Caderno de Sábado

‘Pluribus’ busca sinais do que nos faz humanos

Artigo escrito pela jornalista Leticia Heinzelmann aborda a série sensação de 2025, do criador de “Breaking Bad”, que explora mundo em que a felicidade é uma obrigação a ser combatida

Cena da série "Pluribus", que teve a primeira temporada encerrada no dia 24 de dezembro, com nove episódios, Na foto, Carol Sturka (Rhea Seehorn) e Zosia (Karolina Wydra) em cena da série
Cena da série "Pluribus", que teve a primeira temporada encerrada no dia 24 de dezembro, com nove episódios, Na foto, Carol Sturka (Rhea Seehorn) e Zosia (Karolina Wydra) em cena da série Foto : Apple TV / Divulgação / CP

Leticia Heinzelmann

Em “Notas sobre ficção interplanetária”, H.P. Lovecraft diz que a função de uma boa história “é expressar um sentimento humano de espanto e libertação” e que, na impossibilidade de verossimilhança de um conto fantástico, resta manter-se fiel “a certos estados melancólicos ou inquietos do espírito humano”. Se em seu clássico “A cor que caiu do espaço”, a queda de um meteoro traz uma estranha aberração cromática que altera tudo ao redor e causa terror, em “Pluribus”, nova série de Vince Gilligan, cuja primeira temporada já está disponível na Apple+, um sinal captado nos céus intriga cientistas e, por fim, também altera tudo ao redor e nos apresenta à melancólica e inquieta Carol Sturka, em sua jornada por libertação.

Gilligan, famoso pelas aclamadas séries “Breaking Bad” e “Better Call Saul”, não é um estreante na ficção científica. Ele foi roteirista e produtor de “Arquivo X”, sucesso dos anos 1990 e 2000 sobre uma conspiração alienígena e governamental, tão aclamado que ainda teve duas temporadas lançadas na década passada. Agora, ele retorna ao gênero e mantém o primor estético que marca seu trabalho. “Pluribus”, protagonizada por Rhea Seehorn (que viveu Kim Wexler em “Better Call Saul”), foi lançada com uma sinopse bastante vaga, sem entregar muito do que viria pela frente: “A pessoa mais miserável da Terra precisa salvar o mundo da felicidade”.

O ritmo é lento, mas cada cena é repleta de significado, exigindo a atenção do espectador e a retribuindo com respeito, sem os diálogos ou flashbacks excessivamente fáceis e explicativos. A mensagem vinda do espaço, sintetizada em laboratório, contagia toda a espécie humana, que se funde em uma grande consciência coletiva – e supostamente feliz. Mas, como em todo contágio, há indivíduos imunes. E a forma como cada um deles reage à nova realidade é repleta de humanidade, embora este conceito se revele muito particular.

Seguimos Carol desde pouco antes da “invasão”, ela própria escritora de uma saga de fantasia e que, apesar do sucesso de vendas, está insatisfeita com sua produção literária. Com a fusão das mentes, a protagonista se vê solitária em sua individualidade, embora cercada de pessoas que sabem tudo sobre ela e estão dispostas a fazer qualquer coisa para agradá-la. Logo, começa sua jornada para tentar reverter o processo, e descobrimos que há outros 12 “sobreviventes” ao redor do mundo.

A série não usa recursos fáceis, como pressupor que todos falem inglês, configurando a primeira barreira para Carol expor suas preocupações aos demais. Somos apresentados, portanto, a apenas alguns dos imunes, com suas próprias percepções sobre o novo cenário mundial. De cara, surge uma preocupação bastante humana, que se reflete em qualquer pesquisa de opinião pública ou processo eleitoral: a segurança. Desde o contágio, o mundo é pacífico e isso, por si só, parece um argumento que mobiliza a maioria dos presentes nesse primeiro encontro. Podemos afirmar que o medo, de fato, é um sentimento muito humano.

Adentramos aos poucos também no percurso hedonista do pragmático Diabaté. Não exatamente o hedonismo moderado de Epicuro, focado numa vida simples, mas sem dúvidas uma busca por prazer como estilo de vida, o que inclui um harém de belas mulheres, carros de luxo e – por que não? – um avião presidencial. Tudo fornecido de bom grado pelos “outros”, que não negam nada (mesmo) ao grupo imune para fazê-lo “feliz” – e convencê-los dos benefícios de integrar a colmeia, assim que for possível “curá-los” de sua individualidade.

Para Carol, tamanha dedicação é suspeita. E a desconfiança é também um sentimento muito humano. Em sua primeira interação com Zosia – sua “chaperone”, termo traduzido como supervisora, mas que parece ter mais camadas no original –, ela logo percebe a semelhança da enviada com o personagem central de sua obra e identifica sinais de manipulação por parte da colmeia – embora, em sua solidão, não consiga resistir ao bombardeio de charme para sempre. O ser humano, afinal, é um animal social.

Mas, toda regra tem sua exceção, e também somos apresentados ao paraguaio Manousos, personagem que, ao que parece, já levava uma vida solitária antes mesmo do fenômeno. O vemos resistir a (quase) todo tipo de contato, enquanto busca algum outro sinal nos céus, a partir de ondas de rádio. Se Diabaté está dedicado à filosofia do prazer, Manousos segue à risca a ética capitalista e da propriedade privada e está convicto de que deve pagar por tudo que necessitar consumir em sua jornada, mesmo que não haja ninguém para cobrar.

Ser fiel ao capitalismo é sua forma de resistência e se configura como um traço de humanidade. Bem como o ódio. Ao longo da temporada, vemos poucas interações do personagem, mas em determinado momento podemos contabilizar uma série de desrespeitos a mulheres – indícios de uma misoginia que não deve passar batido para Carol. Em contraponto, a colmeia é guiada pelo bem coletivo e pela otimização de recursos.

Sendo uma série sobre a humanidade e o que nos torna únicos, é natural e louvável que Gilligan tenha optado por produzi-la sem recursos de inteligência artificial. Cada episódio traz, ao final dos créditos, a mensagem “Esta série foi feita por humanos”. O meta-comentário reforça a dualidade entre criação humana e automação.

Ao apresentar respostas tão díspares à promessa de felicidade – seja segurança, prazer, ordem ou pertencimento – “Pluribus” se mostra mais que uma ficção interplanetária, mas um ensaio moral, sobre o que estamos dispostos a abrir mão para viver sem dor. A série não oferece soluções fáceis, heróis nem vilões evidentes: o horror não nasce do desconhecido cósmico, mas da constatação de que sentimentos “ruins” também são constitutivos da experiência humana. Como em Lovecraft, o espanto não vem apenas do que chega do espaço, mas do abalo interno que isso provoca. Ao transformar a felicidade em um projeto coletivo obrigatório, Gilligan nos devolve uma pergunta incômoda: se a liberdade implica conflito, imperfeição e sofrimento, estamos realmente dispostos a abandoná-los? Resistir não é apenas sobreviver à colmeia, mas insistir na fragilidade de ser singular – mesmo que isso custe caro.