Caderno de Sábado

Performances Invisíveis: A busca de Fernando Bakos pela essência da Arte

O artista, professor e doutor em Artes Visuais, Richard John, escreve sobre a mostra “Subscrito”, de Fernando Bakos, que está em cartaz no V744 Atelier até 6 de setembro

O V744atelier apresentar a exposição "Subscrito", de Fernando Bakos, até o próximo dia 6 de setembro
O V744atelier apresentar a exposição "Subscrito", de Fernando Bakos, até o próximo dia 6 de setembro Foto : Fernando Bakos / Reprodução / CP

Fernando Bakos é um artista multifacetado que encontra possibilidades expressivas na mesma medida expansiva de seus talentos e experiência. Música, vídeo, performance, instalação, desenho, pintura, iluminação, cenografia e design são alguns dos recursos que ele utiliza quase como extensões naturais de suas habilidades. Em sua obra, os meios são técnicas a serviço de sua grande inventividade e das curiosas questões que nos propõe. Deste artista, podemos sempre esperar surpresas.

Nos anos 90, Fernando Bakos estudou com Laurie Anderson e Meredith Monk, duas artistas inovadoras de grande importância no cenário da vanguarda nova-iorquina e mundial. Essas artistas, ao trabalharem com uma rica variedade de meios, especialmente música e performance, se destacaram pela exploração sistemática de novas possibilidades expressivas dentro de suas poéticas. Chamadas de "artistas multimídia" nos anos 80, essa denominação hoje parece redundante, pois a multiplicidade de meios é uma prática assimilada, mesmo quando utilizada em paralelo com técnicas tradicionais como pintura e desenho. Para Bakos, essas distinções não fazem sentido; todos os meios disponíveis à arte compõem um vasto repertório que ele explora e utiliza. Seu trabalho é essencialmente híbrido: áreas de conhecimento, categorias e conceitos, mesmo que distantes, tornam-se intercambiáveis e fluidos, num proceder eclético que amplia as possibilidades de sua arte, que hoje pode ser simplesmente denominada performance.

Embora a natureza inicial da performance seja uma "ação performativa", algo que ocorre no tempo, Bakos nos propõe elevar esse conceito a um "estado de performance", onde o fluxo temporal perde sua linearidade, sendo percebido e ampliado verticalmente, concentrado na atualidade do momento presente e na infinita potencialidade dos acontecimentos. A natureza potencial desse experimento expande a performance ao estado de presença do observador, desafiando-o não apenas em seu momento sensível, mas também exigindo que ele tenha a coragem de se situar, enquanto ser no mundo, entre a frágil efemeridade do instante e a sublime eternidade do presente. É desse lugar, do aqui estou ou do aqui sou, onde também sentimos o sutil ruído da circulação em nossas veias, que podemos de fato ver e interagir com as obras de Fernando Bakos.

Ao questionar os limites da noção de performance e a importância de sua relação com o espectador, Bakos criou, no início de 2010, uma série conceitualmente desafiadora chamada "Performances Invisíveis". Estas consistiam em ações (ou infra-ações) onde o único observador era o próprio artista no momento de sua realização. Nessas performances, a ação não se dava para um público, mas por e para um observador — o próprio artista. Essas ações traziam consigo questionamentos sobre sua suficiência (qual o gesto mínimo de uma performance?) e a necessidade de registro (até que ponto a documentação e divulgação da performance são necessárias?), questões que eram a própria essência da situação-limite proposta pelo artista.

Esse estado mínimo, essa diferença infinitesimal entre ser e não ser — do artista, da obra, da arte — evoca dois experimentos paradigmáticos da física moderna: o da "Dupla Fenda" e a proposição do "Gato de Schrödinger". O primeiro realizado como experimento prático, enquanto o segundo é uma especulação teórico-filosófica. Ambos os experimentos demonstram como determinadas margens colapsam pela presença e a observação: onda e partícula, prática e teoria, arte e física, em suas distâncias e proximidades, se entrelaçam e chegam, praticamente, à mesma conclusão: a presença do observador é fundamental para o acontecimento de qualquer experiência. A presença cria realidades.

