Promover espaços para valorizar os encontros e as potências das mulheres na música se mostra cada vez mais necessário e urgente. Apesar dos avanços na visibilidade das artistas nos últimos anos, os números ainda expõem com brutal clareza a desigualdade de gênero no cenário musical brasileiro. Os dados reunidos a partir de relatórios recentes da UBC (União Brasileira de Compositores) e do Ecad (Escritório Central de Arrecadação e Distribuição) revelam a dimensão da exclusão estrutural enfrentada pelas mulheres no setor.
Segundo a UBC, apenas 13% dos mais de 40 mil associados da instituição se identificam como mulheres. Quando se observa a autoria das obras, o panorama é ainda mais desigual: apenas 10 a 12% das músicas cadastradas têm mulheres como compositoras. Em 2022, apenas 4 das 100 músicas mais tocadas nas rádios brasileiras foram compostas exclusivamente por mulheres.
No relatório do Ecad, a realidade é igualmente preocupante. Das mais de 2 milhões de obras registradas, apenas 9% têm autoria exclusivamente feminina. Quando o foco é a distribuição de direitos autorais em apresentações ao vivo, o abismo se acentua: menos de 5% dos valores repassados foram destinados a mulheres. Os homens ainda ocupam quase a totalidade dos principais postos de arrecadação e visibilidade.
As estatísticas tornam-se ainda mais alarmantes quando cruzadas com recortes de raça e território. Estima-se que menos de 1% das compositoras registradas se autodeclaram negras, e a presença de mulheres indígenas, trans ou não-binárias sequer é sistematicamente monitorada pelas instituições do setor. Com a maioria das associadas da UBC entre 18 e 40 anos (61%), também identificamos que os desafios do mercado, além de questões familiares e maternidade afastam ao longo do tempo as artistas de seus objetivos e projetos.
Embora seja inegável a atuação transformadora de artistas mulheres, especialmente na cena independente, sua contribuição ainda não é reconhecida na mesma medida por estruturas de poder, mercado e políticas públicas. Essa desigualdade impacta não apenas o reconhecimento simbólico, mas também a viabilidade econômica de suas carreiras.
Diante desse cenário, torna-se urgente a adoção de políticas afirmativas, incentivos à formação e circulação, e ações de visibilidade que contribuam para a equidade de gênero na música brasileira. Representatividade não é uma pauta opcional: é uma questão de justiça histórica, de pluralidade criativa e de reconfiguração do futuro sonoro do país. É neste contexto que nasce o projeto A Voz e a Vez Delas, uma mostra inédita em Porto Alegre, voltada para promover a representatividade feminina na música.
Com o objetivo de mobilizar a cadeia da música produzida por pessoas que se identifiquem com o gênero feminino, buscando um diálogo entre diferentes localidades do RS, linguagens e gerações, construindo novas produções através destes encontros, reunimos nove artistas em três noites que lotaram a sala Carlos Carvalho durante o mês de julho. A cada apresentação, o público pode conferir performances colaborativas inéditas de Adriana Deffenti e Loma Pereira, Viridiana e Jessie Jazz e Camila Lemos e Paola Kirst, todas com entrada franca. A convite da curadoria formada por mim, e as jornalistas e pesquisadoras musicais Brenda Vidal e Marília Feix, as duplas tiveram a oportunidade de apresentar seus trabalhos, assim como foram provocadas a criar algo juntas. Para abrir os shows, três artistas que ainda não possuem álbum lançado foram selecionadas através de convocatória: Ana Matielo, Rosa Nika e THS Drop.
Neste recorte da primeira edição de A Voz e a Vez Delas apresentamos a diversidade da música produzida em nosso estado: seja na estreia de Camila, com apenas 17 anos, ou na consolidada trajetória de Loma, com mais de 50 anos de carreira; nos corpos dissidentes de Rosa, Viridiana e Jessie; no regionalismo contemporâneo de Ana, na influência do hip hop em THS Drop. Encontramos a poesia e potência vocal de Adriana e o experimentalismo de Paola e podemos reconhecer tantas vozes, tantas sonoridades, e muita riqueza na música que é produzida aqui.
Onde estão as mulheres na música? Essa invisibilização não ocorre somente nos lineups dos festivais, mas também mas a rede de profissionais envolvidos na produção de um espetáculo é quase sempre masculina. É difícil vermos mulheres na técnica, coordenando montagem de palco, assinando som e luz, menos ainda como roadies, por exemplo. Por isso, realizamos três oficinas técnicas voltadas à formação de profissionais da música, que foram selecionadas através de edital aberto. A necessidade de atividades formativas na área é altíssima, visto que recebemos o dobro de inscrições para os números de vagas disponibilizados.
A existência de uma mostra como A Voz e a Vez Delas é urgente. Ao reunir intérpretes, compositoras, técnicas, produtoras e gestoras da música em um mesmo projeto, o objetivo é claro: criar repertório, visibilidade e oportunidades concretas para o protagonismo feminino e trans na música, onde agimos como como vitrine de representatividade, inspirando que novas gerações se sintam capazes de se inserir em qualquer área do mercado da música, não somente como intérpretes, mas também como a pessoa que assina suas obras e atividades técnicas.
Com a oportunidade de nos enxergarmos e ressaltarmos nossos talentos e habilidades, estamos construindo um caminho para as futuras profissionais entenderem que podem e devem acreditar e trabalhar por seus projetos. A mostra também serve como plataforma de futuro: para que as próximas gerações saibam que há espaço para elas — nos palcos, na técnica, nas composições e nas decisões. É hora de virar o jogo e amplificar vozes que sempre estiveram nos bastidores. Porque agora, a voz e a vez são delas..
A Voz e a Vez Delas é um projeto apresentado pelo Ministério da Cultura e Secretaria de Estado da Cultura do Rio Grande do Sul, através de edital da Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura.