Caderno de Sábado

Silenciada, Jurema Finamour sobe ao palco

Jornalista, professora e pesquisadora Christa Berger, autora de “Jurema Finamour – A jornalista silenciada” trata do silenciamento da personagem histórica e saúda a montagem da Rakurs Teatro, “A Mulher que Virou Bode”

Espetáculo "A Mulher que Virou Bode" estreou nesta sexta-feira, 27 de junho, e segue de sextas a domingos, até 6 de julho, no Teatro Renascença
Espetáculo "A Mulher que Virou Bode" estreou nesta sexta-feira, 27 de junho, e segue de sextas a domingos, até 6 de julho, no Teatro Renascença Foto : Gilberto Perin / Divulgação / CP

“As águas do esquecimento estão repletas de náufragas e basta embarcar para começar a vê-las”, diz Rosa Montero em seu livro “Nós Mulheres” em que reúne minibiografias de náufragas à espera do resgate.

No Brasil faz algum tempo que embarcamos nessas águas, encontrando náufragas prontas para serem descobertas e quem as encontra sente necessidade de dar a conhecer a história de cada uma delas.

Por exemplo, a advogada pernambucana Mércia Albuquerque dedicou sua vida à defesa dos direitos humanos, defendeu presos e perseguidos políticos durante a ditadura militar e morreu em 2003. Quem além dos familiares dos mil casos que acompanhou e registrou em um diário, sabia dela? Localizado o diário, sua história foi contada em uma peça de teatro. “Lady Tempestade”, monólogo de Andrea Beltrão, dirigida por Yara de Novaes.

Outro exemplo, de recente resgate, é da socióloga e psicanalista Virginia Bicudo, que também morreu em 2003. Negra, foi a primeira mulher a fazer análise na América Latina, escreveu uma tese sobre relações raciais no Brasil e iniciou sua formação com outra mulher, a psicanalista alemã Adelaide Koch. A história delas virou filme, “Virginia e Adelaide” dirigida por Yasmin Thayná e Jorge Furtado.

Jurema Finamour, jornalista, viajante, escritora, exilada e presa, morreu em 1996 sem deixar rastros. Li um livro dela, “Vais bem Fidel”, em 1966 e, sem lembrar do conteúdo específico do livro, seu nome – Jurema Finamour – aparecia, de tempos em tempos, como uma assombração do passado. Por que ninguém falava nela e seu livro não era citado por quem escrevia sobre Cuba, se o dela, possivelmente, foi o primeiro ou um dos, escrito logo após a revolução cubana?

No “espírito do tempo”, em que as lembranças do que aconteceu no Brasil do golpe e da ditadura civil-militar merecem registro, e em que as águas do esquecimento começam a ceder, fui atrás da Jurema da minha adolescência. Espanto e perplexidade.

Como explicar sua ausência na história do jornalismo brasileiro, nos catálogos das editoras que publicaram seus livros, nas biografias de seus pares intelectuais dos anos 50 e 60 no Brasil?

A “amnésia sexista” que durou décadas desconhecendo as obras, os feitos e as criações das mulheres pertence ao passado. A história está sendo reescrita com camadas de heroínas que não reivindicam lugar heroico. Não se apresentam como infalíveis ou sempre vencedoras. Há uma história que não está nos livros de história e está pronta para ser contada. Nela as mulheres estão presentes, não negam adversidades, amores mal resolvidos, são muitas vezes chatas, impertinentes e erram.

Interessante é observar que muitas dessas histórias vão sendo contadas através de livros, documentários, filmes, peças de teatro. Dispositivos em que é permitido relacionar ficção e biografia. Ou, em que o autor está autorizado a se pronunciar na obra.

A expressão de Jurema foi a escrita. Escreveu cinco livros de viagem; um romance; três livros de culinária; dois livros de memória. Escreveu reportagens e publicou entrevistas nos jornais A Manhã; Diretrizes; Imprensa Popular; O Cruzeiro; O Semanário. Criou a revista Mulher Magazine, em que todas as funções eram exercidas por mulheres, escreveu verbetes para enciclopédias e dirigiu a coleção América Latina: realidade e romance. Ainda, assim, renegada ficou esquecida. Há um fio condutor que atravessa sua obra que, apesar de expressar conflitos pessoais e apontar desavenças, clama por paz.

