Caderno de Sábado

Ricardo Silvestrin e a desconstrução do soneto

Poeta e tradutor José Eduardo Degrazia* analisa o livro de poesia ‘Casa de Origami’, de Ricardo Silvestrin, com 70 sonetos ricardianos

Ricardo Silvestrin lançou no final de 2025 o seu livro "Casa de Origami" (Ed. Bestiário), com 70 sonetos ricardianos
Ricardo Silvestrin lançou no final de 2025 o seu livro "Casa de Origami" (Ed. Bestiário), com 70 sonetos ricardianos Foto : Carolina Silvestrin / Divulgação / CP

O soneto é uma forma poética que se mantém viva na literatura há quase 800 anos, desde que os poetas da escola siciliana fizeram projeção de sua estrutura – eficaz em termos de comunicação de um conteúdo estético, sonora como poucas no seu ritmo e nas suas rimas. Giacomo Lentini (1210- 1260) é tido como seu criador. O estilo fez sucesso e foi seguido no século XIV por Dante (1265-1321) e Petrarca (1304-1374), que o estabilizaram e difundiram.

A forma breve, fixa, sonora (sonetto em italiano significa pequeno som, pequena canção) fácil de decorar por seu metro decassílabo e pela musicalidade de suas rimas, atingiu praticamente todos os países e segue firme até hoje. Não cabe aqui historiar a evolução do soneto, mas lembrar que com o seu uso e abuso vieram as variações, que foram muitas, principalmente a partir do Romantismo, Parnasianismo e Simbolismo, com a adoção do verso de 12 sílabas. No Modernismo a liberdade métrica foi atingida com a adoção de versos de métrica variada, e versos livres. Antes disso, já havia acontecido a alteração do soneto dito inglês, popularizado por William Shakespeare (1564-1616), que era composto por três quartetos e um dístico.

No Brasil o soneto começou a ser utilizado no Barroco, tendo como modelos Petrarca e Camões (1524-1580), e atingiu o Modernismo com Augusto Frederico Schmidt (1906-1965), Vinicius de Moraes (1913-1980), Mario Quintana (1906-1994). Na contemporaneidade muitas foram as transformações do soneto, fiquemos para breve análise com dois exemplos notáveis de transformação lúdica da norma: Paulo Henrique Britto (1951) e Ricardo Silvestrin (1963).

O soneto de Paulo Henriques Britto é posto literalmente de cabeça para baixo começando por dois tercetos e terminando com dois quartetos. O poeta usa versos de variada métrica nos sete sonetos de seu livro Trovar claro, de 1997. Mais radical, me parece, é o poeta Ricardo Silvestrin no seu mais recente livro, “Casa de Origami”, de 2025, que subverte totalmente o soneto, numa nova forma estética, experimental. Seu soneto é dividido em um quarteto, uma estrofe de sete versos, e um terceto – 4/7/3, portanto. Como bem evidencia Wilbert Salgueiro na orelha do livro, o sétimo verso será sempre monossílabo, o último será em redondilha menor, e os demais em decassílabos.

Existe em Ricardo Silvestrin um grande conhecimento da tradição, dialogando com Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), Fernando Pessoa (1888-1935) e com contemporâneos como Antonio Cicero (1945-2024) e Alice Ruiz (1946). Seu trato com a poesia japonesa, principalmente Bashô (1644-1694), traz a experiência do haicai de versos em 5/7/5.

Silvestrin não é um poeta hermético ligado exclusivamente aos êxtases e angústias da forma. De já longa trajetória na poesia e na prosa, na letra de canção, sabe o autor dosar o formal e o coloquial de maneira a levar o leitor a acompanhá-lo no seu ritmo, enquanto em suas histórias vividas e/ou inventadas, na estrada, sem ter a pretensão de indicar caminhos. No primeiro soneto, Poética, diz: “Eu já não sei mais de ida nem volta. / De repente eu chego. Olha eu de novo / no mesmo lugar.” (p. 11). Na construção desta casa opta pela arquitetura do efêmero: “Castelo de areia é muito seguro. / Eu só construo castelos de vento.” (p. 12). Nesta vivenda de vento e areia o poeta se faz: “Sou um batalhão de frágil papelão / pra enfrentar o exército do destino.” (p. 14).

No soneto Desenho, entende-se como poeta finito, na imensidão da obra: “Sou personagem de uma obra sem fim. / Resta só o esboço. Quem me desenha / se apaga também.” (p. 17). Na mesma sintonia o soneto Carrossel acentua a sensação de tentativa, erro e acerto: “Carrossel de nuvens vem me buscar. / Sigo pelo azul e flutuo junto. / Logo se dissipa, assim como eu sou, impreciso.” (p. 20). A ideia de dissolução o acompanha sempre: “Nuvens a caminho. Qual o seu destino? / Vão se dissolver.” (p. 26).

Vivendo no agora, o poeta se entrega ao existir com sabor de finitude: “Tenho mais passado do que futuro. / Vivo no agora, é assim que se vive.” (p.32). O poeta sente o desassossego das coisas: “o desassossego / se nutre de mim.” (p. 35). O poeta se reconhece como: “chama incontida / sem repouso algum.” (p. 39).

Vemos que o poema/soneto de Silvestrin não foge à tradição de enquadrar nos 14 versos uma visão de mundo, a dimensão filosófica da vida: “Diga qual a vida que sofre mais: / do peixe no aquário ou do passarinho? / Preso na gaiola, preso no vidro; / mundos limitados, artificiais.” (p. 47). Mas o poeta foge do “elevado” através do humor e do coloquial, como no soneto Semeadura: “Cresce uma árvore no vão da floresta. / Quem trouxe as sementes? O passarinho. / Trouxe sem querer, estavam nas fezes / de um fruto que comera um dia.” (p. 49). E o humor, sempre: “O amor é fogo, dizia Camões. / Tem que estar de fogo pensam alguns.” (p. 620.)

Há nestes sonetos redimensionados, coloquialidade, humor, prosaísmo modernista e antirromântico, passando longe do simbolismo. Opção por menor musicalidade ao optar por não usar rimas. Do ponto de vista do conteúdo é uma meditação do tempo cronometrado.

Encontrará o leitor neste livro temas variados, descritivos, subjetivos, filosóficos. Penso que Ricardo Silvestrin acertou em cheio ao optar por desconstruir o soneto e nos brindar com uma obra de alto valor simbólico, literário e humano.

*José Eduardo Degrazia é poeta, escritor e tradutor

Livro "Casa de Origami", de Ricardo Silvestrin, foi lançado no final de 2025 | Foto: Editora Bestiário / Reprodução / CP