Poucas cidades no mundo podem dizer que fizeram parte da vida de Aristides de Sousa Mendes. Porto Alegre é uma delas. Entre 1924 e 1926, o diplomata português viveu nesta cidade, onde nasceu uma de suas filhas, construiu amizades e conheceu mais profundamente a alma do povo brasileiro. Encontrou aqui uma cidade aberta, humana e sensível – a mesma sensibilidade que, anos mais tarde, guiaria o gesto que mudaria milhares de vidas. Este contacto com um Brasil multicultural, plural e profundamente humano seria um dos elementos que moldariam o seu sentido universalista de justiça. Retornar a Porto Alegre como Presidente da Câmara de Carregal do Sal, terra natal de Aristides, foi para mim uma experiência profundamente emocionante. Tive a honra de apresentar aos porto-alegrenses parte da história de vida do diplomata português que salvou milhares de refugiados durante a Segunda Guerra Mundial. A história do século XX guarda na sua memória um dos gestos mais extraordinários de coragem moral: o do cônsul português que permitiu a fuga de mais de 30 mil refugiados — entre eles milhares de judeus destinados aos campos de concentração nazistas — num momento em que a Europa mergulhava no abismo.
Catorze anos após deixar Porto Alegre, Aristides encontrava-se num cenário completamente distinto. A França colapsava sob a invasão de Hitler, e milhões fugiam para o sul, numa das maiores movimentações civis da história europeia. Em junho de 1940, Bordéus (Bordeaux, em francês) — onde Aristides era cônsul — transformou-se no último refúgio antes da fronteira espanhola. Nesse momento crítico, o regime português liderado por António de Oliveira Salazar impôs a “Circular 14”: uma ordem que proibia a emissão de vistos a judeus, refugiados políticos e considerados “indesejáveis”. Aristides recusou obedecer. Durante dias e noites, com a cidade tomada pelo desespero, assinou vistos sem descanso. Testemunhas relatam que chegou a trabalhar sem comer, quase sem dormir, auxiliado pelos filhos na emissão dos documentos. O impacto desse ato foi colossal: mais de 30 mil vidas salvas, num dos maiores feitos individuais de resgate humanitário da Segunda Guerra Mundial.
A desobediência custou caro. Aristides foi submetido a processo disciplinar, expulso da carreira diplomática e privado de todas as fontes de sustento. Durante anos, ele e sua família viveram em pobreza extrema, sustentados por doações da comunidade judaica de Lisboa — a mesma que ele havia ajudado a salvar. Aristides morreu em 1954, praticamente esquecido e em miséria absoluta. A sua reabilitação oficial só ocorreria décadas mais tarde, após o fim da ditadura portuguesa. Hoje, é reconhecido internacionalmente como um dos Justos entre as Nações, título concedido pelo Yad Vashem, em Jerusalém.
A reparação histórica ganhou forma plena em 19 de julho de 2024, com a inauguração do Museu Aristides de Sousa Mendes em Carregal do Sal. Como Presidente da Câmara Municipal, tive o privilégio de participar na criação desse espaço que devolve a Aristides a dignidade que lhe foi retirada. Em pouco mais de um ano, o Museu recebeu mais de 40 mil visitantes, muitos deles jovens que encontram ali uma lição de empatia, coragem e resistência moral. O Museu tornou-se um farol internacional: preserva documentos, cartas e testemunhos, acolhe encontros educativos e culturais, promove programas sobre direitos humanos e aproxima novas gerações da memória do Holocausto e dos refugiados.
No final de novembro, durante minha segunda visita oficial a Porto Alegre, tive a honra de apresentar a história de Aristides de Sousa Mendes em diversos encontros realizados com autoridades locais, estudantes e membros da comunidade judaica. Um momento central da programação foi a sessão de cinema dedicada ao filme O Cônsul de Bordéus, obra que retrata os dias dramáticos de 1940. Foi também nessa ocasião que consolidamos o Acordo de Cooperação e Amizade entre Porto Alegre e Carregal do Sal — um reencontro entre duas cidades que integram a biografia de Aristides. O acordo envolve escolas, universidades e entidades como a Federação Israelita do Rio Grande do Sul e o Instituto Cultural Judaico Marc Chagall, além de iniciativas conjuntas com a Prefeitura de Porto Alegre voltadas a preservar o legado do diplomata e a transformar seu exemplo em projetos educativos, culturais e humanitários.
Aristides de Sousa Mendes foi mais do que um diplomata. Foi um homem que, diante de um dos momentos de maior escuridão do século XX, escolheu salvar vidas. A ligação entre Porto Alegre e Carregal do Sal renova a responsabilidade de manter viva a memória, a ética e a humanidade que Aristides nos legou. Hoje, das margens do Guaíba às margens do Dão, a sua história continua a inspirar ações e consciências, permanecendo como prova de que uma única decisão, tomada no momento certo, pode transformar o destino do mundo.