Caderno de Sábado

Paris, uma Paixão

Médica, professora e fotógrafa, Miriam da Costa Oliveira fala da mostra na Casa da Memória até 21/8 e de seu livro sobre a capital francesa

Mostra “Paris, uma paixão”, em exibição na Casa da Memória Unimed Federação/RS, com curadoria de Salus Loch e Marta Oliveira, segue no local até o dia 21 de agosto
Mostra “Paris, uma paixão”, em exibição na Casa da Memória Unimed Federação/RS, com curadoria de Salus Loch e Marta Oliveira, segue no local até o dia 21 de agosto Foto : Miriam da Costa Oliveira / Divulgação / CP

A mostra “Paris, uma paixão”, em exibição na Casa da Memória Unimed Federação/RS até 21 de agosto, com curadoria de Salus Loch e Marta Oliveira, foi um parto não planejado. Ao folhear o livro “Minha Paris e um pouco mais”, recém-lançado, o diretor da Aliança Francesa Porto Alegre, Jean-Luc Puyau, me perguntou se eu iria fazer uma exposição com as fotos. Foi aí que nasceu a concepção da mostra, que envolve algumas das fotos do livro e outras inéditas.

Fotógrafa amadora há duas décadas, iniciei com a documentação de viagens. E, conhecendo tantas cidades ao redor do mundo, muitas carregadas de belezas, por que Paris? Porque Paris é única, irradiando história, cultura, arte, arquitetura, gastronomia e mais, enchendo os olhos de quem quiser ver.

A cada retorno há uma lista enorme de lugares a ir, entre novos e revisitas, lista inesgotável para quem lá não reside. Compartilho o amor pela cidade com milhões de pessoas que não apenas a conheceram superficialmente, mas exploraram o interior de palacetes; apreciaram pequenos recortes do acervo de museus (impossível pela riqueza de obras apreciá-los amplamente); percorreram com o olhar sob a luz do entardecer, ambas as margens do Sena; dominaram as linhas de metrô; emocionaram-se com as igrejas e frequentaram feiras de rua... Um amigo reproduziu em texto, confessando não saber a fonte, que todo mundo tem duas cidades: a sua e Paris.

Selecionar as fotos para a exposição foi tarefa árdua: só no livro são mais de 500 fotos e a proposta era de incluir algumas inéditas. As expostas foram tiradas entre 2009 e 2024, as primeiras com uma máquina digital Sony, as últimas com I-Phone. Nunca passeei ao léu em Paris, o que deve ser espetacular. Apenas traço um objetivo a visitar e aproveito o caminho olhando para os lados, para cima e para baixo. Ao fotografar não privilegio monumentos e fachadas de prédios históricos, por estarem todos registrados com maestria por fotógrafos profissionais, e também para fugir da saturação das imagens de Paris. Busco alguma particularidade, um ângulo não explorado, uma luz, um momento especial, um detalhe curioso. Assim, as fotos expostas, mesmo que remetam a pontos turísticos clássicos, contém pequenas histórias próprias, algumas das quais passo, como exemplo, a comentar.

Uma das fotos foca a base da flecha no telhado da Catedral de Notre Dame. Ali encontram-se 14 estátuas, entre as quais os 12 apóstolos, num verde claro chamativo. O registro é de 2014. Pois essas estátuas, dias antes do incêndio de 2019, tinham sido retiradas para restauração. Em 2023, uma exposição temporária na Cité de l’Architecture et du Patrimoine, de nome Notre-Dame de Paris, trazia acervo relacionado ao incêndio (incluindo o galo que encimava a flecha, avariado) e mostrava as estátuas recuperadas. Vi, pasma, reluzentes estátuas negras e questionei a moderadora se eram cópias. Não, eram as originais que, com o passar do tempo e a oxidação do bronze, tinham esverdeado; em 40 anos estariam verdes novamente. Então, a foto agora exibida não pode ser vista por ninguém nos próximos anos.

Outra legenda necessária é a da foto do Museu do Louvre, que mostra uma pirâmide invertida num dos acessos à entrada do museu, num ambiente inacreditavelmente deserto, sem passantes ou vigilantes. Estávamos na pandemia e eu caminhava por lá muito cedo.

Outro momento especial é a vista da Champs-Élysées, sentido Praça da Concórdia - Arco do Triunfo, sem nenhum veículo. O trânsito havia sido bloqueado em função de algum desfile ou manifestação, não recordo. Naquele momento, me posicionei no meio da avenida para fotografar. Em Paris vivenciei esta situação outras vezes, como fotografar do meio da rua o eixo da Igreja da Madeleine - Assembleia Nacional e também a rua Rivoli. Aliás, gosto muito de, sempre que possível, caminhar no leito da rua e não nas calçadas, mesmo em Porto Alegre. Permite uma visão em perspectiva mais ampla e traz um sentimento de liberdade.

Outra foto retrata em primeiro plano alguns dos coloridos autômatos da praça Stravinsky, tendo no fundo a Igreja Saint-Merry, no momento com instalações artísticas nas janelas. São, na mesma foto, três camadas temporalmente distintas: uma construção do século X, esculturas do XIX e arte contemporânea.

Entre as fotos, há jardins, pontes, obras de arte, telhados, o relógio original da estação de trem que abriga o Museu d’Orsay, um antigo portão das muralhas, a fachada tradicional de uma pâtisserie e a modernosa de uma Dior, igrejas, vitrais muitas folhas de outono

Eu poderia comentar o porquê da seleção de cada uma das fotos, inviável no espaço desta coluna, mas gostaria, no entanto, de citar uma das fotos do livro que não está exposta, a dos flamingos em Paris. Ela foi comentada em texto por um dos nossos escritores maiores, Armindo Trevisan. O mestre relatou que, mesmo tendo residido uma temporada em Paris, ninguém o fez conhecer os flamejantes flamingos do Jardin des Plantes antes de encontrá-los no livro “Minha Paris e um pouco mais”. Esta foto faz conjunto com tantas outras que, sem legenda, não seriam bem compreendidas por quem não as vivenciou. Discordo de um preceito fotográfico que reza que uma foto deve se bastar: creio que algumas sim, outras não. Além da técnica e beleza intrínseca, um contexto pode torná-la especial e expandir a lembrança do visto e a curiosidade do espectador. O prazer da fotografia ultrapassa o instante.

Deixo agora para trás restos de muralhas que circunscreviam Paris, o rio, as igrejas, as flores, museus, as fachadas com suas esculturas e máscaras, cúpulas, gárgulas, os tetos pintados, os trabalhos em ferro nas grades e maçanetas... não me deixem escrever mais...

Salus Loch, um dos curadores da exposição, diz em sua apresentação e em linguagem poética que ela reflete uma Paris íntima, tátil e cromática, num diário visual de afetos. É com este espírito que os convido a visitá-la e compartilhar belezas e curiosidades.