no Brasil e no mundo sempre teve espaço na programação. A Mostra de Acervo pretende dar visibilidade a essa variada e potente produção pregnante, porém virtualmente em estado de latência: pela primeira vez, quatro das mais vigorosas coleções de trabalhos artísticos audiovisuais do estado ganharão exibição pública em uma mesma programação por meio de abordagens curatoriais que destacam suas singularidades, particularidades, recorrências e temáticas. Trata-se de iniciativa inédita que contempla a memória do audiovisual – não apenas gaúcho, mas também nacional e internacional – e pretende ocupar cada vez mais espaço dentro do próprio festival, estimulando tanto as instituições participantes da Mostra de Acervo quanto outras similares a exibirem em maior quantidade e frequência as obras de videoarte de suas coleções.

Colocar essa produção não somente em circulação, mas também em discussão: com essa programação específica, o CEN convoca o sistema das artes local a avaliar a importância e a percepção que os trabalhos audiovisuais ocupam em seus acervos e regimes expositivos. Trata-se de sintoma mais amplo, que extrapola o âmbito regional: a videoarte e as linguagens audiovisuais correlatas costumam não merecer a mesma atenção e deferência das instituições e do público que expressões artísticas tradicionalmente consagradas. Esses amálgamas de cinema, artes visuais, performance e tecnologia ainda são vistos com desconfiança e carecem de validação cultural plena – ainda que o flerte do cinema desde seus primórdios com outros campos da criação imagética tenha gerado uma vigorosa produção audiovisual, potencializada a partir dos anos 1960 com a incorporação do vídeo e posteriormente das tecnologias digitais.

Essa problematização provoca o próprio CEN a repensar suas atuações e inserções. A Mostra de Acervo serve também de estímulo para o festival assumir ainda mais assertivamente a missão de difundir e tornar acessíveis a pesquisadores e público em geral a copiosa coleção de filmes e vídeos que vem coligindo desde sua criação – parte sob custódia da Cinemateca Capitólio. O Cine Esquema Novo não é apenas um festival, ele possui um acervo que merece e deve ser visto. Essa percepção para além do evento pontual, aliás, está por trás também de outros programas dessa 15ª edição, como a chamada CEN Descobrindo Talentos, o seminário Pensar a Imagem e a oficina Câmera Causa: mais do que exibir filmes, o festival quer fomentar a produção artística, ajudar na formação de profissionais da cultura e estimular o público a refletir sobre o audiovisual.

A Mostra de Acervo consagra enfim a devoção do CEN ao cinema expandido e autoral cotejando títulos de sua coleção com relevantes obras audiovisuais de três das mais importantes instituições artísticas do estado. O garimpo feito nos acervos do Margs, do MACRS e da FVCB traz à luz um veio poético pulsante que precisa circular ainda mais no meio artístico e entre o público em geral. O resultado desse recorte feito em um repositório imagético tão heterogêneo e rico – do ponto de vista formal e narrativo, estético e técnico, de procedência e época – é uma Mostra de Acervo plural, caleidoscópica e inquieta, que dá testemunho de um vibrante corpus artístico ainda a ser desvelado.