Caderno de Sábado

Prestação de contas ao público gaúcho

Ex-presidente da Fundação Teatro São Pedro, Antonio Hohfeldt, presta contas dos seus sete anos e meio de gestão à frente da instituição

Antônio Hohlfeldt apresenta junto com o governador Eduardo Leite e a secretária Beatriz Araujo as obras do Teatro Simões Lopes Neto, que marcou a entrega definitiva do Multipalco Eva Sopher
Antônio Hohlfeldt apresenta junto com o governador Eduardo Leite e a secretária Beatriz Araujo as obras do Teatro Simões Lopes Neto, que marcou a entrega definitiva do Multipalco Eva Sopher Foto : Pedro Piegas / CP Memória

Quando assumi a Fundação Teatro São Pedro, com a morte de Eva Sopher, a convite do governador Sartori, a instituição enfrentava sérias dificuldades de sobrevivência financeira, o que obrigou a nova equipe a reorganizar a fundação sob o ponto de vista institucional. A utopia de Eva Sopher corria perigos.

A Covid, que fez com que todas as atividades sociais fossem suspensas, coincidiu com o final da vigência dos convênios entre a Fundação e a Associação. Como a diretoria de então não aceitava os novos termos propostos, termos explicitados na legislação então vigente, houve a suspensão das relações entre as duas instituições. Também terminava o mandato da diretoria da associação, de modo que, com a ajuda da PGE – Procuradoria Geral do Estado, e da Sedac – Secretaria de Estado da Cultura, buscaram-se alternativas para retomar aquelas relações, dentro dos limites legais vigentes. A eleição de Gilberto Schwartsmann foi decisiva, neste sentido. A associação, hoje presidida por José Roberto Goldim, recém reeleito, tornou-se importante parceira das atividades da Fundação Teatro São Pedro.

A Fundação Teatro São Pedro, que tem sob sua responsabilidade o Theatro São Pedro e o Multipalco (aí incluídos dois teatros, concha acústica, salas de música, de circo, de dança e outros espaços de aulas e de ensaios), abriga ainda a ONG Sol Maior – com musicalização para jovens de periferia – a Orquestra Theatro São Pedro, a Orquestra Jovem Theatro São Pedro, a Companhia de Ópera, cursos variados promovidos pelo Ieacen – Instituto Estadual de Artes Cênicas e outras atividades, sempre que necessário. Sua programação inclui espetáculos de teatro e de dança, recitais, montagens operísticas e um sem número de atividades que se desenvolvem em suas salas. Basicamente, o conceito de “Multipalco” é seguido à risca: a sala de espera recebeu uma pequena galeria de arte (do mesmo modo que o Theatro São Pedro passara a ter uma pequena sala de exposições), onde também se promovem lançamentos de livros.

A Fundação não se limita mais a receber e, na medida da disponibilidade, alocar seus espaços. Enquanto entidade de Estado, a Fundação Teatro São Pedro assumiu uma tarefa também pedagógica junto ao público. Sua programação é composta pelos espetáculos das instituições que nela estão sediadas; pelos espetáculos do centro do país que evidenciam interesse em visitar Porto Alegre e pelas montagens locais. Através de editais desenvolvidos pela Sedac, através do Ieacen, grupos artísticos do interior ocupam os espaços do Multipalco, sem ônus, recebendo ainda ajuda de custo e de deslocamento, com a parceria do Sesc do Rio Grande do Sul, que garante o transporte e o alojamento dos mesmos. Para a programação semestral, a curadoria da instituição acompanha o movimento dos espetáculos do Rio de Janeiro e de São Paulo – às vezes até mesmo de fora do país e, fazendo contato com estas produções, procura viabilizar sua vinda a Porto Alegre. No segundo semestre de 2025, pela primeira vez na história da Fundação, a programação de todo o semestre foi divulgada antecipadamente, no dia 4 de agosto.

Para além das obras físicas que ocorreram, a partir dos decisivos aportes financeiros do Governo do Estado, permitindo a conclusão do Multipalco e o início da modernização do Theatro São Pedro, com ênfase em prevenção de incêndio e acessibilidade a cadeirantes e obesos, a Fundação iniciou um serviço de atendimento a pessoas autistas e outras que necessitam de acompanhamento especial, garantindo a democratização de seus espaços, serviço que tem prevista expansão gradativa ao longo de ano vindouro. Todo o sistema de ar refrigerado do Theatro São Pedro foi substituído e um novo sistema, autônomo em relação a este, foi implantado no Multipalco.

Já foram iniciados estudos para a implementação de uma cobertura móvel na concha acústica, ampliando sua utilização, e a fixação de um memorial da Fundação, no terraço ao lado do restaurante, com vistas para a Rua Riachuelo, cuja passagem de pedestres, ligando-a com a Praça Marechal Deodoro, foi aberta no início deste ano, assim diminuindo seu percurso.

A Fundação recebeu três pianos, em doações ou comodato, alcançando, com isso, disponibilizar um instrumento para cada sala: o Steinway do Theatro São Pedro, ora deslocado para o Simões Lopes Neto, por força das obras; um piano Yamaha na Sala da Música; um piano de meia cauda no Teatro Olga Reverbel e, nos primeiros dias de novembro, estava sendo encaminhado um comodato para a cessão de outro piano Steinway de cauda, para ser instalado no Teatro Simões Lopes Neto, quando o do Theatro São Pedro retornar a seu lugar de origem. Assim, ao final deste ano, todas as salas, incluindo as de dança e de circo, terão seus próprios pianos.

Por fim, também realizamos todo o processo de registro cartorial de todos os imóveis sobre os quais se assenta o Multipalco, que haviam sido desafetados pelo Estado, mas jamais repassados à propriedade da Fundação. Hoje, eles se encontram devidamente registrados. E até o Theatro São Pedro, em funcionamento desde 1858, hoje está devidamente registrado, o que não ocorrera até então.

Desde os primeiros anos desta gestão, e diante das dificuldades financeiras do Estado, a Fundação Teatro São Pedro tem-se esmerado em apresentar projetos e participar de editais que fomentem o financiamento de algumas de suas programações. Mais recentemente, ganhamos um edital promovido por importante empresa multinacional, que será anunciado em breve. É importante que os percentuais de locação sejam acessíveis aos grupos e ao público, mas que garantam a autonomia da Fundação, como a cobertura de despesas com reposição de lâmpadas, consertos de equipamentos técnicos, etc.

Iniciativa importante foi a criação do Prêmio Eva Sopher. Anual, ele destaca artistas e instituições ou pessoas que colaboram com as artes em geral. Criado no ano seguinte ao do falecimento de Eva Sopher, o prêmio alcançou maturidade e hoje é bastante reconhecido em nosso cenário cultural.

Desde o início das obras físicas do Multipalco, iniciamos também estudos para a reorganização administrativa e funcional da Fundação. O quadro de cargos e funções, aliás jamais preenchido pelo Estado, não atende mais às necessidades da Fundação. O que era o Theatro São Pedro agora são três teatros, salas de ensaios ou de estudos, com uma média de mil pessoas-dia, circulando pelos espaços físicos da Fundação.

Enquanto não alcançávamos este objetivo, nossos funcionários são técnicos cedidos do Estado, especialmente selecionados por suas especialidades; contratações através de licitações, sempre necessitando de renovações ou correndo risco de falência das empresas intermediárias, além de uns poucos já incluídos no quadro. Formamos um grupo de apenas 19 funcionários e três estagiários, cinco das quais em cargos em extinção, o que significa que, já estando todos aposentados, quando se retirarem, estes cargos estarão extintos; outros cinco são funcionários cedidos a partir do quadro do Estado.

Esta era a etapa final com que se pretendia coroar as ações em torno da Fundação, iniciadas quando a presidência da Fundação Teatro São Pedro passou a ser nossa responsabilidade. Não concluímos esta etapa, mas esperamos que a nova administração alcance esta meta: a Fundação Teatro São Pedro precisa de um quadro funcional permanente, qualificado e com remuneração digna: a Fundação não pode ter seus funcionários ganhando menos que os demais colegas; isso ocorre porque a Fundação não foi incluída na reforma administrativa realizada há cerca de dois anos, nunca se soube porquê. A utopia e o sonho de Eva Sopher, para prevalecerem, precisam de respeito e de valorização do Estado. Por seus funcionários, pelos artistas e pelo público.