Cheguei a Paris, como estudante, na ocasião da morte de Édith Piaf. Ainda deslumbrado com a beleza da cidade, faltava-me vivência para entender-lhe a alma. Recordo, porém, dos mil rostos da cantora na televisão, da sua voz poderosa que se ouvia em todos os bistrôs, em todos os lugares. Naquela cidade universal, acalanto de visitantes e refugiados de muitas pátrias, a morte de Piaf ganhava incrível dimensão. E Paris chorava a sua menina que foi cega e recuperou a visão. Que foi prostituta e purificou o povo com seu canto. A mágica Édith Giovanna Gassion que, entre outras diabruras e encantamentos, revelara ao sucesso dois desconhecidos que viriam a ser Yves Montand e Charles Aznavour.
Outubro de 1963. Morria Édith Piaf. De Gaulle comandava a França e sonhava com a Europa unificada. O assassinato de Kennedy já fora decidido. No Brasil, Jango vivia os últimos meses de seu governo. Em Porto Alegre, o Theatro São Pedro funcionava normalmente.
É estranho. Em vinte e um anos de ditadura militar, de desrespeito à liberdade, à justiça, ao direito de discordar do absolutismo, o poder desarmado da cultura sofreu perdas irreparáveis. Por dez anos o Theatro São Pedro esteve mudo, fechado, lacrado, amordaçado. Sua ressurreição, em julho de 1984, época do movimento popular conhecido como Diretas Já, foi mais um sintoma da liberdade que nos chegava aos poucos. Ressurreição mágica feita pelas mãos de Eva Sopher.
Cada detalhe desta nova vida tem o sopro de Eva. Em todos os lugares do Theatro, inaugurado em 27 de junho de 1858, estão as impressões digitais dessa grande mulher.
Entremos pela porta principal. Porque hoje é sábado. Cambistas nos atropelam até os últimos degraus. No saguão, o povo olha avidamente todos os detalhes. Olhares de namorado, olhares de proprietário. Os mais jovens se surpreendem com o recheio saboroso do prédio. Construído num tempo em que se investia largamente em cultura. Em que o casario baixo deixava ver daqui o rio Guaíba e seus veleiros. Tempo dos grandes bigodes e do hábito de honrar cada um dos seus fios.
Subamos as escadas. Placas de bronze recordam velhos feitos teatrais. Um piano de cauda domina o foyer. Quadros de Di Cavalcanti, Glauco Rodrigues, Scliar, embelezam as paredes. Aberta a porta do camarote, o interior do teatro lembra uma miniatura da Ópera de Paris. Piscamos para o imenso lustre e ficamos a contemplar o público que lota plateia e galerias. O primeiro público depois de dez anos de silêncio.
Apagam-se as luzes. Durante duas horas, vivemos a maior interpretação da carreira de Bibi, a filha do grande Procópio Ferreira. O avatar de Bibi e Piaf. De forma tão absoluta, tão convincente, como se estivesse em outro corpo a alma errante da cantora imortal. Emocionado até as lágrimas, revejo Paris no dia da morte de Edith Piaf. E entendo afinal toda a mágoa da cidade que a perdeu.
Eva Sopher, Édith Piaf, Bibi Ferreira. Três mulheres mágicas reunidas num único corpo. O corpo do Theatro São Pedro que acaba de ressuscitar.
Quarenta e dois anos se passaram. Estou a caminho do Theatro São Pedro, outra vez fechado para reformas. Mas, ao lado dele, através das mãos de outros construtores de catedrais, como Antônio Hohlfeldt, tomou forma o sonho de Eva Sopher, o Multipaco com seu nome. E aqui, no dia de hoje, quarta-feira, 24 de junho de 2026, no espaço denominado Oficina Olga Reverbel, também uma saudosa amiga, vai se realizar o espetáculo Edith Piaf, uma história contada em canções. Curiosamente, ao meio-dia e trinta minutos. Porque hoje jogaria a seleção brasileira na Copa do Mundo. Mas só às 19h... (O Brasil venceu a Escócia por 3 a 0)
Pouco importa se é hora de almoço. O espaço está lotado e, durante quase duas horas somos embalados por mais uma ressurreição de Edith Piaf, agora pela voz e expressão teatral de Luana Pacheco. Acompanhada, como ela os apresenta: pelo piano de Luciano Leães, meu marido, o violino de Miriã Farias, minha melhor amiga, e o acordeon de André Vicente, meu querido colega de faculdade.
Encantado, depois de aplaudir de pé, sou tentado a acrescentar o nome de Luana Pacheco ao lado de Bibi Ferreira como outra mulher capaz de ressuscitar Édith Piaf. Sem esquecer a menina que leva dentro de si, e nos diz que vai nascer este ano. Talvez a quinta mulher mágica?