Caderno de Sábado

“Sigo à risca este propósito: Um desenho por dia”

A artista visual e professora no IA da Ufrgs, Maria Ivone dos Santos, escreve sobre a exposição “Arte Arto” de Fernando Augusto, que segue até 28/11 no V744atelier

O V744atelier, em Porto Alegre, realiza até 28 de novembro, a exposição “Arte Ato” de Fernando Augusto, com texto de Maria Ivone dos Santos
O V744atelier, em Porto Alegre, realiza até 28 de novembro, a exposição “Arte Ato” de Fernando Augusto, com texto de Maria Ivone dos Santos Foto : Cacá Lima / Divulgação / CP

O V744atelier recebe o artista, professor e pesquisador Fernando Augusto dos Santos Neto (1960), que reside e trabalha em Vitória no Espírito Santo, que tem uma produção ampla e reconhecida, e que transita pelas linguagens do desenho, pintura e da fotografia.

Conheci Fernando Augusto na Bahia, em 2006. Lembro que, na ocasião, ele me entregou em mãos um cartão postal. Era uma fotografia feita a partir de uma janela, uma vista para o mar. No verso desse cartão, pude ver com surpresa a impressão azul de um carimbo que estampava uma frase com uma proposta de trabalho artístico: Um Desenho por Dia.

Dezenove anos depois, e por um desses acasos nem tão casuais, poderemos ver exposto em Porto Alegre o desenvolvimento desta sua ideia ao longo desses anos, seus desdobramentos e suas ramificações.

“Arte Ato” é o título escolhido para a mostra que nos dá a ver três projetos importantes para o artista que se desprendem dessa proposta inicial. Neles, os processos de criação implicam protocolos, compromissos e promessas do próprio artista com seu fazer, aí incluída a decisão cumprida à risca, de anunciar o princípio e o fim de cada exercício estabelecido.

O longo corredor de entrada da casa onde se encontra o V744atelier é, a partir de agora, o local de estância de 60 desenhos feitos em 2016, cujo título é “Paisagem sonora”. A regra aqui foi de produzir diariamente um desenho com os olhos fechados, cujo ritmo da grafia fosse pautado pela sonoridade do local onde o artista se encontrava naquele momento. Ele executou suas ações traçando no papel linhas que correspondiam aos ritmos dos sons percebidos, levando a experiência da escuta à ponta dos seus dedos. Cada papel passou a ser o lócus que registrou graficamente os movimentos de sua mão, traduzindo e transportando para outra forma os sons da vida cotidiana. O corpo do artista tornou-se um veículo de recepção e transformação das sonoridades do mundo. Dada a natureza dos traços, ora nervosos ora mais suaves, os papéis foram habitados por essa espécie de escrita sismográfica. Além disso, o artista incluiu anotações, produzindo uma espécie de desenho-partitura, que colocam o observador em operações mentais: transitar pela linha, imaginar, deter-se diante do texto, ler e voltar ao traçado dos ritmos.

Duas prateleiras instaladas na sala contígua anunciam outro arranjo de obras. A mais alta delas apresenta 11 dos 12 livros feitos pelo artista em 2015, cujo conjunto se intitula “Um ano desenhando”. Cada compêndio se refere a um determinado mês que reúne a totalidade de desenhos do período, tendo sido feito um por dia. A regra se repete em todos os exemplares daquele ano. Na prateleira mais baixa, o artista nos mostra um dos livros aberto, com páginas em formato de sanfona. Esse livro-mês destacado do conjunto dá acesso a uma sucessão de desenhos de natureza distintas. Ali reúne desenhos de observação, anotações e linhas da arquitetura, e inclui exercícios de escuta similares aos mostrados no corredor. Cada livro testemunha as ocorrências cotidianas e o passar do tempo. A escrita e o desenho também se conjugam aqui.

A última sala acolhe a radicalidade dos gestos e da regra enunciada pelo artista em 2006, a de realizar desenhos em total silêncio, concentrando-se no próprio ato, e com o tempo que for necessário, preencher inteiramente uma folha com linhas horizontais numa espécie de transe meditativo. Novamente, ele produz um desenho por dia durante três anos, três meses e três dias, período que também dá nome a esse novo conjunto, concluído em 2009.

Assim como os dias se sucedem, os desenhos se acumulam como estratos em caixas meticulosamente organizadas. Esse processo de repetição quase obsessiva de gestos artísticos, o uso de regras explícitas e a relação com o cotidiano em projetos de longa duração o aproxima de artistas tais como Roman Opalka e On Kawara, artistas conceituais dos anos 60 e 70, que elaboram uma poética autorreferencial e vivencial que se formalizam em processos de arquivos, pois incorporam a passagem do tempo em suas linguagens.

Na exposição, quem visita é convidado a atravessar páginas e salas, transitando pelas bordas e versos dos desenhos de Fernando Augusto. Ao se dispor a ser testemunha ocular do traço que trafega entre o primeiro e o último desenho ali distribuídos, esta é uma oportunidade ímpar para conferir o que permanece da regra do artista e o que se transforma com ela. Talvez possamos intuir que a regra encobre um oceano e outras bordas existenciais que o artista em seu processo se dispôs a atravessar.