Caderno de Sábado

Procópio, um lanceiro negro que mudou o curso da história

Escritor Alcy Cheuiche aborda em artigo a história de um dos heróis negros da Revolução Farroupilha

Retrato de um lanceiro negro em ação durante a Revolução Farroupilha. Obra de Juan Manuel Blanes do século XIX
Retrato de um lanceiro negro em ação durante a Revolução Farroupilha. Obra de Juan Manuel Blanes do século XIX Foto : Juan Manuel Blanes / Reprodução / CP

Procópio nasceu na Fazenda Boa Vista, em Viamão, por volta de 1815. Desde a infância, aprendeu as lides campeiras e se tornou pescador nas poucas horas vagas. Isso, para atender as encomendas da patroa, conhecida por Brigadeira Raphaela, por ser filha de Raphael Pinto Bandeira, o primeiro rio-grandense de nascimento a atingir o generalato no Exército Português. Aos vinte anos de idade, ninguém conhecia os meandros do Rio Capivari como aquele escravo, desde suas nascentes até desembocar na Lagoa dos Patos. E seguia, assim, sua vida simples, mesmo quando começou a Guerra dos Farrapos.

No dia 1° de junho de 1836, o Coronel João Manoel de Lima e Silva, que viria ser o primeiro general farroupilha, tomou a cidade de Pelotas. No dia seguinte, realizou outra façanha que teve imensos reflexos para o futuro, conforme o texto que deixou registrado na loja maçônica Philantropia e Liberdade, em Porto Alegre, a primeira a “elevar suas colunas” no Rio Grande do Sul:

“Fui pessoalmente nas senzalas para libertar os escravos. E falei com eles como falo com vocês, meus Irmãos, e não do jeito que se fala com crianças. Disse a eles que a guerra de libertação tinha começado. Que muitos de nós teríamos de morrer para dignificar a vida humana. Dei a eles a oportunidade de escolher. Os que quisessem, poderiam seguir seu caminho. Os que acreditassem em mim seriam engajados em nosso Exército. Teriam os direitos e deveres dos demais soldados farroupilhas. E poderiam lutar pela República.”

Foi assim que nasceu o Regimento dos Lanceiros Negros, considerado o mais aguerrido do Decênio Heroico. E foi nele que se engajou Procópio, quando os Lanceiros se acantonaram em Viamão, sendo logo reconhecido por um dom natural que demonstrou: tinha uma pontaria incrível com qualquer arma de fogo.

Apesar disso, o maior sonho de Procópio estava longe das armas. Seu desejo era conseguir ler jornais e livros, como só os brancos faziam. E teve essa oportunidade quando Luigi Rossetti obteve autorização de Bento Gonçalves para começar a impressão de “O Povo”, o primeiro jornal republicano do Brasil. Procópio convenceu o jornalista italiano a pedir seu desligamento provisório dos Lanceiros Negros e levá-lo consigo para Piratini, onde se dedicou por inteiro a fazer funcionar a prensa comprada na Europa. Aquela famosa que viera de navio até Montevidéu e dali fora embarcada numa carreta de bois até chegar à capital farroupilha.

Procópio foi alfabetizado nas páginas do jornal que ajudou a imprimir, letra por letra, desde sua edição inaugural, datada de 1° de setembro de 1838, afeiçoando-se muito a Rossetti. Assim, quando o italiano se desentendeu com Almeida, o ministro da fazenda que liberava as verbas para o jornal e o queria “mais comercial e menos teórico”, Procópio o acompanhou até a foz do rio Camaquã. Ali, junto à Lagoa dos Patos, Garibaldi estava terminando a construção dos barcos Farroupilha e Seival, destinados a tomar o porto de Laguna, em apoio aos republicanos catarinenses.

Num domingo, único dia em que não trabalhavam, quando só Garibaldi, Procópio e mais dois companheiros estavam no acampamento, foram surpreendidos por um ataque das tropas inimigas, comandadas pelo famigerado Coronel Francisco Pedro de Abreu. Este, mais conhecido como Chico Pedro ou Moringue, em razão de sua enorme cabeça, havia jurado matar Garibaldi e destruir os dois barcos em seu estaleiro.

Iniciado o tiroteio, a superioridade numérica dos caramurus os destinava a vencer rapidamente o combate, quando Procópio conseguiu mirar com sua carabina a famosa cabeça do comandante. O tiro partiu certeiro, mas Chico Pedro, montado a cavalo, mudou de posição no último momento, e a bala lhe acertou o ombro direito. Ferimento grave, que o fez ser carregado para a retaguarda, e desencorajou os caramurus, que acabaram batendo em retirada.

Se Giuseppe Garibaldi tivesse sido morto naquele dia 16 de abril de 1939, todos os acontecimentos seguintes, começando por sua incrível travessia com o Farroupilha e o Seival sendo transportados em enormes carretas, do rio Capivari até Tramandaí, não teriam acontecido. Garibaldi não conheceria Anita, nem liderado a longa luta pela Unificação Italiana, alguns anos depois... Assim, o tiro de Procópio, ao salvar a vida do Herói dos Dois Mundos, mudou completamente o curso da História.

Procópio ainda foi fundamental para orientar a navegada do Farroupilha e do Seival pelo rio Capivari, evitando prováveis encalhes. Também ajudou a colocá-los sobre as carretas, tomando parte ativa na famosa travessia dos dois barcos pelos areais.

Conforme conta Garibaldi em suas memórias, ditadas ao escritor francês Alexandre Dumas, Procópio estava entre os tripulantes do Farroupilha que, no dia 16 de julho de 1839, navegando para Laguna, pereceram no terrível naufrágio acontecido durante um temporal. Salvando-se Garibaldi e uns poucos mais, quase por milagre.

Dessa forma, quem quiser homenagear Procópio nestas e em outras comemorações da Guerra dos Farrapos, pode considerar o Oceano Atlântico como seu túmulo histórico.

E depositar nas águas salgadas, como o são as nossas lágrimas, uma prece ou uma flor.