Ler a obra de A. C. Secchin é percorrer trilhas e versos, sondar labirintos da linguagem, andar de mãos dadas com uma memória poética refinada. Sua intimidade com a poesia vem da frequentação dos melhores poetas, com os quais dialoga, reavivando vozes a partir da sua escuta. O poeta cita, recria, parodia, reinventa imagens e versos alheios, abrindo frestas aos leitores, que podem encontrar ecos nem sempre explícitos de Drummond, premissas de João Cabral, fumos da poesia romântica, arroubos extraídos de Camões.
Escrever sobre a poesia de Secchin é irrecusável, uma vez que está em pauta um heroico mestre da palavra em nossa língua. Designá-lo como “escritor de poesia” (poeta) não alcançaria a sua multiplicidade, matriz do finíssimo leitor, crítico da melhor valia. Mestre e Doutor em Literatura Brasileira pela UFRJ, Professor Emérito da Faculdade de Letras, além de Professor convidado em universidades europeias, canadenses e brasileiras. Integra ainda a plêiade de escribas da Academia Brasileira de Letras, da qual é atualmente secretário-geral, sem falar no seu perfil humano desde sempre valorizado.
Tal desdobramento já vinha sendo ampliado ao “ensinar” poesia, escrever poemas, escrever sobre poesia, interpretar obras alheias desde os clássicos até os mais novos. Além disso, analisa e interpreta a sua própria obra poética, o que é mais raro na tradição, ao que se sabe. Quer na fronteira de um ou de outro é poeta sempre.
E se o poeta, um “operário da linguagem”, destina-se não só a analisar versos seus e alheios, mas a refletir ainda sobre o ofício em si ? : “o alvo de sua palavra é instável e flutuante, abarca a rigor muitos meandros da experiência humana, em suas calmarias e convulsões, em sua sede inesgotável do ínfimo e do absoluto, na inestancável demanda de novos sentidos”.
Ao longo da obra, que se aproxima de 20 livros, Secchin busca espreitar a poesia na sua “essência”, alertando o leitor sobre tropeços (cegueira) que podem – pela aceleração – reduzir ou incapacitar a leitura de um tipo de composição tão límpida quanto densa: “em busca de um núcleo ou do nervo de um real sufocado sob um turbilhão de palavras...” (DESDIZER. Escutas e escritas). Por uma fresta, então, alguns olhares alcançariam “variações de espanto e de resposta em busca da linguagem, de uma formulação irrepetível que resgate da morte a fulguração da beleza.” Como um alerta sobre “manifestações ostensivas” do nosso tempo, como o simulacro, o virtual, o desterritorializado, leiam-se poemas que assim iniciam.
Poemas são palavras e presságios, / pardais perdidos sem direito a ninho.
ARTE
...mero cantor de uma fome sinfônica...
REPENTE
De tanto saber de palavras, o poeta inaugura o livro DESMENTIR de 2026 com um outro método: é certo que me refuto, citando Drummond para armar seu mais recente tabuleiro. Anteriormente, no livro DESDIZER (2017), dava as tintas da “essência”, ao longo do tempo muito bem realizada. Como se não fosse à partida um mestre, vai alertando sobre tropeços ou “cegueira” que podem – pela aceleração – reduzir ou incapacitar a leitura de composições tão densas quanto límpidas.
Ultrapassando a pele das palavras, seria buscar um núcleo ou o nervo de um real sufocado sob um turbilhão de palavras... um lado além do outro lado, como uma quarta margem... (DESDIZER)
DESMENTIR chega como um voo breve que carreia em si nada mais que a própria poesia, então liberta de vezos acadêmicos e outros preceitos até ideológicos. Como “trapaça de linguagem”, o poema Brinde é festa, ergue-se livre, desalojando obviedades, relações de causa e efeito, regras de ponto final. Joga e brinca com o instantâneo, desafiando o fluxo contínuo do tempo, que pode gerar o previsível.
Enchi de sol meu copo d´agua
e me brindei ao som de um violino.
Me molhei na luz
que a tarde assoviava
e cantei à beira de um silêncio a pino.
Passei por perto de estar quase ali,
Perdi o ponto de onde não parti. Zombei da fome porque havia trigo,
briguei comigo
e só assim venci.
