Cores, sons, cheiros. Tudo ganha destaque no livro de estreia de Camila Maccari. ‘Dias de Se Fazer Silêncio' é uma história sobre luto. Mas é também uma história sobre família, maternidade e solidão. O romance, vencedor na categoria Narrativa Longa do Prêmio Açorianos de Literatura, acompanha Maria - uma criança lidando com a doença terminal do irmão. O Caderno de Sábado conversou com a autora sobre o desenvolvimento da personagem e a relação de Camila com a literatura. (Carol Grüne)
CS - Qual é a tua relação com a literatura e como surgiu a inspiração para escrever teu livro de estreia?
CM - Com a literatura a minha relação é de total pertencimento, desde sempre. Quando eu não entendo o mundo ou entendo demais, quando eu quero ou não quero, ela pega na minha mão e ajuda a elaborar, entender, criar, perceber. O meu contato com a literatura sempre foi uma das maiores pulsões de vida pra mim. Aí a escrita, em determinado momento muito cedo, começou a acontecer também, primeiro a nível íntimo, privado, uma espécie de sublimação. Ainda criança e adolescente, antes que eu pensasse no livro, o ato de escrever e criar personagens e histórias já era íntimo. Eu amava e fazia muito. Mas acho que foi durante a faculdade de jornalismo que eu comecei a entender a literatura como um caminho para fazer parte de uma construção coletiva, a querer escrever para ser lida e para trocar. Quando terminei a faculdade, fui fazer o mestrado em Escrita Criativa na PUCRS. Eu precisava escrever um trabalho de conclusão de curso e tinha me comprometido com essa história, nem lembro exatamente quando ela se completou na minha mente. Lembro quando comecei a escrever, mas não o momento original.
CS - O livro traz sentimentos complexos sob a perspectiva de uma criança. Maria sente o luto, a culpa, a tristeza e tenta também compreender os sentimentos dos adultos e crianças à sua volta. Como é acompanhar a história sob a perspectiva de uma menina de 11 anos e qual foi o teu exercício para compreender esse ponto de vista?
CM - A narrativa tem como foco a perspectiva da Maria para as dinâmicas familiares e o adoecimento do irmão e por isso foi preciso elaborar a complexidade do olhar de uma criança. Eu queria um narrador que desse conta dessa personagem, que funcionasse quase como uma primeira pessoa e foi essa busca que me ajudou, inclusive, a ditar o ritmo acelerado da narrativa em certos momentos, como se o narrador estivesse dando conta de tudo o que passava na cabecinha de Maria. E, pra isso, eu me inspirei no ensaio como forma, como construção de uma ideia que vai ficando clara à medida que a gente escreve. A Maria tem muitas certezas que vão caindo por terra, é verdade, mas o que ela mais tem são dúvidas e ela anda bastante em volta de duas questões. Além disso, outros discursos narrativos me ajudaram a contar a partir desse ponto de vista, como a fixação dela por encontrar uma cor por cada situação. Quanto a fazer isso de forma verossímil, que espero ter conseguido, acredito que vem de um exercício permanente de empatia, de entender a criança como, muitas vezes, uma figura fragilizada que precisa orbitar em volta de comportamentos e sentimentos adultos e não tem o direito nem a uma conversa sincera, sabe? A própria Maria, infelizmente, é essa criança. Escrever a partir do ponto de vista de uma criança é um exercício complexo e desafiador em certo nível porque tem muito risco de ficar ou inverossímil ou, sei lá, irritante, justamente pela dificuldade de dar voz a esse tipo de personagem.
CS - A história aborda a maternidade e a relação da filha, a personagem principal, com sua mãe. Esse momento da descoberta da doença terminal do irmão e do luto faz a filha perceber a mãe de jeitos novos. Qual é a importância da abordagem dessa relação da mãe e da filha na construção da narrativa?
CM - A mãe se transformou aos olhos de Maria a partir do momento em que descobriu que o irmão mais novo tinha uma doença grave. Então, durante boa parte da infância, a Maria perdeu na própria mãe o referencial que ela tinha, porque a mãe precisou atender demandas mais urgentes do irmão. A partir daí Maria começou a pensar na morte inevitável do irmão como a solução para essa falta materna, acreditando que as coisas pudessem voltar ao normal. E acho que hoje é um consenso de vida né, o normal é relativo e se transforma também. Por um lado, a gente vê que a mãe sofre muito com o filho doente e tenta o máximo que pode não permitir que a outra filha fuja completamente do seu colo. A gente vê o que essa mãe está se desdobrando para tentar fazer, mas Maria é uma criança, ela precisa de mais e fica ressentida com isso. O elo mãe e filha sempre foi o mais fascinante de todos para mim, porque as faltas e os excessos deixam marcas para a vida inteira. A gente precisa do olhar da mãe e nem sempre esse olhar vai dar conta. E a gente precisa também olhar para a mãe. A doença do irmão acelerou um processo que Maria ainda não tinha maturidade de viver, mas a forçou a, de certa forma, entender a mãe como alguém além do seu papel de mãe. Ela ainda levaria alguns anos para passar por esse momento - tem gente que nunca passa, acho. Foi tão dolorido porque foi antes do tempo e essa imaturidade levou a diante toda a confusão de sentimentos que ela vinha sentindo. Ela tinha para onde correr, tinha a tia, tinha a parteira, mas a mãe, em si, ela sentia que não tinha.
CS - Um dos destaques do livro é o luto. Como cada personagem sente esse luto e como a personagem principal percebe esses sentimentos ao seu redor, enquanto ela também está imersa no seu próprio sentimento. Por que a escolha do luto para elucidar essa narrativa de solidão da personagem?
CM - O livro fala de uma espécie de luto antecipatório como um processo caótico presente em boa parte da vida da personagem. O luto é um sentimento muito particular mas que, a certa altura da vida, todos vamos experimentar - em tempos de pandemia, por exemplo, virou uma constante coletiva, embora seja vivido na esfera individual. Na história, esse luto começa muito antes da morte em si, e permeia outras experiências das quais essa família é privada por causa da doença. Existe o luto por várias outras perdas que a iminência da morte de Rui trouxeram. Como, por exemplo, o luto que a Maria vive pela falta de presença da mãe, que a gente pode ver que já está absorvida no seu próprio processo de entender, aceitar e superar essa fase, enquanto ainda atende a todas as demandas do filho mais novo. Essa mãe de repente ausente é um luto para Maria, assim como o irmão de repente terminal. Mas ela é uma criança e não sabe comunicar aos adultos responsáveis por ela o que está acontecendo, como se sente. E, quando comunica, eles não sabem ouvir. Então são nesses espaços de isolamento que vão se criando, onde cada um sente a dor de uma forma diferente e se sente, até certo ponto, incompreendido na sua dor, que a solidão toma conta. Nessa história, é a partir do luto que começam os afastamentos.
CS - A relação das cores e dos sentimentos é algo que aparece frequentemente na narrativa. Quando o alaranjado é associado à felicidade ou o cinza à sentimentos negativos. Além das cores, tu também trazes os sons e os cheiros, como parte de uma experiência imersiva nos pensamentos da personagem. Como foi a escolha de abordar os sentimentos também através das cores?
CM - Esses elementos me ajudaram na hora de construir uma personagem que fosse criança. Maria é muito madura porque os acontecimentos da vida a colocam de frente com sentimentos intensos e ela tenta, em vários momentos, entendê-los. Mas Maria é uma criança. Trazer cores, cheiros e sons, para mim, faz parte de um jeito mais leve e aberto de olhar o mundo, aquele olhar da infância que ainda não é viciado, aquela fase onde a gente vive, de fato, as primeiras vezes. E é também uma forma da personagem tentar resgatar e guardar para si as coisas que ela sente que está perdendo, a normalidade da vida, como quando ela lembra de todos os cheiros que a mãe tinha e que, desde a doença do irmão, a mãe não tem mais. Tipo a comida afetiva, o cheirinho que remete a segurança, a cor que tinha um dia bom. As cores, inclusive, são recursos que ela usa para tentar compreender os sentimentos e fazer associações sempre me pareceu algo da infância, uma tentativa de visualizar e entender o que ela ainda não tem maturidade para formular. No dia da morte do irmão, por exemplo, tudo parecia tão impossível que ela não conseguia associar uma cor específica, ela não tinha capacidade nenhuma de nomear.