No livro sobre a URSS, publicado em 1956, o prefácio leva por título “Pela Paz”. Que ela traduz do russo “Za Mir, o convite que nos dirigem os soviéticos.” Termina trazendo o convite para sua perspectiva de vida. “E a consciência adormecida por tanto tempo acorda e indaga: Pela Paz? Que terei feito de verdadeiro e profundo, até hoje, pela Paz?”

O livro sobre a Coreia, publicado em 1958 traz a ausência de Paz para o título. Lamentando a guerra, descreve como uma grande reportagem a Coreia sem Paz, o que o povo sofreu e o que lhe falta para chegar lá.

No romance publicado em 1961, “Precisa-se de uma Rosa, a trama se desenvolve entre 1939 e 1940, - quando a segunda guerra mundial começa a se tornar realidade e o Brasil vive sob a ditadura do Estado Novo. Julia, a personagem principal que pretende ser escritora, emancipa-se através da informação sobre o que acontece no Brasil e no mundo e faz sua escolha em diálogo com David, o militante internacionalista que cita André Gide para incentiva-la a se engajar na luta. “Se tu não fazes/quem o fará/se não agora/ quando será/”.

Pensando no romance que está escrevendo, Julia “devagar escolheu e desenhou o título PRECISA-SE DE ... como se desejasse anunciar e enviar esperanças, diante da mais terrível ameaça que já pesou sobre os homens, desde o princípio dos séculos.... E acrescentou UMA ROSA DE PAZ. Tempo Futuro que nos trarás? Tua rosa maior? Tua rosa de amor e de PAZ?” Aqui Jurema e Julia se encontram através do titulo que a personagem pretende dar ao livro que é o mesmo que a autora dá ao seu.

Quando projetou um livro de culinária queria chamá-lo: Paz entre os homens de bom apetite. Na apresentação do livro que acabou se chamando “Comendo a gente se entende”, (1970) Rachel de Queiroz, sua amiga, continuou associando comida à paz. “Não é à toa que as pessoas civilizadas só se reúnem em torno de uma boa mesa: o costume vem de longe, pois já os homens das cavernas comiam juntos em sinal de paz. Na verdade, sendo a alimentação a base de toda vida, haverá melhor símbolo de paz?”

Jurema, conhecida como a dona da casa da mesa sempre posta, acreditava que a conversa ao redor da mesa com boa comida era garantia de entendimento entre as pessoas. Deve ter sido sofrido para ela, fechar a porta da casa e não mais receber seus convidados.

Jurema Finamour veio à Porto Alegre em 1961 e falou no teatro de Equipe sobre sua recente viagem à Cuba. Também aproveitou a vinda para apressar o governador Leonel Brizola a terminar o prefácio para o livro da viagem, que se chamou “Vais bem Fidel”.

Nesse dia conheceu Maria Helena Correa Pires, que em seu livro de memória chamou de Heleninha, a fada boa. Elas ficaram amigas para sempre. Quando fugiu do Rio de Janeiro, logo depois do golpe em 1964, atravessou de ônibus o RS para chegar ao Uruguai, ser acolhida pelos gaúchos no exílio e depois seguir para Isla Negra, Berlim, Paris e quando decidiu retornar ao Brasil escolheu voltar de trem, novamente atravessando o RS. Foi detida em Rosário do Sul e ficou presa no DOPS em Porto Alegre por 50 dias.

Sessenta anos depois Jurema Finamour é retirada das águas do esquecimento em Porto Alegre para ser lembrada com palavras, movimento, luz e música composta especialmente para ela, através do corpo de mulheres que poderiam ser suas netas. A montagem da peça “A mulher que virou bode. A história perdida de Jurema Finamour” é uma realização do Rakurs Teatro, com direção e concepção de Marcelo Bulgarelli. O elenco, formado pelas atrizes e cantoras Deliane Souza, Eulália Figueiredo, Iandra Cattani, Luiza Waichel e Sofhia Lovison, interpreta no palco canções compostas especialmente para o espetáculo por Antônio Villeroy, com preparação musical de Simone Rasslan.