No meio das Letras, no Rio Grande do Sul, todos os escritores e os envolvidos no meio literário conhecem o poeta, jornalista e editor Rossyr Berny. Ou porque lançou 23 livros (duas biografias, um romance e 20 de poemas) em 50 anos de atuação, ou porque publicou milhares de obras ao longo de 40 anos na sua Editora Alcance, presente no Prêmio Jabuti 2008 como premiada na categoria Contos e Crônicas. Mas o fato é que está lançando um livro que é novidade talvez no mundo inteiro. Uma das maiores entendidas em literatura no Brasil e nos países das comunidades lusófonas e francófonas (escreve em francês e português), Zilá Bernd, nunca viu nada igual nos países que visita, como França, Canadá, Estados Unidos e outros. Rossyr Berny fez uma brincadeira: “Se ninguém jamais viu um livro de poemas assim nos Estados Unidos, em Porto Alegre ou em São Gabriel (onde nasceu), é porque não existe mesmo”.
Acontece que Rossyr Berny lançou “Arco-íris Noturno: rios e florestas respiram por aparelhos”, provavelmente a sua melhor obra poética, com a opção de ler os trabalhos, como obviamente se faz em literatura, mas também de ouvi-los por meio de voz e música e assisti-los em multimídia. Cada um dos 99 poemas deste livro vem com QR Code, que o interessado pode acessar pelo leitor do seu dispositivo e curtir a novidade. A surpresa foi tão grande, que, em todos os lançamentos que fez em Porto Alegre, Tramandaí, São Gabriel e outras regiões, as filas nunca foram menores de duas horas de espera. É o sucesso de quem já ganhou o Prêmio Açorianos de Literatura pelo conjunto da obra; o Prêmio Carlos Drummond de Andrade (MG); Premio Raíces, Argentina; Premio Carlos Sabat Ercasty, no Uruguai.
Sobre “Arco-íris Noturno: rios e florestas respiram por aparelhos”, a professora pós-doutora em Literatura Jane Tutikian disse: “Rossyr Berny é um dos maiores poetas gaúchos da contemporaneidade”. Já o poeta, publicitário e letrista Luiz Coronel afirmou que “Arco-íris Noturno é o ‘Navio Negreiro’ contemporâneo”. E o escritor José Eduardo Degrazia enfatiza que o trabalho de Rossyr Berny “combate à má utilização dos recursos naturais pelo homem”, classificando a poesia do autor de “contestatória e comprometida com a questão social”.
Bem a propósito escreveu o poeta Pedro Manoel Osório: “A indignação com o que fizemos contra o nosso planeta – contra a natureza, contra os animais, contra a nossa própria espécie – faz emergir novos gêneros humanos nos versos de Rossyr Berny: o Homovírus, o Homolixo, o Homo-herbicida, o Homolodo, enfim, o Homo insapiens.”
Berny sempre lutou contra as injustiças e pelos oprimidos em qualquer situação. Na sua poesia, defende o pobre, a mulher, as crianças que ainda não nasceram, a flora e a fauna. Vice-presidente da Academia Rio-Grandense de Letras e presidente do Fórum Rio-Grandense das Academias de Letras, é um cidadão preocupado com os caminhos da sociedade e do ambiente natural.
E, como já foi dito aqui, “Arco-íris Noturno: rios e florestas respiram por aparelhos” talvez seja o melhor trabalho desse escritor que alcançou a última etapa da qualidade na produção de textos. Uma coisa que quase ninguém conhece na literatura do Sul – a não ser os que atingiram níveis estratosféricos, entre os quais Érico Veríssimo, Sergio Faraco e alguns outros – Rossyr Berny domina da mesma forma que os velhos mestres, porque não aceita os ecos, as colisões textuais, as cacofonias, os problemas de som, enfim.
“Arco-íris Noturno” se divide em oito capítulos, cada um abordando uma temática. Todos os poemas exploram o pensamento (ou a logopeia de Ezra Pound), a imagem (ou a fanopeia) e o aspecto melódico (ou a melopeia). É a poesia perfeita, se é que isso existe. Para citar alguns exemplos, pode-se abrir o livro ao acaso e escolher este ou aquele poema, todos inéditos, pois têm qualidade similar.
Veja o caso deste: “Quem alimenta o amor de uma mulher salva mil pássaros”. O título já mostra o respeito e a admiração pela figura feminina; por si só, bela e sagrada.
A comparação do eu lírico sobre alimentar o amor de uma mulher faz com que a pessoa salve mil pássaros, pois ele ama o passaredo em sua algazarra e seu canto – sobretudo é um lutador por sua necessária preservação.
Os amigos do autor sabem que ele reside num sobrado de frente para o rio Guaíba, na zona sul e, em algumas janelas, criou um ambiente para que os passarinhos venham alimentar-se, às centenas, diariamente. Ou seja, os pássaros são importantes para o eu lírico, da mesma forma que a relação com a mulher. Ao escrever pássaros recém-nascidos têm “bocas abertas e tremem o corpo inteiro”, também se refere às pessoas famintas num país de profunda desigualdade social.
Seus poemas nunca falam na superfície da palavra. Sempre há, escavando um pouco, outras nuanças a descobrir.
Segundo o eu lírico, “os filhotes frutificados / logo frutificarão os seus” e é o que ele quer – um mundo cheio do canto e da alegria dos pássaros, a fim de que possa ver-se num ambiente melhor para se viver.
Outro poema – “Uma menina que só quer escola” (p. 54) – fala daquilo que todo professor gostaria de escutar: que os alunos amam o conhecimento e se dispõem a ir aos colégios. Quase ninguém se dá conta, como disse Freud, no livro “Ensayos sobre la vida sexual y la teoría de las neurosis”, que aprender também é divertido. Entretanto, é triste alguém desejar aprender, mas estar impossibilitado por guerras, enchentes e questões sociais.
De fato, as crianças que estão na escola não desejam o que têm (excetuando um que outro), mas há os que ficaram longe do estudo por décadas e conseguiram retornar, com muito esforço, até porque, a partir de 2005, existe a Universidade Aberta do Brasil, que oferece graduação a milhares de pessoas. Assim, como já existiam o ensino fundamental e o médio gratuitos, o cidadão também pode fazer faculdade sem pagar e ser feliz aprendendo. É belo ver alguém desejando os livros. E o poeta sinalizou esse ponto.
Enfim, “Arco-íris Noturno” é um dos melhores livros de poemas da história da literatura do Sul e veio para ingressar no Cânone das Letras.