Quando o ator Fábio Cuelli me procurou para escrever o texto do espetáculo Geppetto, seu primeiro solo em cena, a pergunta inicial foi a seguinte: você quer adaptar a história do Pinóquio para o teatro? E ele respondeu: não, ela vai servir como inspiração, como impulso, como uma espécie de largada para a corrida no que eu desejo contar. Confesso que fiquei aliviado. Explico. Eu costumo dizer que sou um dramaturgo por encomenda. Geppetto seria, e se tornou, o meu oitavo texto para teatro e todos sempre foram escritos porque alguém me encomendou, me contratou para escrever ou me seduziu a escrever, dentro de um processo coletivo de criação. Nunca escrevi um texto teatral no impulso solitário, pessoal e, depois, o deixei guardado, para um dia, quem sabe, ser encenado, como alguns dramaturgos costumam fazer. Nesse sentido, minha necessidade de escrever para teatro foi sempre prática, objetiva, concebida dentro de um processo que determina a sua encenação, como resultado final. Portanto, uma adaptação do livro do Carlo Collodi, “As Aventuras de Pinóquio: história de uma marionete” seria, para mim, uma nova perspectiva de escrita e que, talvez, eu não tivesse a capacidade de alcançar com esse braço seletivo e, também, eventual que a minha produção dramatúrgica está inserida. Por isso, o alívio.
Sentamos, eu e o Fábio, e conversamos sobre o que ele desejava, realmente, contar. Nesses casos, como autor, sempre costumo saber, ao máximo, os desejos, as intenções e caminhos que estão presentes na cabeça de quem pensou o projeto e o que, verdadeiramente, pretende dizer e levar à cena. É a alavanca principal para que eu possa entrar na escrita, me seduzir e começar a criar. A vontade de quem vai estar em cena é, para mim, a primeira inspiração. Partindo daí, com o trajeto esboçado, eu embarco no desejo alheio, no caso, aqui, o do Fábio, e ele passa a ser o meu também.
Minha criação se nutre constantemente do diálogo, sem imposições de texto, sem medo de moldar ou reescrever ou mesmo descartar. Tudo tem que estar sempre em total harmonia com a concepção geral do espetáculo que está sendo gestado. Uma busca conjunta, onde forneço a palavra, em meio a outros elementos que irão construir a narrativa do trabalho. No caso de Geppetto, além da atuação, existe ainda a manipulação de bonecos híbridos, a operação da trilha e de iluminação, tudo executado pelo próprio ator em cena. E o trabalho precisa caminhar num bloco único, para que nada se sobreponha a nada. É aí que o diálogo entre a dramaturgia, concepção da direção e atuação se torna essencial na busca dessa dosagem, dessa medida. Não existe teatro sem colaboração, troca e, sobretudo, diálogo, como, aliás, em toda a criação artística de um modo geral.
“Geppetto” conta a história de um filho e de um pai. Exatamente nessa inversão cronológica. O filho vem primeiro e é o principal foco. E não poderia ser diferente, uma vez que nem eu, nem o Fábio, somos pais. A ótica do filho serviu, para nós, como um terreno menos arenoso e mais confortável para a construção. O ponto de vista do que está sendo contado é, inteiramente, o do filho. A perspectiva e o entendimento dos fatos, nessa relação entre eles, são do filho. Nossa única escolha, enquanto espectador, é acreditar na sua versão. O pai está chegando ao fim de sua vida. Amparando os dias que ainda restam ao seu, também, criador, o filho dedica seu tempo, quase que integral, aos cuidados e atenção a esse ser, que agora, se torna incapaz, dependente e sem qualquer possibilidade de autonomia.
Durante o processo de criação do texto, eu e o Fábio trocávamos muito nossas impressões, na condição de filhos. Analisávamos nossos Geppetos e que espécie de espelho trazíamos, enquanto criatura, dos nossos criadores. Isso servia, para nós, como um alimento para chegarmos no corpo dessa narrativa e colocá-la em criação, em palavras. Mas longe de ser um espetáculo autobiográfico, como imaginam alguns espectadores. O que está sendo contato ali é meramente ficcional, salvo uma coisinha que outra, que sempre nos valemos, como autor, no momento em que estamos escrevendo.
Não desejo contar aqui, em detalhes, o que se passa no espetáculo. Afinal, o teatro é feito para ser visto e sentido. O que desejo falar é sobre o resultado de criar um texto, um espetáculo que traz à cena essa temática, essa abordagem dos Geppetos e dos Pinóquios que nos tornamos ou que escolhemos para nós. De como ajustamos a vida, frente as responsabilidades desse Pinóquio, filho, que cresceu e virou adulto. Desse Geppetto, pai, que se despede no silêncio, de como encerramos os ciclos, as etapas. De como acomodamos o alcance dos limites cronológicos, da incompreensão, da compreensão, dos afetos, dos desafetos.
Costumo dizer que “Geppetto” resultou em um singelo poema de despedida que nos conduz de forma leve e acolhedora à um caminho de identificação. E emociona. Somos constituídos de família, seja ela qual for. A atuação do Fábio é de uma delicadeza incrível, de uma sensibilidade comovente. A manipulação dos bonecos que representam o pai, nos hipnotiza, materializando essa figura diante dos nossos olhos, dando corpo e caráter a ele. E há mais: o clima do antigo ateliê, onde se passa a ação, a iluminação, que aconchega, a trilha que nos remete ao passado, às origens. Tudo muito bem orquestrado pelas mãos da Liane Venturella, que assina a direção.
Do meu texto, me permito usar aqui a frase do José Saramago, que dizia, dentro da sua modéstia: “minhas palavras valem o que valem.” Agora, com o espetáculo estreado, premiado e seguindo por aí, o que posso constatar é que o meu braço, enquanto dramaturgo, alcançou um bocadinho mais. E que a inspiração, vinda da obra do Collodi, me enriqueceu profundamente.
“Geppetto” estará em cartaz neste fim de semana, nos dias 13 e 14 de junho, no Teatro Oficina Olga Reverbel, do Multipalco Eva Sopher, e de 17 a 19 do mesmo mês no Teatro Carlos Carvalho, da Casa de Cultura Mario Quintana. As apresentações acontecem às 19h.
O Fábio é um lindo e grande amigo. E sou eternamente grato pelo seu convite! Assista a “Geppetto” e, depois, me diga o que achou.
SERVIÇO
- Espetáculo “Geppetto”, dos grupos Máscara EnCena e Miseri Coloni
- Com concepção e atuação de Fábio Cuelli
- Dias 12, 13 e 14 de junho
- Sexta, sábado e domingo, às 19h
- Teatro Oficina Olga Reverbel, no Multipalco Eva Sopher (Rua Riachuelo, 1089 - Centro Histórico - Porto Alegre/RS)
- Ingressos: Online: www.theatrosaopedro.rs.gov.br. Bilheteria do Multipalco Eva Sopher: de terça a domingo, das 16h às 18h (nos dias de espetáculo, o funcionamento é estendido até as 20h)