Levei na alma minha alma pássara,
anunciei ao mundo a minha sorte súbita:
tocar na vida sem qualquer trapaça,
mistério zero, delícia igual
ao gozo matinal de uma fruta.
Vida, te agradeço. Setenta anos
e ainda em recomeço.
Virando a página, salta um Poema tirado de uma notícia de poema, quando o tom passa a insinuante, ao ressurgirem eflúvios nominais de Guimarães Rosa, Drummond e Manuel Bandeira Uma poesia que inebria como cachaça. Assim como o verso levei na mala minha alma pássara, a estrada da vida não tem recomeço, salvo um mergulho final em alguma “margem do rio” evocando novela de Guimarães Rosa.
Segue o poema “Cair na real”, palavras corriqueiras, poderia ser lido como prosaico ou transparente. Contudo, há truques, violações da expectativa, uma música de fundo, quase um desprestígio atual ao fazer poético pela baixa cotação da poesia. Poemas como João Mané se constroem face a banalidades que escondem controvérsias maiores. Tal uma espécie de calote nas categorias de tempo e espaço, disrupção da lógica, esfarelamento do sentido. (...) Mas para vir comigo/ tem mais que ser ligeiro/você está na Espanha,/já estou em fevereiro.
Em “Dez Sonetos Malcriados”, outra série de DESMENTIR, um Soneto a Capitolina acentua a tonalidade entrando no riso à larga. O nome da personagem Capitu do romance “Dom Casmurro” já no título do soneto tem seu nome mesclado ao de Carolina, mulher portuguesa com quem Machado de Assis casou na vida real. Aí os leitores poderão emitir um sorriso provocado. Como se não bastasse a perspicácia, o nome Carolina tem a sonoridade das vogais em sintonia com as de Capitolina, provocando na leitura a memória e o senso de humor. Ainda as três sílabas coincidentes nos nomes das personagens também provocam dúvidas, certamente não tão eternizadas como aquelas que pairam até hoje sobre interpretações sobre a “traição” de Capitu. Poesia como jogo, troca, superposição de sentidos, ironia, com efeitos de aguçar a percepção ou a memória do leitor, que pode reencaminhar-se ao suceder das páginas do romance de 1899.
Ainda em DESMENTIR, vale encarar o Soneto do corretor ortográfico, que conduz o leitor ao riso e à constatação de tudo o que pode advir de tal adjuvante automático, que comparece sem ser convidado e arrisca-se a chegar a tais resultados, como formula o poeta A.C. Secchin: Ela contou tudinho, tim-tim por tim maia. Seria o verso chocante? Ou estímulo para qualquer escrevente de hoje poder libertar-se do corretor que invade o texto inadvertidamente na ânsia de corrigi-lo ou suplantá-lo? Analfabetismo? De quem? Descarto o apocalipse, mas não endosso o coro dos contentes... anunciava o poeta no livro DESDIZER. Com mais uma etapa do livro, “ABECEBICHO” nos conduz em modo Inteligência à necessária reflexão.
Secchin refere ainda o momento em que abandona certa “opulência metafórica” em prol da inserção do humor e de uma atenção especial para com a comunicabilidade do texto. Percebem-se então desvios em favor da possibilidade do riso ou da inserção do humor num território nada enganoso. É quando, para esta leitura do nosso poeta, abre-se a possibilidade de ir a Henri Bergson, filósofo e diplomata francês, que viveu entre 1859 e 1941. Nobel de Literatura em 1927, autor de obra consistente como “Matière et memoire, Essais sur les données immédiates de la conscience, Les deux sources de la morale et de la réligion”, entre outras tantas. Justamente no livro “Le rire” (O riso), encontram-se conceitos e raciocínios no âmbito do riso e do cômico, que se valem de interpretações de Shakespeare, Molière e Cervantes, além de conceitos do cômico e outras possibilidades. Entre as várias interpretações do riso, Bergson estuda o cômico em suas formas de linguagem e de situação, alcançando os meandros da paródia, do provérbio e do paradoxo.
Apagar de mim a memória inteira, / Regressar à árvore de que fui cadeira.
A poesia é diáfana, o poema é carnal.