Caderno de Sábado

Quando Porto Alegre abraça a memória de um herói

Presidente da Câmara de Carregal do Sal, Paulo Catalino Ferraz, cidade natal de Aristides de Sousa Mendes, fala sobre homenagem ao diplomata que atuou na Capital de 1924 a 1926

Cônsul de Portugal em Poa, Aristides de Sousa Mendes
Cônsul de Portugal em Poa, Aristides de Sousa Mendes Foto : CP Memória

Poucas cidades no mundo podem dizer que fizeram parte da vida de Aristides de Sousa Mendes. Porto Alegre é uma delas. Entre 1924 e 1926, o diplomata português viveu nesta cidade, onde nasceu uma de suas filhas, construiu amizades e conheceu mais profundamente a alma do povo brasileiro. Encontrou aqui uma cidade aberta, humana e sensível – a mesma sensibilidade que, anos mais tarde, guiaria o gesto que mudaria milhares de vidas. Este contacto com um Brasil multicultural, plural e profundamente humano seria um dos elementos que moldariam o seu sentido universalista de justiça. Retornar a Porto Alegre como Presidente da Câmara de Carregal do Sal, terra natal de Aristides, foi para mim uma experiência profundamente emocionante. Tive a honra de apresentar aos porto-alegrenses parte da história de vida do diplomata português que salvou milhares de refugiados durante a Segunda Guerra Mundial. A história do século XX guarda na sua memória um dos gestos mais extraordinários de coragem moral: o do cônsul português que permitiu a fuga de mais de 30 mil refugiados — entre eles milhares de judeus destinados aos campos de concentração nazistas — num momento em que a Europa mergulhava no abismo.

Catorze anos após deixar Porto Alegre, Aristides encontrava-se num cenário completamente distinto. A França colapsava sob a invasão de Hitler, e milhões fugiam para o sul, numa das maiores movimentações civis da história europeia. Em junho de 1940, Bordéus (Bordeaux, em francês) — onde Aristides era cônsul — transformou-se no último refúgio antes da fronteira espanhola. Nesse momento crítico, o regime português liderado por António de Oliveira Salazar impôs a “Circular 14”: uma ordem que proibia a emissão de vistos a judeus, refugiados políticos e considerados “indesejáveis”. Aristides recusou obedecer. Durante dias e noites, com a cidade tomada pelo desespero, assinou vistos sem descanso. Testemunhas relatam que chegou a trabalhar sem comer, quase sem dormir, auxiliado pelos filhos na emissão dos documentos. O impacto desse ato foi colossal: mais de 30 mil vidas salvas, num dos maiores feitos individuais de resgate humanitário da Segunda Guerra Mundial.

A desobediência custou caro. Aristides foi submetido a processo disciplinar, expulso da carreira diplomática e privado de todas as fontes de sustento. Durante anos, ele e sua família viveram em pobreza extrema, sustentados por doações da comunidade judaica de Lisboa — a mesma que ele havia ajudado a salvar. Aristides morreu em 1954, praticamente esquecido e em miséria absoluta. A sua reabilitação oficial só ocorreria décadas mais tarde, após o fim da ditadura portuguesa. Hoje, é reconhecido internacionalmente como um dos Justos entre as Nações, título concedido pelo Yad Vashem, em Jerusalém.

A reparação histórica ganhou forma plena em 19 de julho de 2024, com a inauguração do Museu Aristides de Sousa Mendes em Carregal do Sal. Como Presidente da Câmara Municipal, tive o privilégio de participar na criação desse espaço que devolve a Aristides a dignidade que lhe foi retirada. Em pouco mais de um ano, o Museu recebeu mais de 40 mil visitantes, muitos deles jovens que encontram ali uma lição de empatia, coragem e resistência moral. O Museu tornou-se um farol internacional: preserva documentos, cartas e testemunhos, acolhe encontros educativos e culturais, promove programas sobre direitos humanos e aproxima novas gerações da memória do Holocausto e dos refugiados.

No final de novembro, durante minha segunda visita oficial a Porto Alegre, tive a honra de apresentar a história de Aristides de Sousa Mendes em diversos encontros realizados com autoridades locais, estudantes e membros da comunidade judaica. Um momento central da programação foi a sessão de cinema dedicada ao filme O Cônsul de Bordéus, obra que retrata os dias dramáticos de 1940. Foi também nessa ocasião que consolidamos o Acordo de Cooperação e Amizade entre Porto Alegre e Carregal do Sal — um reencontro entre duas cidades que integram a biografia de Aristides. O acordo envolve escolas, universidades e entidades como a Federação Israelita do Rio Grande do Sul e o Instituto Cultural Judaico Marc Chagall, além de iniciativas conjuntas com a Prefeitura de Porto Alegre voltadas a preservar o legado do diplomata e a transformar seu exemplo em projetos educativos, culturais e humanitários.

Aristides de Sousa Mendes foi mais do que um diplomata. Foi um homem que, diante de um dos momentos de maior escuridão do século XX, escolheu salvar vidas. A ligação entre Porto Alegre e Carregal do Sal renova a responsabilidade de manter viva a memória, a ética e a humanidade que Aristides nos legou. Hoje, das margens do Guaíba às margens do Dão, a sua história continua a inspirar ações e consciências, permanecendo como prova de que uma única decisão, tomada no momento certo, pode transformar o destino do mundo.