Lembro ainda, mais de trinta anos depois, quando o grupo reunido na casa de Luiz Paulo Vasconcellos, trabalhava/discutia/sonhava sobre questões pontuais do “Porto Alegre em Cena”; o grupo, entre muitas deliberações importantes, decidiu que o festival aconteceria, anualmente, em setembro, mês marcado pela mudança das estações e que, efetivamente, preenchia com cores novas nossa cidade. A primavera era, sem dúvida, a melhor data para a realização do acalentado evento. Consenso. Estopim para deixar vingar um projeto há muito acalentado. E foi uma correria danada, pois pouco mais de dois meses separavam essa decisão da chegada da nova estação. Flores, teatro e dança renovariam os ares da cidade. À beleza natural dos ipês floridos, marca da primavera porto-alegrense, somar-se-ia a beleza humana das artes cênicas.
Em 2025, quando celebramos a 32ª edição do “Em Cena”, ( já?), hoje consolidado como um dos maiores festivais do Brasil, o frio na espinha e as emoções de receber em Porto Alegre tantos espetáculos importantes, se repetem renovados. Muito aconteceu nessas três décadas de festival. Gargalhadas e lágrimas. Sou participante ativo dessa trajetória. A equipe de realização, no entanto, tem em sua espinha dorsal, nomes que conhecem e amam o festival tanto quanto eu. Enfrentamos, tempos atrás, a ideia de alguns poucos, de que a renovação de nomes na organização, traria frescor à realização do evento. Essa é uma ideia de quem não conhece minimamente os desafios de um festival do nível a que chegamos. Como se produzir um grande evento, fosse tarefa cotidiana e fácil. Não é. É preciso conhecer todos os pormenores de uma produção desse porte para atender as demandas e os desafios que um evento assim requer. E, à medida da natural evolução das coisas, é necessário, sim, agregar novos nomes à tarefa de manter acesa a chama artística do “Porto Alegre em Cena”. É preciso, e sempre foi assim, ter paixão, competência e determinação. Mas fico feliz e satisfeito em constatar que mantemos a alegria e o frescor do festival. Mesmo que, por vezes, estejamos à beira de um ataque de nervos, a perseverança e a persistência é marca inconteste da atual equipe do festival. Nomes como Letícia Vieira, Cláudia d´Mutti, Maria Bastos, João Fraga, Rodrigo Shalako, Maurício Moura, Vitor Ortiz, Cátia Tedesco, cada um com funções específicas e determinadas, são nomes estruturantes para que nosso festival aconteça da melhor forma possível. Sempre lembrando que, desde sua primeira edição, o festival é realizado sob o guarda-chuva da Secretaria Municipal da Cultura. Muito importante não esquecer a Secretaria. Hoje, agora, ressalto a presença de Breno Saul Ketzer, que procura nos ouvir e atender. A esses nomes fundamentais, se juntam muitos outros, em funções determinantes para o êxito da realização: produtores de palco, “anjos”, logística. A lista só cresce.
Um bom festival de artes cênicas custa dinheiro. Nunca foi fácil, e continua sendo o maior desafio do festival, sensibilizar patrocinadores e parceiros para bancar o sonho de arte e beleza – quando setembro vier, ficaremos imantados ao poder da arte e da cultura.
Depois de uma edição diferenciada, a do ano passado, considero esse ano a verdadeira edição de retomada do “Em Cena”. Traumatizada com os efeitos das chuvas e das enchentes que castigaram nosso Estado, chuva que atrapalhou as apresentações artísticas, e nos legou um mercado de trabalho escasso e preocupante, o Em Cena ficou solidário à realidade enfrentada pelos grupos locais, e que, com a distância que o tempo nos permite, mostrou-se como a opção acertada, a de apoiar a produção gaúcha.
Vida que segue, imperativa, hierática, necessária. Então, esse ano o “Em Cena” volta à sua formatação original. Um festival internacional de artes cênicas. Para isso, precisamos adaptar o festival e buscar potência, resistência e recursos, em um tempo onde nem todos os sintomas da crise vivenciada foram superados. Uma coisa é certa: estamos empenhados em realizar um festival que provoque a cidade, renove no público prazer e ousadias artísticas. O maior exemplo é o “Projeto Reside”, onde o público verá, ao vivo no Centro Histórico, uma experiência de beleza e resiliência, unindo artistas nacionais e internacionais, artistas locais e comunidade do bairro, todos juntos. Procure saber, também, dia e hora certa dessas apresentações. Um festival dentro do festival.
Este ano, mais uma vez, diretore(a)s conceituadíssimo(a)s mostram a renovação incessannte da cena brasileira, atores extraordinários e aclamados se apresentando aqui, mais nossos fecundos e importantes espetáculos locais e internacionais. De 12 a 21 de setembro, a cidade será sacudida por uma imersão de beleza cênica, para ficarmos atentos e emocionados. A arte cura. A arte salva. A vida presta.
Tudo começa no dia 10 de setembro, em aula-espetáculo que abrirá oficialmente a programação do festival. Essa noite foi entregue ao genial José Miguel Wisnik, que, preparou a pedido do “Em Cena”, uma homenagem a Zé Celso Martinez Corrêa, líder eterno e permanente do grupo Oficina, um dos mais renomados grupos teatrais do país. Junto às cantoras Celsim e Marina Wisnik, Zé Miguel, ele mesmo parceiro em incontáveis montagens do grupo, vai falar, cantar e encantar o público porto-alegrense. Homenagear Zé Celso com as palavras e as trilhas de Zé Miguel é ocasião imperdível para aplaudir o teatro brasileiro.
O Porto Alegre em Cena vem para fazer diferença. Qualidade, para nós, é, mais que nunca, fundamental.