Caderno de Sábado

Questões urbanas para a arte a partir de São Leopoldo

Iriz Medeiros analisa o livro de artista de Letícia Lampert que provoca reflexões sobre a resistência das cidades à poluição visual

Artista visual e fotógrafa Letícia Lampert lançou livro de artista “Há uma cidade por trás”, que propõe reflexão sobre paisagem urbana e patrimônio arquitetônico de São Leopoldo
Artista visual e fotógrafa Letícia Lampert lançou livro de artista “Há uma cidade por trás”, que propõe reflexão sobre paisagem urbana e patrimônio arquitetônico de São Leopoldo Foto : Leticia Lampert / Divulgação / CP

Ano novo, livro novo. É com esse desejo já concretizado que a artista visual Letícia Lampert inicia 2026 ao lançar “Há uma cidade por trás”, seu mais recente trabalho. Com 64 páginas de fotografias realizadas em São Leopoldo, essa é a sua sexta publicação, depois de “Escala de cor das coisas” (2009), “Chai” (2016), “Conhecidos de vista” (Incompleta, 2018), “Silent City (2022) e o também recém-lançado “Práticas para destrinchar a cidade” (Incompleta, 2025).

Foi preciso antes percorrer e fotografar as ruas de Porto Alegre e São Paulo, no Brasil; Xangai, na China; e Kaohsiung, em Taiwan – cidades que inspiraram os livros anteriores – para que a artista materializasse um projeto sobre o centro da cidade onde cresceu.

Não que a ideia não a inquietasse há tempos, mas foi em 2020, com a pandemia e a impossibilidade de viajar, que Lampert fez as primeiras fotos na Rua Grande, oficialmente Independência. Foi esse local de importância afetiva e histórica que deu início à investigação sobre a difícil relação entre patrimônio e poluição visual.

A arquitetura é um fator determinante no processo criativo de Lampert, e a paisagem urbana é um fio que costura diferentes cidades em uma mesma poética que caracteriza a obra da artista. Ao mesmo tempo em que mostram Porto Alegre, São Paulo, Xangai e Kaohsiung, as imagens remetem a cenas que se repetem em muitos outros lugares no contexto das transformações urbanísticas contemporâneas.

Com a São Leopoldo de “Há uma cidade por trás” não é diferente. Se as placas nas fachadas de lojas e espaços comerciais da Rua Grande com o tempo foram escondendo a arquitetura original de casas e edifícios – entre eles o Theatro Independência, de 1924, e o Cine Brasil, de 1940, pontos de referência extintos da vida social –, as fotografias publicadas no livro dialogam com a realidade de infinitas ruas tanto de metrópoles quanto de municípios menores, uma vez que as placas publicitárias são hoje parte da paisagem. Afinal, quem de nós, em qualquer canto do Brasil, estranharia a palavra “torra” em letras garrafais na porta de uma loja?

Na publicação, a artista não faz uso de imagens de arquivo, e explica: “Não queria que o projeto soasse saudosista. Não era sobre resgatar um passado idealizado, mas sobre criar consciência sobre a situação atual, as mudanças em curso e tudo que ainda pode melhorar”. Depois de afetado pela pandemia o comércio da Rua Grande enfrentou prejuízos com as enchentes de 2024. Desde então, o local vem passando por melhorias.

“Há uma cidade por trás” integra o projeto “Descobrindo São Leopoldo”, o qual recebeu apoio por meio de edital da Secretaria de Cultura da cidade em 2023, e a palavra descobrindo tem o sentido de “tirar da frente o que está encobrindo”, comenta Lampert. “Muitos prédios tombados estavam recobertos, como que encapados, de placas de publicidade e identidade visual. Já melhorou bastante com a revitalização e a Lei número 9.750, do Patrimônio Cultural, que visa combater a poluição visual, mas esta segue tendo sua aplicação prorrogada e ainda há muito a ser feito.”

Além do livro, o projeto inclui palestra e oficina para artistas e professores de arte, e parte dos exemplares será destinada a bibliotecas, instituições culturais e escolas.

JOGO VISUAL

Formada em artes e design gráfico, Letícia Lampert busca soluções diferentes para cada livro, a fim de despertar a curiosidade do público pelo objeto artístico em questão, impresso e manipulável. “Acredito no livro como um formato potente para trabalhos de arte. Ele faz os projetos circularem mais e melhor, garante a memória e é acessível para todos”, explica.

Em “Há uma cidade por trás”, o projeto gráfico é parte do conceito, a começar pelo título na capa, em uma fonte que revela apenas metade da palavra, num corte brusco que deixa a impressão de que a outra metade está ali, mas escondida. A publicação traz ainda a dobra francesa, técnica que cria camadas e esconde parte das imagens, simulando a sensação de que obstáculos visuais interferem na leitura da paisagem. Nas páginas externas, uma arquitetura irreconhecível devido ao ruído visual dos letreiros agressivos; nas internas, as fachadas mais preservadas, mesmo com a presença de anúncios. O jogo visual é parte constituinte do livro. O questionamento sobre o “torra tudo” da lógica econômica nos centros urbanos também.