Se a relação entre momento e realidade, arte e ciência, observação e experiência parece complexa ou paradoxal, conjurando uma situação geral de perplexidade, isso só é possível enquanto sintoma mais aproximado do estado das coisas, do estado da arte e do estado da ciência. Há uma correspondência nas linhas que contornam essas diferentes disciplinas. Categorizações se diluem e se sobrepõem, como um jogo que precisa ser inventado, reinventado, arbitrado e jogado dinâmica e simultaneamente. É necessário que um autor/observador o subscreva e endosse. É preciso reconhecer o texto que subjaz ao caos (ou à ordem) aparente, encontrar a fórmula que nos levará para além do princípio de incerteza ou, ao contrário, assinar nossa rendição a ela. Esses sintomas, ou sintonias, são o subscrito que dá nome à exposição atualmente oferecida no V744 Atelier.

Os trabalhos de Bakos parecem propor, por meio da arte, um experimento para vivenciarmos o paradoxo que enfrentamos diariamente ao confiarmos, diligentes e talvez um pouco ingênuos, em nossas pequenas percepções e certezas cotidianas. São enigmas que questionam, paralela e conjuntamente, até mesmo a hipótese de sua resolução, refletindo um estado de coisas no qual estamos imersos, voluntariamente ou não, conscientes ou não. O uso de elementos simples, por vezes até banais, misturados com grande efeito a novas tecnologias (obsoletas ou não) e técnicas tradicionais que são reassimiladas e revistas, compõe surpreendentes haikais visuais constituídos como coleção ou bricolagem, jogo ou brincadeira, como um museu vivo de coisas novas, em espera por ressignificação e interação. Semelhante ao haikai, há uma tradição no Zen Budismo que consiste na proposição de parábolas aparentemente insolúveis, chamadas de koans. Estes são temas meditativos e funcionam como charadas que não têm, de fato, uma solução dentro de premissas lógicas ou de uma racionalidade direta. A solução se dará apenas quando a pergunta é entendida em um outro plano, aquém ou além do racional, onde a questão se dissolve.

Haikais e koans têm em comum o estratagema de deslocar a pergunta ou a posição do observador para encontrar novas respostas e perspectivas. Do ponto de vista ocidental, isso poderia ser visto como truque ou magia, numa tentativa de invalidar a resposta e a questão. No entanto, essa forma oriental de resolver problemas e a qualidade de um olhar unicista sobre as coisas influenciaram profundamente produções de vanguarda no Ocidente, como o minimalismo e a arte conceitual, ao trazer um novo parâmetro sensível de transformações. Nomes como John Cage, Allan Kaprow, Yoko Ono e Brian Eno, por exemplo, revolucionaram suas áreas de atuação e ampliaram enormemente as possibilidades que temos de ver e entender o mundo. É entre esses que Bakos encontra seus pares e suas principais articulações.

O nome Bakos evoca Dionísio e saturação de sentidos. Contudo, o artista Bakos evoca um plano oposto de intensidades. Suas (infra)ações operam na fronteira do perceptível e do mínimo, com o intuito e o gesto de intensificar um estado de presença, que é o combustível fundamental da participação. Suas obras são a celebração de um campo de possibilidades onde a arte, em toda sua multiplicidade, revela-se na lúcida surpresa de ser sempre única.

SERVIÇO

  • O Quê: “Subscrito”, exposição de Fernando Bakos
  • Quando: Visitação até 6 de setembro de 2024, de quartas a sextas, das 14h às 17h. Outros dias e horários, agendamento pelo DM do @V744atelier.
  • Onde: V744atelier | Rua Visconde do Rio Branco, 744 | Porto Alegre - RS
  • Quanto: Entrada franca